Sem pai não h?? família
Anatrella adverte que a desvaloriza????o da fun????o paternal tem consequências sobre a estrutura????o ps??quica dos indiv??duos e sobre a sociedade: debilita????o da imagem masculina, transtornos da filia????o, aumento das condutas dependentes, perda do sentido dos limites (toxicomanias, bulimia/anorexia, pr??ticas sexuais), dificuldades de sociabiliza????o, etc.
A sociedade actual valoriza muito a figura da m??e. ?? verdade que esta ?? uma fonte de segurança para a criança, mas a relação da m??e com o filho necessita de ser completada com a fun????o paterna. ????? o pai que diz que não (tanto ao filho como ?? m??e, o que permite justamente diferenciar os dois pais), ?? ele que introduz a negatividade e que declara a proibi????o, quer dizer, o limite do possível???.
A figura do pai ?? necessária para o desenvolvimento psicológico equilibrado dos filhos. O pai ?? o mediador entre a criança e a realidade; permite ao filho tomar iniciativas, ???porque ocupa uma posi????o de terceiro, de companheiro da m??e e não de m??e-bis???. Gra??as ?? figura do pai, o beb?? aprende a diferenciar-se da m??e e a adquirir autonomia ps??quica. A criança descobre que não ?? ela que faz a lei, mas que existe uma lei fora dela.
Gra??as ?? relação com o pai, o rapaz e a rapariga adquirem também a sua identidade sexual. ???A diferença de sexos encarnada pelo pai joga, por outro lado, um papel de revela????o e de confirma????o da identidade sexuada. Tanto a rapariga como o rapaz t??m de facto a tendência, no início, para se identificarem com o sexo da m??e, e ?? o pai, na medida em que ?? reconhecido por ela, que vai permitir que o filho se situe sexualmente???.
O pai excluído
Por que raz??o se imp??s na nossa sociedade esta ideia da aus??ncia do pai? Hoje divulga-se a figura do pai indigno ou incompetente, sustentada pela legisla????o e estereotipada pelos meios de comunicação. ???Assim, na maior parte dos gui??es das s??ries televisivas, ?? apresentado como incapaz de se situar na relação educativa, de se ocupar de adolescentes, menos ainda de proclamar as exigências necessárias ?? vida em sociedade, inclusivamente de repreender quando necessário???.
Muitas mulheres recriminam os homens por não cumprirem o dever de pais quando, mais ou menos conscientemente, são elas próprias a comportarem-se de modo a não lhes deixarem o lugar que lhes corresponde. ??? A m??e afasta deste modo o pai, com o risco de o culpabilizar no processo perverso que lhe permite confirmar o seu poder e o seu sentimento de omnipot??ncia sobre os filhos, sobre o marido e sobre o pai???.
O que se valoriza sobretudo ?? a relação m??e/filho e o pai julga que tem de ser a segunda m??e para ser aceite. Alguns homens, condicionados por este conformismo, chegaram a identificar-se com o ???modelo de ???pais-galinha???, quer dizer, não um pai, mas antes um irm??o mais velho ou um tio???.
A aus??ncia do pai explica-se também pela confus??o entre procria????o e maternidade. Para Anatrella, esta confus??o ???remete para o fantasma feminino da partenog??nese (quer dizer, da fecunda????o sem interven????o masculina). A sociedade confirmou demasiado cedo este fantasma, acreditando na ideia de que, ao não dizer respeito a não ser ?? mulher a procria????o e a maternidade, ela pode educar um filho sem pai???.
O desenvolvimento dos anti-conceptivos e a banaliza????o do aborto contribuíram para sustentar esta ilus??o de que a mulher domina sozinha a procria????o. Daqui surgiu um slogan: ???O meu corpo pertence-me???. Afirmar isto ?? subentender que ???a procria????o pertence-me???, o que ?? muito discut??vel. ???Se a maternidade s?? diz respeito ?? mulher, a procria????o ?? partilhada pelo homem e pela mulher: não ?? s?? competência da mulher???.
Filho-objecto
Os pa??ses ocidentais contribuíram para refor??ar esta concepção do pai excluído da procria????o. Isto acontece cada vez que se legisla pensando unicamente na m??e como se o pai não existisse. O exemplo próximo que Anatrella descreve ?? o das leis francesas que, em caso de div??rcio, fazem depender os direitos do pai das boas ou m??s relações que tenha com a m??e. O mesmo acontece com as decisões judiciais, ao confiarem sistematicamente a cust??dia do filho ?? m??e.
O mais grave do assunto ?? que a exclus??o do pai penaliza também os filhos. ???Ao privilegiar os direitos da m??e, não se ter?? criado uma dupla categoria de excluídos: por um lado os pais biológicos repudiados, por outro lado os filhos, entregues a um pai de substitui????o um atr??s de outro, ou inclusivamente confiados a terceiros especializados que se oferecem como protectores, ???filhos-objecto???, ???filhos-capricho???, ???filhos-pr??tese???????
A aus??ncia do pai tem efeitos muito negativos no desenvolvimento dos filhos. De acordo com inqu??ritos citados por Anatrella, nos Estados Unidos uma criança corre cem vezes mais riscos de crescer na pobreza e duas vezes mais de abandonar a escola, se foi educada s?? pela m??e, do que se pertence a uma família constitu??da por pai e m??e, capazes de lhe oferecerem pontos de refer??ncia.
A consequência última da aus??ncia do pai manifesta-se no aumento da violência. Não chegando a aceitar a realidade, por falta do sentido dos limites que deveriam ser inculcados pelo pai, os filhos revoltam-se e multiplicam-se os actos de violência, mas a agressividade também se volta contra si próprio e converte-se em auto-destrui????o.
Repensar a família
Como se chegou a este ponto? Para Anatrella, o problema da aus??ncia do pai est?? intimamente ligado a outro problema mais geral: o do desmembramento da família constitu??da por um pai e uma m??e com filhos. ???A família destr??i-se, com efeito, sobretudo sob a press??o do par actual em que os indiv??duos, enquanto tais, não procuram sen??o o seu próprio benef??cio atrav??s do outro. Destr??i-se também porque, muitas vezes, omite o seu papel educativo???.
A crise da família manifesta-se no decr??scimo de casamentos e na prolifera????o das uni??es de facto, na baixa fecundidade, na multiplica????o de div??rcios. Por??m, tem também uma causa mais profunda: o problema est?? nas representa????es sociais da família, na concepção que dela temos.Para revalorizar a figura do pai, Anatrella prop??e que se recupere o sentido da família. Trata-se de redescobrir o que significa a experiência do parentesco e a diferença de gerações. ?? necessário afirmar que o pai e a m??e são necessários, que nenhum deles ?? mais do que o outro, que nenhum deles ?? substitu??vel ou pode ser trocado pelo outro.
- Tony Anatrella. A diferença interdita. Sexualidade, educa????o, violência, editado no Brasil por Edi????es Loyola, S.Paulo (data de edi????o não disponível) ; t.o.:La diff??rence interdite.

