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Inqu??rito sobre valores

 Antropologia
Em Fran??a, d??-se mais valor ?? igualdade do que ?? liberdade
Inqu??rito sobre valores

Individualiza????o, não individualismo

 

Como explica um dos responsáveis pela sondagem, Pierre Br??chon, do Institut d'??tudes politiques (IEP) de Grenoble, a tendência para a individualiza????o, que sobressai nos resultados do inqu??rito, não deve ser confundida com um incremento do individualismo. Para Br??chon, a primeira corresponde a "uma cultura da op????o, em que cada qual afirma a sua autonomia, a sua capacidade para orientar ac????es sem ser controlado nem coagido". O individualismo, por seu lado, tem um sentido mais ego??sta: ?? o culto do "cada qual para si mesmo".

 

Em relação a este último, o investigador faz notar que "os franceses não foram nunca altru??stas nem solid??rios, nem parecem s??-lo agora mais do que dantes". Sempre desconfiados em relação ao próximo (em todas as edi????es do inqu??rito o número dos que afirma confiar espontaneamente nos outros não ultrapassa os 24%), esta caracter??stica não se deve interpretar tanto como uma verdadeira desconfian??a mas como o desejo de tratar dos assuntos pessoais sem se imiscuir nos alheios, fazendo e deixando fazer.

 

O respeito pela vida privada ?? também uma exigência de permissividade na esfera da conduta pessoal, que implica que cada um decida sobre a sua vida e a sua sexualidade sem julgar o comportamento alheio. Da?? que a eutan??sia, o aborto e a homossexualidade v??o progressivamente ganhando aceitação, enquanto por outro lado se toleram menos liberdades em tudo o que diz respeito ?? organiza????o social e ?? vida em comunidade (como a fuga aos impostos ou o excesso de velocidade na condu????o).

 

comportamentos_aceitaveis

 

Tamb??m a vida familiar acusa a tendência para a individualiza????o. Concebida anteriormente como parte integrante de tradi????o, os franceses preferem entender actualmente a família como um tipo de relação igualit??ria entre os elementos de um casal que cuida dos filhos e com eles dialoga, respeitando sempre a sua personalidade. Ao manterem a esperança de alcançar a sua realiza????o pessoal vivendo relações afectivas intensas, o fracasso do casal conduz a novas experiências, tendentes a conseguir por fim uma relação est??vel.

 

Um sincretismo assistem??tico e vago nas convic????es políticas e religiosas demonstra igualmente esta inclina????o individualizadora, se bem que os franceses de hoje pare??am ter uma atitude um tanto mais cr??tica e disposta a fazer reivindica????es no campo da vida pública. A coer??ncia entre a conduta pessoal e uma determinada linha de pensamento religioso ou laico ?? cada vez mais coisa de minorias.

 

Liberdade privada e ordem pública

 

Enquanto que, durante a sua campanha presidencial, Nicolas Sarkozy convidava a lutar "contra o igualitarismo, o assistencialismo e o nivelamento", no inqu??rito de 2008 os franceses inclinaram-se, pela primeira vez em trinta anos, pela escolha da igualdade como valor preferencial, sobrepondo-o ?? liberdade. Uma viragem que na realidade foi progressiva porque, se bem que nos anos 80 era not??rio o favor de que gozava a liberdade, esta foi perdendo terreno até ser agora substitu??da pela igualdade, que conta com a simpatia massiva das pessoas com ingressos mais baixos, sem importar que seja da esquerda ou da direita.

 

Por outro lado, decresce também a percentagem dos que são de opinião que "s??o as pessoas que devem assumir a responsabilidade de cobrir as suas necessidades", e aumentam os defensores da atribui????o dessa tarefa ao Estado. Mesmo assim, aumenta (de 28% em 1999 a 42% em 2008) o número dos que apoiam um controlo estatal mais estrito sobre as empresas, enquanto a confian??a nos sindicatos aumenta entre a popula????o jovem (embora não haja mais s??cios inscritos que antes).

 

Ao passo que em 1990, 52% dos franceses pensava que se deviam obrigar os desempregados a aceitar qualquer trabalho disponível se pretendiam continuar a gozar do subs??dio de desemprego, tal número decresceu para 33%. Por seu lado, a vis??o sobre a pobreza pouco varia, sendo atribuída por dois ter??os dos inquiridos ??s injusti??as da sociedade e por um ter??o ?? pregui??a ou ?? m?? vontade dos indiv??duos.

