Salvar a alma moderna
Como o próprio título do livro sugere - "Salvar a alma moderna" - a linguagem terap??utica tornou-se em muitos casos numa espécie de substituto (fraudulento) dos referentes, não s?? religiosos mas também morais, usados para articular a identidade pessoal com o modo de viver no mundo.
Freud na cultura popular
A socióloga Eva Illouz, professora no Departamento de Antropologia da Universidade de Jerusal??m, j?? tratou este tema em Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Na introdução, Illouz interroga-se sobre a raz??o do "??xito" da psicologia, especialmente na Am??rica. E faz notar que as ideias "mais bem sucedidas" são as que satisfazem tr??s condições: a) t??m sentido dentro da experiência social das pessoas (rápidas transforma????es económicas, modelos demogr??ficos, fluxos de imigração, mobilidade social, ansiedade por estatuto); b) proporcionam linhas directivas acerca de ??reas da conduta social afectadas por ambiguidade ou conflito (sexualidade, amor, ??xito económico); c) devem institucionalizar-se e circular em redes sociais.
A conflu??ncia destes tr??s factores explica o manifesto impacto de Freud na cultura americana. Illouz refere-se particularmente ??s "conferências Clarke", ditadas pelo austr??aco em 1909. A partir da??, a psican??lise desenvolveu-se rapidamente na Am??rica, pois coincidiu com um momento de transformação social com impacto sobre a família, a sexualidade, as relações de g??nero, tendo tudo isto tornado os americanos particularmente receptivos ??s categorias - met??foras - freudianas. Por outro lado, os modelos psicológicos de Freud eram apresentados numa linguagem h??brida, que combinava no????es populares de cura com a linguagem legitimadora da medicina e da racionalidade cient??fica.
Como relacionaram os americanos a sua experiência com a linguagem da psican??lise? Illouz sugere que as explicações para esta influência se devem procurar, por um lado, na aten????o que Freud prestava a fenómenos insignificantes da vida ordin??ria, que ?? luz das suas teorias pareciam de imediato repletos de significado - os sonhos, os deslizes verbais - e por isso merecedores de um escrut??nio sem precedentes; por outro lado, no facto de a família - os traumas familiares - desempenhar um papel t??o importante nas explicações freudianas do desenvolvimento psicológico; e ainda no facto de a psican??lise se apresentar conforme com os padr??es de uma "narrativa da salva????o", no sentido de que em todo o relato psicanal??tico h?? uma meta - a sa??de mental.
Talvez esta última refer??ncia ?? sa??de como meta seja precisamente um dos aspectos mais dignos de men????o: com Freud esfumam-se as fronteiras entre o normal e o patológico, a ponto de o que anteriormente se podia designar por "sa??de" ou "comportamento normal" se torna patológico, fazendo com que a normalidade seja desde ent??o olhada com suspei????o. Al??m disso, outro factor relevante para explicar a receptividade a Freud foi a insist??ncia no prazer sexual como objectivo perseguido tanto por homens como por mulheres.
Illouz sublinha que foi a introdução de todas estas ideias num anterior ideal cultural rom??ntico, muito arraigado na mentalidade americana, e que se pode descrever como "procura de si próprio", que deu ?? psican??lise um impulso peculiar naquele pa??s.
Com base nisto, o modelo terap??utico de compreens??o de si próprio ganhou rapidamente grande popularidade gra??as aos meios de comunicação, particularmente a literatura de auto-ajuda, o cinema e a publicidade - vias que Illouz ilustra de maneira convincente.
O "ethos" terap??utico entra na empresa
A meu ver, o capítulo mais esclarecedor ?? o que tem por título "From homo ??conomicus to homo communicans", no qual Illouz se refere ao impacto dos psicólogos na empresa americana, em particular a partir das experiências com que Elton Mayo revolucionou a teoria do management e da lideran??a, dando início ?? "Escola das Rela????es humanas".
