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Mau comportamento dos m??dia nos relatos dos abusos a crianças na Irlanda

 Pedofilia
Mau comportamento dos m??dia nos relatos dos abusos a crianças na Irlanda

O centro da aten????o medi??tica foram as congrega????es religiosas que dirigiam estas instituições. "A Igreja católica maltratou milhares de crianças..." ?? o tipo de títulos mais usado. E sem dúvida que as congrega????es religiosas que dirigiam esses internatos t??m uma s??ria responsabilidade. Não s?? porque faziam a gestão di??ria desses centros, mas também porque de uma institui????o cristã dedicada ?? educa????o de crianças se espera um especial respeito pela sua dignidade. Por isso, o Cardeal Sean Brady, primaz da Igreja na Irlanda, declarou-se "profundamente triste e envergonhado" por estes actos, ocorridos h?? bastantes anos.

 

Mas centrar a responsabilidade unicamente nas congrega????es católicas implicadas pode ser um modo c??modo de passar por alto as das restantes instituições. O relatório não as esquece. Não ?? f??cil que aqueles que nos últimos dias escreveram nos jornais tenham lido o longo texto (cinco volumes, num total de 2.575 p??ginas), mas a s??ntese de 30 p??ginas ?? suficiente para fazer notar outras responsabilidades que poucos mencionam.

 

Em primeiro lugar, a responsabilidade da sociedade irlandesa na manuten????o de um sistema de orfanatos e reformat??rios obsoleto, que não foi inventado pela Igreja Católica. O relatório "descreve um sistema vitoriano de cuidados infantis que não soube adaptar-se ??s condições do s??culo XX e que não deu prioridade ??s necessidades das crianças".

 

Basta observar, por exemplo, que o maior desses estabelecimentos (Artane) acolhia 830 crianças, um número que "tornava impossível que cada criança recebesse cuidados aceit??veis". Sobre outro, Letterfrack, diz que era "uma institui????o com m??s condições, sombria, isolada e s?? acessível de bicicleta ou de carro, fora do alcance das famílias e dos amigos dos pequenos a?? recolhidos".


Tamb??m h?? responsáveis sem h??bito

 

Era o Minist??rio da Educa????o que tinha a responsabilidade legal sobre essas escolas (Industrial and Reformatory Schools). Tamb??m era o Minist??rio que tinha a obriga????o de pagar as despesas das crianças, e as m??s condições de vida testemunham o que estava o Estado disposto a gastar. ?? verdade que a Irlanda não era ent??o o pa??s rico que hoje conhecemos, mas um pa??s de onde muitos tinham ainda de emigrar para ganhar a vida e sair da pobreza. Mas não restam dúvidas de que estes reformat??rios nunca foram uma prioridade social.

 

Pelo contr??rio, foram um meio c??modo de armazenar crianças mais ou menos problem??ticas. Segundo a Comissão, "h?? provas que demonstram que muitas crianças foram mandadas sem necessidade para as Industrial Schools".

 

O Estado fracassou também na sua fun????o de inspec????o. O relatório diz que "as inspec????es eram demasiado escassas e com um alcance limitado". E não retira responsabilidades aos funcion??rios, que "tinham consciência de que havia abusos nas escolas, sabiam que a educa????o ministrada era inadequada e que o ensino das profiss??es estava desfasado".

 

O Minist??rio também preferiu não se dar por achado sobre os abusos. "As queixas apresentadas ao Minist??rio por pais e outras pessoas não foram devidamente investigadas", reconhece a Comissão.

 

E também não ter?? sido necessário usar h??bito para incorrer em abusos sexuais. Segundo o relatório, "as testemunhas afirmaram ter sido submetidas a abusos sexuais por religiosos e por pessoal laico nas escolas e instituições, por outros internados e também por profissionais, tanto externos como internos ??s instituições. Tamb??m afirmaram ter sido vítimas de abusos sexuais por membros do público em geral, incluindo assistentes sociais, visitantes, empregados e famílias de acolhimento".

 

Abuso informativo

 

O relatório critica o facto de os superiores das ordens religiosas terem preferido silenciar os casos de abusos, limitando-se a transferir os religiosos que os cometiam. Mas houve outras autoridades e profissionais civis que actuaram com a mesma irresponsabilidade. "Os testemunhos demonstram que os abusos a crianças das escolas e instituições eram conhecidos na sociedade, tanto a nível oficial como não oficial", diz o relatório. E menciona os inspectores do Minist??rio, os m??dicos e os mestres que atendiam estas escolas, bem como o pessoal empregado no local, que "n??o souberam proteger as crianças".

 

Dentro deste quadro geral de maus-tratos e indiferença, "as testemunhas mencionam também experiências positivas, como a afabilidade de alguns religiosos e membros laicos do pessoal directivo das escolas, incluindo um certo número de pessoas que lhes proporcionaram apoio em tempos de dificuldade, até serem postos em liberdade".

 

Nas conclus??es, o relatório faz refer??ncia ??s "li????es do passado que devem ser aprendidas", tanto pelo Estado como pelas congrega????es religiosas. "Para o Estado, ?? importante reconhecer que o abuso das crianças ocorreu por falhas do sistema e da política, de gestão e administra????o, assim como por responsabilidade dos funcion??rios" relacionados com estas escolas. ??s congrega????es ?? pedido que "examinem como foi possível que os seus ideais fossem degradados pelos abusos continuados. Devem perguntar-se como toleraram tais infrac????es ??s suas próprias regras, e como responderam quando os abusos sexuais e f??sicos foram descobertos".

 

H?? certamente motivos de exame de consciência para os religiosos, mas não s?? para eles. Em Maio de 1999, o primeiro-ministro Bertie Ahern pediu perd??o a todas as crianças que tinham sofrido abusos e reconheceu "o fracasso colectivo [do pa??s] para intervir". Por isso, pedir contas s?? ?? Igreja ?? um mau comportamento dos m??dia, ?? outra forma de abuso, este informativo.


Ignacio Ar??chaga