Um caso de ???pânico moral???
Massimo Introvigne assinala que as discuss??es actuais sobre sacerdotes e pedofilia são um caso t??pico do que, em sociologia, se qualifica como "moral panics". Os "pânicos morais" foram definidos como "problemas socialmente constru??dos, que se caracterizam por uma amplifica????o sistem??tica dos dados reais, tanto na sua repercuss??o medi??tica como na discuss??o política".
Casos ocorridos h?? trinta anos, e j?? muito conhecidos, apresentam-se como se fossem novos ou como se experimentassem dram??tico crescimento
H?? outras duas caracter??sticas dos "pânicos morais". Em primeiro lugar, os problemas sociais existentes h?? dec??nios são reconstru??dos na narrativa medi??tica e política como se fossem "novos" e como se experimentassem um presum??vel e dram??tico crescimento. Em segundo lugar, a sua incid??ncia ?? ampliada com estat??sticas folcl??ricas que, apesar de não terem sido confirmadas por estudos acad??micos, são repetidas de um meio de comunicação para outro e podem inspirar campanhas medi??ticas persistentes". Como salientou Philip Jenkins numa s??rie de valiosos estudos, na cria????o e gestão de "pânicos morais"existem "agentes morais" que têm um programa nem sempre declarado.
No caso que nos preocupa, o verdadeiro ponto de partida ?? a exist??ncia de sacerdotes ped??filos, cujos abusos sexuais levaram a fortes condena????es, reconhecidas pelos próprios acusados. "Estes casos - nos Estados Unidos, na Irlanda, na Austr??lia - justificam as severas palavras do Papa e o seu pedido de perd??o ??s vítimas".
Os números são importantes
Nos Estados Unidos houve uma incid??ncia mais elevada de abusos sexuais a menores no meio familiar, em confiss??es protestantes e em treinadores do que entre sacerdotes católicos
Para se compreender como, deste facto tragicamente real, se passou para um "pânico moral", temos de averiguar quantos sacerdotes foram autores destes abusos. Os dados mais completos são os que existem nos Estados Unidos onde, em 2004, a Confer??ncia Episcopal encomendou um estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice da City University de Nova Iorque, universidade não católica e reconhecida como a mais s??ria institui????o acad??mica do pa??s sobre criminologia.
Este estudo, conforme resume Introvigne,"indica que de 1950 a 2002, 4392 sacerdotes americanos (para um total de 109.000) foram acusados de ter tido relações sexuais com menores. Destes, pouco mais de uma centena foram condenados pelos tribunais civis. Este baixo número explica-se pelo facto de as verdadeiras ou presum??veis vítimas terem denunciado sacerdotes j?? falecidos ou por os delitos terem prescrito. Noutros casos, a condena????o por via can??nica não correspondia a nenhuma viola????o da legisla????o civil como, por exemplo, no caso dos estados americanos onde a relação consentida com uma ou um menor de mais de 16 anos não constitui delito." Mas também houve casos clamorosos de acusa????o de sacerdotes inocentes. "Estes casos multiplicaram-se na década de 90, quando alguns escritérios de advogados viram que podiam obter indemniza????es milion??rias somente com base em simples suspeitas."
"O estudo do John Jay College refere, como frequentemente se l??, que 4% dos sacerdotes americanos são "ped??filos"? pergunta Introvigne. "De maneira nenhuma! De acordo com a investiga????o, 78,2% das acusa????es referiam-se a menores que tinham chegado ?? puberdade. Portanto, o número de sacerdotes acusados de efectiva pedofilia, nos Estados Unidos, durante 42 anos, ?? de 958, ou seja, 18 anuais. E as condena????es incidiram sobre 54."