Como ?? sabido, entre os anos 1924 e 1927 Mayo realizou nas oficinas da "Hawthorne Western Electric Company" uma c??lebre experiência, com a qual demonstrou que a produtividade aumentava se fossem tidos em conta aspectos emocionais e de relação, atendendo aos sentimentos dos empregados. Como lucidamente assinala Illouz, introduzia-se deste modo uma mudança significativa: em lugar da anterior linguagem vitoriana que salientava a necessidade de "carácter", Mayo empregava a linguagem cient??fica e amoral da psicologia, que permitia compreender as relações humanas como problemas técnicos, suscept??veis de solução, desde que se dispusesse do conhecimento apropriado.
"A partir dos anos 30, quase todos os livros de management real??avam o valor da linguagem positiva, da empatia, do entusiasmo, da afabilidade e da energia, e os livros mais recentes advogavam uma mistura de espiritualidade e apelo terap??utico a resolver ansiedades, cuidar o eu e cultivar pensamentos positivos acerca de si próprio e dos outros... Com efeito, a energia positiva, manifestada no facto de cada qual adoptar uma atitude entusiasta e aparentemente sem problemas, ?? mais um atributo importante do director, cujo auto-controlo deve ser sempre pessoal e af??vel".
Illouz d?? assim início ??quilo a que chama "estilo terap??utico emocional", que teve como efeito indirecto a progressiva redefini????o da masculinidade dentro da empresa: "A psicologia - escreve ela - transformou profundamente a cultura emocional do lugar de trabalho, ao fazer a cultura emocional de homens e mulheres convergir progressivamente para um modelo andr??gino comum".
O estilo de management promovido por Mayo fomentava uma forma de sociabilidade baseada na comunicação, sem por isso deixar de refor??ar o forte individualismo caracter??stico do homo ??conomicus. Este continua a procurar o seu próprio interesse, com a particularidade de ter agora descoberto que a promo????o do seu próprio interesse depende de se manter dentro de uma rede de influentes relações sociais, e, portanto, de adoptar as adequadas estratégias comunicativas, isto ??, converter-se em homo communicans. Neste contexto, o ??nico imperativo ?? manter relações af??veis com todos, impondo-se para tal evitar a todo o custo a express??o de emo????es presumivelmente "negativas".
Uma forma sofisticada de domestica????o
O ethos terap??utico fomenta deste modo uma aproxima????o formal, procedimental, ?? própria vida emocional, que contrasta com uma vis??o das emo????es em que se atende aos conteúdos substantivos. Com efeito, a vergonha, a ira, a culpa, a honra ofendida, a admira????o, são emo????es bem distintas entre si, definidas por um conteúdo moral e por uma vis??o substantiva das relações humanas; mas todos estes matizes se esfumam na medida em que o ethos terap??utico, preocupado sobretudo com o controlo das emo????es perturbadoras da paz social, as concebe como sinais de imaturidade ou de disfun????o emocional.
A ideia de que algumas emo????es são manifestações adequadas perante a injusti??a, ou que por vezes, precisamente por motivos de justi??a, é preciso questionar a paz social, simplesmente desaparece do horizonte. Quem questiona a paz social movido por determinados princ??pios ou por questões de honra ?? simplesmente considerado imaturo e irracional, incapaz de pensar estrategicamente e de salvaguardar o seu próprio interesse. Deste modo, convertendo a pessoa que coloca um problema em psicologicamente problem??tica, desvia-se a aten????o do problema objectivo que esta pudesse apresentar. Segundo o meu modo de ver, semelhante neutraliza????o psicologista de todo o conteúdo moral e veritativo não constitui sen??o uma forma sofisticada de domestica????o e de domínio.
Em todo o caso, na medida em que o ??nico imperativo absoluto do estilo terap??utico emocional, estimulado pela psicologia, ?? o de controlar as emo????es a fim de comunicar com uma grande variedade de pessoas, esse estilo acabou por constituir um novo critério de estratifica????o cultural.
Este critério serve para definir uma particular forma de competência: a competência emocional, ou a capacidade de exibir um estilo emocional definido e legitimado pelos psicólogos, os quais, mediante o recurso ?? "intelig??ncia emocional", formalizaram e codificaram estas competências consoante as necessidades do mercado.
