A tempestade que se aproxima
A cobertura medi??tica dos abusos sexuais de menores por parte de sacerdotes católicos est?? a ser formatada de acordo com o modelo do Watergate: crimes sensacionais, encobrimentos de décadas, jornalistas persistentes, nega????o por parte dos implicados, meias desculpas de burocratas atemorizados, amea??as que conduzem ?? caverna das mentiras e da obstru????o ?? justi??a. S?? falta o Garganta Funda.
??Esc??ndalo de abusos na Alemanha come??a a ro??ar o Papa??, era um título recente do New York Times, que foi ao ponto de constituir um blogue exclusivamente destinado a analisar e interpretar os acontecimentos.
De dia para dia, o ru??do ?? mais intenso. Recentemente, Christopher Hitchens, um dos ateus favoritos dos media, acenava com uma s??rie de recortes de jornais amarelados pelo tempo, com base nos quais lan??ava um violento ataque na Slate, uma revista online: ??Toda a carreira do Papa est?? marcada pelo fedor do mal??.
Bento XVI publicou j?? uma carta aos bispos católicos da Irlanda acerca do horrendo esc??ndalo que devastou o pa??s, carta que levar?? certamente muitos a perguntar se os abusos sexuais da Alemanha não ser??o o Watergate do Papa, se ele se ver?? obrigado a pedir a demissão, e se a Igreja Católica se ver?? for??ada a abandonar a sua tradi????o de celibato para os sacerdotes.
O esc??ndalo dos membros do clero que abusaram sexualmente de crianças ?? diabolicamente real, e tem de ser enfrentado com humildade e com coragem pelos bispos que dirigem a Igreja Católica. Os membros do clero que forem culpados destes actos t??m de ser punidos; os membros da hierarquia que os ocultaram devem resignar.
Não h?? dúvida de que o Papa Bento XVI est?? disposto a assumir uma linha dura neste domínio. Não ?? em v??o que - contrariamente ao que Hitchens afirma - foi ele o autor das orienta????es dadas sobre este assunto, orienta????es ali??s muito claras e que ele próprio aplicou de forma rigorosa. Em diversas ocasi??es tem o Papa referido a ??profunda vergonha?? que sente perante a revela????o de que alguns sacerdotes atrai??oaram a sua voca????o, comportando-se como predadores de crianças. Quando, em 2008, se dirigiu aos bispos americanos, citou-os com um toque de sarcasmo, comentando que a crise tinha sido ??por vezes muito mal gerida??.
Mas ?? importante recordar que estes esc??ndalos se referem a crimes cometidos h?? várias décadas. Ora, os candidatos a Woodwards e Bernsteins [os dois jornalistas americanos que revelaram o esc??ndalo Watergate] estão a desviar as aten????es de uma crise que est?? a decorrer hoje, uma crise de que os media estão a desviar-nos as aten????es como os bispos alem??es fizeram h?? trinta anos, uma crise em que eles próprios desempenham um papel activo.
A Chanceler alem??, Angela Merkel percebeu muito bem o que se estava a passar, quando declarou que o abuso de menores era ??um crime desprez??vel??, mas se recusou a considerar que a Igreja Católica era a única institui????o que devia ser objecto de cr??ticas. ??Não simplifiquemos demasiado as coisas??, disse Angela Merkel. ??Podemos considerar a necessidade de alterar estatutos, podemos dar indemniza????es, mas a questão principal ?? que estamos perante um grande desafio para toda a sociedade.??
O grande furo jornal??stico, a história de que ningu??m fala, ?? que estamos a viver em nega????o de um sistem??tico, abrangente e deliberado processo de promo????o de uma sexualidade descontrolada. ?? como se o serviço nacional de sa??de tivesse substitu??do os cirurgi??es por bruxas e praticantes de reiki; ou como se o minist??rio da defesa estivesse a deixar enferrujar os tanques. Alguns dos princ??pios fundamentais de uma sociedade civilizada, como a conten????o sexual, a fidelidade matrimonial, a promo????o da família, estão a ser activamente postos em causa. E a espantosa lista de políticos apanhados com as cal??as na m??o (literalmente), o tsunami de pornografia e de actividade sexual entre adolescentes, são campainhas de alarme acerca das consequências resultantes da cria????o de uma cultura hiper-sexualizada.
Basta pensar no an??ncio feito recentemente por uma empresa australiana, de que tinha vendido ao gigante farmac??utico Ely Lilly, por 335 milhões de dólares, os direitos de comercializa????o de um desodorizante de testosterona que tem como finalidade fazer aumentar o impulso sexual masculino.
Ou na recente notícia de que a Federa????o Internacional de Planeamento Familiar presenteou as escuteiras com um atractivo panfleto em que as incitava a ??terem relações sexuais de muitas maneiras, e com parceiros diversos??.
Ou no facto de o governo do Reino Unido ter decidido alargar a educa????o sexual a crianças de cinco anos.
Se estas ideias tivessem sido propostas por um sacerdote, haveria imediatamente quem dissesse que se tratava de um predador. E de facto trata-se de ideias predadoras, que querem atacar a sociedade, com vista ao lucro. Que sociedade estamos n??s a criar, quando incitamos as crianças a tratar o sexo como se fosse um passatempo e os homens a permanecerem num estado de permanente excita????o? O sexo não ?? um brinquedo. Na aus??ncia de padr??es morais muito claros, o sexo ?? uma paix??o natural que facilmente se transforma num v??cio antinatural. Algu??m acredita que, dentro de trinta anos, haver?? menos abusos sexuais, quando as crianças aprendem a masturbar-se nas aulas?
De todas as instituições sociais, d?? a impress??o de que a Igreja ?? a única que se apercebe de que se prepara uma crise, pela qual vamos pagar caro nos anos que se seguem. Como Bento XVI dizia aos bispos americanos:
As crianças merecem crescer com uma vis??o saud??vel da sexualidade e do lugar que ela ocupa nas relações humanas, e devem ser poupadas ??s manifestações degradantes e ?? crua manipulação da sexualidade que ?? hoje dominante. T??m o direito de ser educadas em valores morais aut??nticos, enraizados na dignidade da pessoa humana. [...] Que sentido tem falar de protecção de menores, quando a pornografia e a violência estão presentes em tantas casas de família, por via de media hoje totalmente disponíveis?
Contrariamente ?? impress??o transmitida pelos media, a Igreja Católica tem conseguido ensinar os seus sacerdotes a controlar e a canalizar a sexualidade. H?? 400.000 sacerdotes celibat??rios em todo o mundo. O número dos que foram acusados de maus comportamento sexual ?? uma frac????o min??scula, embora o Papa considere certamente que um ??nico j?? ?? demais. ?? verdade que os bispos e os sacerdotes devem rasgar as vestes de vergonha pelos crimes bestiais destes padres. Mas tal não deve impedi-los de avisar o mundo da crise de abusos que se aproxima.
Michael Cook
editor de www.mercatornet.com

