O computador em casa, inimigo do estudo
A investiga????o mais completa sobre o particular ?? de dois professores de Economia dos Estados Unidos, Ofer Malamud (Universidade de Chicago) e Cristian Pop-Eleches (Universidade de Col??mbia) (1). Um plano implementado na Rom??nia, pa??s de origem do segundo, ofereceu-lhes um caso extremamente adequado para comprovar que efeito tem no rendimento escolar a chegada de um computador pessoal a um lar onde antes não existia. Em 2008, o Minist??rio da Educa????o romeno ofereceu-se para subsidiar com cheques de 200 euros a compra de computadores para alunos de famílias de baixo rendimento matriculados em escolas públicas. Uma amostra dos 35.000 que receberam a ajuda são o grupo experimental do estudo; os que optaram por ela mas não a conseguiram, porque não havia cheques para todos, servem de grupo de controlo. Os dados foram obtidos com os resultados acad??micos dos alunos e de um inqu??rito feito a eles e aos seus pais sobre o uso do computador em casa.
Na Rom??nia, os alunos que obtiveram um computador dom??stico gra??as a um subs??dio do governo tiveram depois notas mais baixas em matem??tica, ingl??s e l??ngua romena, embora tenham melhorado na inform??tica
Resultado: em geral, os alunos que obtiveram um aparelho tiveram depois notas mais baixas em matem??tica, ingl??s e l??ngua romena, embora tenham melhorado na inform??tica. Pelo contr??rio, os do grupo de controlo não avan??aram nesta última mat??ria, mas muito menos pioraram nas outras.
A raz??o do efeito contraproducente do computador deduz-se do inqu??rito. Em muitos poucos casos os pais ou os próprios filhos instalaram programas educativos nas novas máquinas, e muitos poucos alunos usaram-nas para aprender ou para fazer trabalhos escolares. Usaram-nas sobretudo para jogar os jogos de computador, e de facto a chegada do aparelho traduziu-se no facto dos alunos dedicarem menos tempo a estudar, a ler e a ver televis??o.
Os investigadores observaram também que as restri????es paternas ao uso do computador parecem mitigar os efeitos nefastos, embora sem refor??ar os positivos (maior capacidade inform??tica). Disto inferem que ?? mais proveitoso estimular o estudo do que p??r limites ao computador; mas não o afirmam com segurança, porque os dados a esse respeito não t??m suficiente valor estat??stico.
Dar livros a crianças de extractos sociais modestos para lerem no Ver??o, evita que aumente a sua desvantagem em relação aos seus companheiros mais favorecidos
O computador s?? prejudica os pobres
O trabalho de Malamud e Pop-Eleches documenta o caso de estudantes com rendimento baixo. Outro trabalho de Jacob L. Vigdor e Helen F. Ladd (ambos da Duke University) compara-o com o de alunos com nível de vida superior (2). O cen??rio ?? a Carolina do Norte, onde come??ou a haver serviços de banda larga no ano 2000. Os investigadores examinaram os resultados acad??micos dos alunos de 11-14 anos desse estado, entre aquele ano e 2005.
Volta a verificar-se que a inform??tica em casa prejudica o rendimento escolar, mas apenas entre os alunos de extracto social modesto. ?? grande a descida de notas na l??ngua inglesa e na matem??tica entre os estudantes negros com computador, enquanto que entre os restantes alunos não se constata qualquer efeito em matem??tica e somente um muito ligeiro na l??ngua inglesa.
Os autores não sabem a que se deve essa diferença. Talvez, dizem, ao facto de nas famílias com bons rendimentos haver, em m??dia, maior supervis??o dos pais.
Poder-se-?? evitar os efeitos prejudiciais do computador assegurando que se utiliza como ferramenta educativa? Isso foi tentado numa experiência realizada com alunos do Texas, aos quais se ofereceu computadores port??teis que podiam levar para casa. Os aparelhos s?? tinham instalados programas de utilidade educativa, e tinham sido configurados para bloquear distrac????es (correio electr??nico, chat, jogos, s??tios web duvidosos...). As restri????es não funcionaram totalmente, porque muitos alunos aprenderam a ultrapassar algumas, mas reduziram as perdas de tempo.