"O capitalismo contempor??neo - escreve Illouz - requer habilidades simb??licas e emocionais que o ajudem a lidar com pessoas e situações sociais muito variadas, em mercados complexos, vari??veis e incertos. A intelig??ncia emocional reflecte o estilo emocional e os modelos de sociabilidade das classes m??dias, cujo trabalho na economia capitalista contempor??nea requer uma cuidadosa gestão do eu; indiv??duos que estão estreitamente dependentes do trabalho em equipa, que estão constantemente a avaliar os outros e são avaliados por eles, que se movem em vastas cadeias de interac????o, que se encontram com uma enorme variedade de pessoas pertencentes a grupos muito diversos, que devem ganhar a confian??a de outros e até de todos os que trabalham em ambientes onde os critérios de ??xito são contradit??rios, evasivos e incertos".
A coloniza????o da família atrav??s da terapia
Não menor impacto teve a adop????o da linguagem psicológica no seio da família. Illouz sintetiza estas transforma????es no despontar de um novo ideal de vida conjugal e familiar: a intimidade, um ideal que, por sua própria indefini????o, facilmente pode converter-se - como bem observa Illouz - num ideal tir??nico, contra o qual inconscientemente medem for??as as relações. Isto constitui um motivo mais para se entregar nas m??os dos "peritos" em emo????es, a quem corresponderia definir os limites da intimidade abaixo dos quais uma relação ?? "problem??tica".
Com efeito, o modelo comunicativo criado pelo ethos terap??utico emocional estipulou que um bom casamento ?? aquele em que o homem e a mulher podem verbalizar e falar acerca das suas necessidades e desacordos. Neste sentido, a difusão maci??a do "ethos terap??utico emocional" explica que disponhamos agora de um rico e elaborado vocabul??rio das emo????es, que serviu em parte para estandardizar e racionalizar a vida emocional.
Conv??m, contudo, notar que neste modelo se encontra impl??cito o mesmo conceito individualista do ser humano, centrado nos seus desejos, necessidades e interesses, que observ??mos no ??mbito da empresa. Na realidade, como aponta Illouz, "este novo modelo de intimidade adaptou clandestinamente ao quarto de dormir e ?? cozinha a linguagem liberal e utilitarista de direitos e negocia????es próprio da classe m??dia, introduzindo formas e normas públicas de discurso nas quais até esse momento tinha prevalecido a reciprocidade, o sacrif??cio e a doa????o. Do mesmo modo que o ethos terap??utico tinha introduzido um vocabul??rio de emo????es e a norma da comunicação dentro da empresa, empregou também uma aproxima????o racional e quase económica ??s emo????es na esfera dom??stica".
Vemos, assim, como pouco a pouco a linguagem psicológica se foi institucionalizando e conquistando ??reas cruciais da vida humana.
Cultura terap??utica, cultura da vitimiza????o
O alargamento indiscriminado do conceito de sa??de, até abarcar o "completo bem-estar f??sico, ps??quico e social", constitui a trama em redor da qual se articulam muitas vidas contempor??neas.
Neste sentido, ?? m??rito de Illouz mostrar que a cultura terap??utica, cuja voca????o prim??ria, em teoria, ?? "curar", gera por si s?? uma estrutura narrativa em que o sofrimento e a vitimiza????o são traços definidores do sofrimento.
De facto, "ao apresentar como objectivo um ideal de sa??de indefinido e expansivo, todos e cada um dos comportamentos podem, pelo contr??rio, ser catalogados como ???patológicos', ???doentios', ???neur??ticos', ou, mais simplesmente, ???disfuncionais' ou ???n??o auto-realizadores'. A narrativa terap??utica apresenta ao eu a meta de alcançar a ???normalidade', mas como esta meta nunca recebe um conteúdo positivo, produz de facto uma enorme variedade de pessoas realizadas e, por isso mesmo, doentes. A narrativa de auto-ajuda não ?? rem??dio para o erro ou a mis??ria; a própria insist??ncia em procurar níveis de sa??de e auto-realiza????o cada vez mais elevados produz antes narrativas de sofrimento".