Para outros pa??ses, não se disp??e de estudo t??o completo como o de John Jay College. No que respeita ?? Irlanda, citam-se frequentemente relatórios encomendados pelo governo que qualificam de "end??mica" a praga de abusos sexuais em escolas e orfanatos (masculinos) geridos por dioceses e instituições católicas, nos quais ?? evidente que se deram abusos muito graves contra menores. Mas, a an??lise pormenorizada dos dados mostra, afirma Introvigne, que "muitas acusa????es se referem ao uso de meios de correc????o excessivos ou violentos. O chamado relatório Ryan de 2009 - utilizando linguagem muito dura contra a Igreja - relativo, neste per??odo, a 25.000 alunos de escolas, reformat??rios e orfanatos, recolhe 253 acusa????es de abusos sexuais a rapazes e 128 a raparigas, nem todas atribuídas a sacerdotes, religiosos ou religiosas. S??o casos de diversa natureza e gravidade, raramente referidos a imp??beres."
Casos antigos como se fossem novos
Quanto aos casos das últimas semanas acerca de abusos deste tipo na Alemanha e na ??ustria, os mesmos denunciam, segundo Introvigne, uma caracter??stica t??pica do "pânico moral": "Apresentam-se como "novos" factos ocorridos h?? muitos anos, nalguns casos h?? mais de trinta e, em parte, j?? conhecidos. O facto de se insistir mais na zona da Baviera, donde prov??m o Papa, apresentando, na primeira p??gina dos jornais, acontecimentos dos anos de 1980 como se tivessem acontecido ontem, e que da?? nas??am capciosas polémicas na forma de ataque conc??ntrico que, diariamente, anuncia ?? saciedade novas descobertas, mostra bem como o "pânico moral" ?? promovido por "agentes sociais" de modo organizado e sistem??tico." Por exemplo, o caso em que se quis envolver o Papa - acolhimento na Diocese de Munique, para ser submetido a terapia, de um sacerdote que tinha cometido abusos noutra diocese - surgiu em 1985, foi julgado num tribunal alem??o em 1986 e, no entanto, hoje um jornal alem??o decide ressuscit??-lo e voltar a dar notícia de primeira p??gina.
Introvigne questiona ainda se um sacerdote católico corre maior risco de abusar sexualmente de menores do que o resto da popula????o. Se bem que a pergunta possa parecer defensiva, "ela ?? fundamental para descobrir as causas do fenómeno e, portanto, para nos prevenirmos. Segundo os estudos de Jenkins, se compararmos a Igreja católica dos Estados Unidos com as principais igrejas protestantes, descobre-se que a presen??a de ped??filos ?? - segundo as diversas igrejas - de duas a dez vezes mais elevada entre os pastores protestantes do que entre os sacerdotes católicos. Isto mostra que a questão não ?? a do celibato, pois a maior parte dos pastores protestantes são casados."
Tamb??m nos Estados Unidos, no mesmo per??odo em que uma centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais a menores, o número de professores de gin??stica e de treinadores desportivos condenados nos tribunais, pelo mesmo delito, andava pelos seis mil. "E, sobretudo, com base nas informações peri??dicas do governo americano, dois ter??os dos casos de abusos sexuais a menores não prov??m de estranhos nem de educadores mas do seio da família e, infelizmente, também dos pais. Encontram-se dados semelhantes noutros pa??ses.
Homossexualidade e abusos
Um dado alta mente significativo ?? que "mais de 80% dos ped??filos são homossexuais, rapazes que abusam de outros rapazes. E, mais uma vez, citando Jenkins, mais de 90% dos sacerdotes católicos condenados por abusos sexuais a menores e por pedofilia são homossexuais." Introvigne conclui que "se na Igreja católica houve efectivamente um problema, este não ?? o do celibato mas de uma certa toler??ncia da homossexualidade, particularmente nos semin??rios dos anos 70, ??poca em que se ordenou a maior parte dos sacerdotes condenados por abusos."
O mais paradoxal ?? que se ataque hoje o Papa por casos que ocorreram h?? trinta anos, que o próprio Papa est?? corrigindo com vigor, sobretudo se se considera a severidade do anterior Cardeal Ratzinger e hoje Bento XVI neste tema. "Os agentes sociais que organizam o "pânico moral" t??m um programa que emerge cada vez mais claramente, e que certamente não tem como objectivo a protecção de menores."

