O fetiche das estat??sticas
No entanto, teremos n??s realmente instrumentos suficientemente fi??veis para tomar o pulso ?? humanidade? Um comunicado que a Organiza????o Mundial de Sa??de acaba de publicar ?? capaz de inocular em n??s cepticismo O comunicado informa sobre os novos esfor??os do Health Metrics Network, grupo cujo objectivo ?? impulsionar os pa??ses que ainda o não fazem a terem um Registo Civil de nascimentos e mortes.
Acontece que com a falta de Registo Civil em muitos pa??ses, nem sequer podemos ter a certeza de quantos nascem, de quantos morrem, nem, evidentemente, de quem morre.
???A falta de sistemas de Registo Civil ???diz o comunicado??? significa que em cada ano quase 40% (48 milhões) dos 128 milhões de nascimentos mundiais não são registados. A situação ?? inclusivamente pior no que se refere ??s mortes, Dois ter??os (38 milhões) dos 57 milhões de mortes anuais não são registadas. A Organiza????o Mundial de Sa??de s?? recebe estat??sticas fi??veis de causas de morte de 31 dos seus 193 Estados membros???.
Não ser?? desajustado supor que esses 31 pa??ses são pa??ses da ??rea da OCDE, que disp??em de um registo estat??stico sanit??rio mais fi??vel. Ora, como a popula????o desses pa??ses não chega a ser a quinta parte da popula????o mundial, a realidade ?? que, neste assunto das causas de morte, mais do que lacunas temos oceanos de ignor??ncia.
?? falta de dados seguros procedentes do Registo Civil, quem elabora as estat??sticas est?? habituado a trabalhar com estimativas de popula????o, projec????es, amostras mais ou menos representativas, pontos de observa????o significativos, etc. Tudo isto proporciona certa informação ??til, mas sempre muito incompleta e insegura acerca do tamanho, do estado e das necessidades da popula????o.
O que ?? mau ?? quando se esquece que esse dado ?? uma mera estimativa e ?? hora da sua publica????o se transforma em estat??stica incontroversa. Que sentido faz assegurar que no Afeganist??o 46% das crianças com menos de cinco anos t??m peso a menos? Na realidade, nem sequer sabemos quantas crianças h?? no Afeganist??o nem qual ?? o seu estado de sa??de, se bem que não ?? necessário ser perito no assunto para afirmar que não pode ser muito bom.
Talvez se tenha pesado uma amostra de crianças de escolas ou serviços pedi??tricos de Kabul, mas nada nos garante que estejam na mesma situação que os das extensas zonas do pa??s em que o governo de Kabul não procede a pesagens.
O desejo de impressionar
Muitos destes supostos dados estat??sticos procedem de informações das ag??ncias de ajuda ao desenvolvimento e de ONG que querem comover o Primeiro Mundo para que aumente a sua ajuda ao Terceiro Mundo.
E, como se trata de uma causa nobre, parece haver menos embara??o ?? hora de fabricar estat??sticas, mesmo que seja com bases muito pouco seguras. O importante ?? que chamem a aten????o e se gravem na mem??ria. ??, por isso, duvidosa a frequ??ncia com que a quantifica????o de um problema social se converte num número redondo.
Um corol??rio do próprio af?? quantitativo ?? oferecer um rem??dio t??o simples como a doença, com objectivos cifrados para demonstrar que se trata de algo s??rio: escolarizemos 80% das crianças, vacinemos 90% dos menores de cinco anos, diminuamos num ter??o a malnutri????o???Tratando-se de custos, sempre se poder?? fazer uma compara????o atraente do tipo: com os custos de um avi??o de combate poder??amos escolarizar mil crianças na Mong??lia até aos 18 anos. O que se não diz ?? o que custaria convencer os respectivos pais.
No livro Damned Lies and Statistics, o sociólogo Joel Best adverte-nos sobre o carácter de fetiche ???objecto com poderes m??gicos??? que as estat??sticas sociais assumem no nosso mundo: ???Tratamos (as estat??sticas) como se fossem poderosas representa????es da verdade; manejamo-las como se destilassem em simples factos a complexidade e a confus??o da realidade. (???)
Dizem-nos com o que dever??amos preocupar-nos e até que ponto. Em certo sentido, o problema social converte-se em estat??stica e, j?? que tratamos as estat??sticas como uma verdade incontroversa, converte-se num fetiche, um controlo m??gico de como vemos os problemas sociais. Consideramos as estat??sticas como factos que descobrimos, não como números que criamos. No entanto, na realidade, as estat??sticas não existem por si s??s; algu??m as cria.
???Por isso, antes de se deixar esmagar por uma estat??stica, ?? bom perguntar-se quem a criou, como se chegou a esse número, ver se se est?? a empregar correctamente, se se fazem com elas as compara????es adequadas???
Conv??m não esquecer ainda que também ?? possível alcançar conhecimentos mesmo que não tenhamos sempre todas as estat??sticas. J?? Goethe advertia: ??? Se não pretend??ssemos saber tudo com tanta exactid??o, talvez conhec??ssemos melhor as coisas???
(Spr??che in Prosa, n?? 36)