Dessa simbiose se alimenta hoje uma poderosa indústria, que vai desde os conselhos dados nas revistas populares até aos livros de auto-ajuda, e que constitui mesmo a mat??ria favorita de muitos talk-shows. Pois "a narrativa terap??utica transforma as emo????es em objectos públicos que devem ser expostos, discutidos, argumentados, e, sobretudo, representados, isto ??, comunicados a uma audi??ncia e avaliados em termos de autenticidade".
No entanto, para al??m desta verbaliza????o das emo????es, em boa medida possível gra??as ?? linguagem técnica da psicologia, o que d?? a esta linguagem a sua indiscut??vel for??a cultural ?? a narrativa terap??utica que lhe serve de base. Ao centrar a aten????o sobre o eu e propor como meta um ideal de sa??de, naturalista mas inalcan????vel, oferece ??s biografias mais correntes um fio condutor, tecido de vitimiza????o e de heroicidade.
Pronto para ser mostrado em público
"Nenhuma outra linguagem cultural mistura emocionalidade privada e normas públicas como a linguagem da psicologia, - escreve Illouz -. A linguagem da psicologia codificou o eu privado, e o eu converteu-se em algo pronto para escrut??nio e exibi????o pública. Este mecanismo pode transformar o sofrimento em vitimiza????o e a vitimiza????o em identidade. A narrativa terap??utica convida-nos a melhorar as nossas vidas, mas f??-lo convidando-nos a fixarmo-nos nas nossas deficiências, sofrimentos e disfun????es".
"Ao fazer deste sofrimento uma forma de discurso público em que se mostram a terceiros as feridas feitas por outros, cada um se converte ipso facto numa vítima pública, algu??m cujo dano ps??quico aponta para as ofensas perpetradas por outros e adquire um estatuto de vítima no próprio acto de contar a outrem, em público, as ofensas sofridas".
Illouz não se engana quando, ao analisar estas narrativas contempor??neas, descobre que têm na base uma problem??tica ideia de responsabilidade, segundo a qual cada um seria responsável pelo seu próprio futuro, mas não pelo seu passado; ideia que al??m disso reflecte um novo modelo de subjectividade: passiva, na medida em que se define pelas feridas feitas por outro, mas também activa, na medida em que experimenta a forte exigência de mudar; em suma, um eu que se considera responsável pela sua auto-transformação, mas não se considera moralmente responsável pelas suas deficiências.
Desde as primeiras p??ginas, dedicadas a questões metodológicas, até ?? última, em que apresenta abertamente o conceito de subjectividade impl??cito na cultura terap??utica emocional, o livro de Illouz não pode ser mais interessante. ?? certo que, se ?? um facto que o seu diagnóstico parece particularmente apto para descrever as transforma????es culturais experimentadas pela sociedade americana ao longo do s??culo XX, a difusão global deste estilo de vida leva-me a pensar que nos encontramos perante um novo "apertar de parafusos" do processo de seculariza????o, que, em sentido psicologista, coloca a possibilidade de uma cultura auto-redentora.
Neste ponto, coloca-se a interessante questão de saber até que ponto as culturas locais, que tradicionalmente faziam face ?? experiência com linguagem religiosa - da?? a origem da relação entre culto e cultura -, podem assimilar essa linguagem naturalista no modo de encarar a identidade, a família ou a empresa sem se atrai??oarem a si mesmas. Como sempre, evitar que o dilema se coloque em est??reis termos excludentes - ou tradi????o, ou modernidade - exige muito estudo e discernimento.
Ana Marta Gonz??lez
Directora da linha tem??tica Culture & Lifestyles do Social Trends Institute
(1) Eva Illouz, Saving the Modern Soul. Therapy, Emotions, and Culture of Self-Help, University of California Press. Berkeley (2008). 304 p??gs.