Para ver como funcionou o plano, foram examinados os resultados acad??micos dos alunos que receberam os port??teis e comparou-se com os de alunos de nível de vida superior e com os de outros de escolas onde não se aplicou o plano. Os resultados, analisados pelo Texas Center for Educational Research, são amb??guos, de acordo com um artigo do Prof. Randall Stross no The New York Times (9-07-2010), que também comenta os estudos citados anteriormente. Foram detectadas ligeiras melhorias nalgumas mat??rias entre os estudantes com port??teis entregues pela escola, juntamente com uma baixa nas notas de l??ngua inglesa. O efeito igualizador com os companheiros de extractos sociais desafogados s?? ?? vis??vel nas capacidades inform??ticas.
Importa notar que estes estudos se referem ao uso dom??stico de computadores. Não implicam que seja in??til ou prejudicial que os alunos ou os professores utilizem equipamentos inform??ticos para as aulas na escola. Este ?? outro tema, sobre o qual se pode consultar o artigo "??Qu?? hace ese ordenador en el aula?" (Aceprensa, 2-12-2009).
A import??ncia de ter livros em casa
Pelo contr??rio, parece que seria melhor serviço para os alunos desfavorecidos ??-e mais barato- oferecer-lhes livros em vez de computadores. ?? o que indicam os estudos do Prof. Richard Allington (Universidade do Tennessee), que se concentrou no efeito de iniciativas para fomentar que os alunos de famílias modestas leiam no Ver??o. Estes alunos, em geral, não costumam ter nas suas f??rias aulas de recupera????o ou outras ajudas para fixar aquilo que aprenderam, e quando voltam ?? escola perderam terreno em relação aos seus companheiros com melhor nível de vida. No final da vida escolar, o atraso acumulado pode ser de dois anos ou mais em leitura e express??o verbal.
Isto ?? evit??vel em grande parte se os alunos lerem durante o Ver??o, o que pelos vistos não ?? dif??cil de conseguir se se lhes oferecer livros no final do ano lectivo. Allington afirma t??-lo comprovado com um estudo de tr??s anos, ainda in??dito, sobre uma experiência efectuada na Florida. As 852 crianças do ensino prim??rio, todas de zonas pobres, que receberam doze livros cada uma para o Ver??o, tiveram depois resultados francamente melhores que os outros companheiros (cfr. Houston Chronicle, 30-06-2010).
A efic??cia de tais iniciativas não tem a ver apenas, ao que parece, com o facto das crianças praticarem a leitura. Ter livros também fomenta nelas uma atitude favorável ao estudo. Talvez assim se expliquem as descobertas de outro trabalho recente, assinado pela socióloga Mariah Evans (Universidade do Nevada) e outros, sobre alunos de 27 pa??ses com níveis de vida extremamente diferenciados (3). Os autores descobriram uma relação estat??stica entre o nível educativo que um aluno atinge e o número de livros que existem na sua casa. Naturalmente, ao longo da vida acad??mica t??m influência outros factores, muito especialmente o nível educativo dos pais. Mas, segundo Evans e os seus colaboradores, uma biblioteca dom??stica de 500 ou mais livros tem mais ou menos o mesmo efeito que a presen??a de pais com título universit??rio. Em ambos os casos, os alunos frequentam em m??dia 3,2 anos mais de estudos que os seus companheiros que não t??m livros em casa ou cujos pais t??m apenas tr??s anos de escolaridade. A diferença não ?? a mesma em todos os pa??ses: por exemplo, ?? muito maior na China (6,6 anos) que nos Estados Unidos (2,4 anos).
Vem a propósito referir o que h?? alguns anos escreveu Simon Jenkins, que trabalhou no The Times como director (1990-1992) e comentarista (1992-2005), a respeito da import??ncia diferenciada da Internet e da literatura na formação dos estudantes. "Uma casa sem livros ?? uma hospedagem, mas não um lar. As crianças que não l??em romances talvez tenham destreza, mas não educa????o" (The Sunday Times, 16-02-1997).
Notas
(1) "Home Computer Use and the Development of Human Capital". Ser?? publicado num próximo número do Quarterly Journal of Economics. Est?? disponível a minuta (PDF, 394 KB).
(2) "Scaling the Digital Divide: Home Computer Technology and Student Achievement", NBER Working Paper No. 16078, Junho 2010: ver sum??rio.
(3) M.D.R. Evans, Jonathan Kelley, Joanna Sikora e Donald J. Treiman,"Family scholarly culture and educational success: Books and schooling in 27 nations", Research in Social Stratification and Mobility, Junho 2010, pp. 171-197: ver sum??rio.