 

Na opinião de Etienne Schweisguth, director de investiga????o do Centro de Estudos Europeus de Ci??ncias Pol??ticas, esta tendência a privilegiar os valores igualit??rios e a revalorizar o papel do Estado acentuou-se, provavelmente ap??s a crise financeira. Este factor explicaria a prec??ria popularidade do governo e o apoio recebido no princ??pio do ano pelas ac????es convocadas pelas organiza????es sindicais.

 

Schweisguth conclui que "a necessidade de autoridade revelada pelos resultados da sondagem traduz uma necessidade de ordem na esfera pública, mas não de retorno ?? sociedade da ordem moral. Isto inscreve-se no novo cocktail de valores que caracteriza as sociedades contempor??neas do mundo desenvolvido: liberdade privada e ordem pública"

 

grafico_prioridade

 

Trabalhar mais ... ou, pelo menos, continuar a trabalhar

 

Dois ter??os dos franceses reconhecem que o trabalho ?? um valor essencial nas suas vidas e uma percentagem superior a tr??s quartos entende ser necessário um emprego para a plena realiza????o pessoal. No entanto, e a propósito da m??xima sarkoziana de "trabalhar mais para ganhar mais", o inqu??rito revela apenas uma ades??o relativa a determinados temas do liberalismo económico, havendo, em relação a outros temas, uma maioria que se pronuncia pela solidariedade social. No entanto, 60% dos inquiridos mant??m a opinião de que quem não trabalha se torna pregui??oso; algo que, na opinião de Jean-Fran??ois Tchernia, que também dirige a investiga????o, explica a capacidade de sedu????o que o slogan do presidente teve na altura.

 

Existe consenso entre os franceses a propósito da necessidade de combater a inflação: enquanto em 1999 mal passava de um ter??o os que punham este objectivo como prioridade da economia, agora fazem-no tr??s ter??os dos inquiridos. Mesmo que "ganhar mais" signifique um progresso, a popula????o mostra-se preocupada em proteger os recursos com que j?? conta, quer com iniciativas individuais quer com políticas económicas a desenvolver pelo governo.

 

Mais orgulho nacional, mas menos xenofobia

 

A sondagem de 2008 registou dois fenómenos aparentemente contradit??rios: ao mesmo tempo que a Fran??a progride em valores de toler??ncia e em rep??dio do racismo, o sentimento de orgulho nacional reafirma-se e crescem as inquieta????es que dizem respeito ??s relações com a Europa.

 

Interrogados sobre os grupos de indiv??duos que não queriam ter por vizinhos, s?? 3% dos franceses se pronunciou por "pessoas de outra ra??a" (face aos 9% que o fizera em 1990 e em 1999), e 4% referiu "trabalhadores estrangeiros ou imigrantes" (contra 13% em 1990 e 12% em 1999). Tamb??m desceu o número dos que pensam que, em caso de escassez de postos de trabalho, os empregadores devem dar prioridade aos franceses (41% face aos 61% de 1990).

 

A propósito da imigração, nota-se igualmente uma varia????o entre a posi????o dos que opinam que se deve "limitar de modo estrito" e a dos que acham que "se deve deix??-los vir sempre que haja trabalho" (40% dos inquiridos pensam assim, face a 33% em 1999). Segundo Bruni Cautr??s, do Centro de Investiga????es Pol??ticas de Ci??ncias Pol??ticas, e C??line Belot, do IEP de Grenoble, o que os franceses declaram não tem por que corresponder ao que fazem, mas "o próprio facto de adoptarem esse discurso mostra que a norma social sobre a toler??ncia ?? mais forte que no passado".

 

Para os investigadores - mesmo julgando necessário distinguir entre categorias sociais e divis??es políticas para tirar conclus??es - esta evolução reflecte "um movimento de longa dura????o dos sistemas de valores, que consiste em dar maior import??ncia ao que os indiv??duos fazem com as suas vidas do que aos atributos de nascimento: origem geogr??fica, g??nero masculino ou feminino, confiss??o religiosa, cor da pele ou origem ??tnica".

 

Aceprensa