Por que ?? que as mulheres gostam de fazer compras e outros mitos
Na actual indústria de falsos conhecimentos, a neuroci??ncia social destaca-se como grande protagonista: esta "disciplina" sustenta-se nas estat??sticas que derivam das actuais técnicas de neuroimagem.
Como indica Sharon Begley, colunista da Newsweek e co-autora de The Mind and the Brain, a neuroci??ncia social mostra alegadamente por que ?? que as mulheres gostam de fazer compras, por que ?? que os homens gay l??em os mapas como as mulheres, por que ?? que os tipos ciumentos (ao contr??rio das mi??das)... Pense nisto: por que ?? que a neuroci??ncia social apenas nos diz aquilo que estamos sempre a ouvir ??quele primo que abandonou a escola antes de acabar o secundário, e que ouve imensa televis??o enquanto joga bilhar na sala de jogos, entre os turnos de trabalho no estaleiro de carga?
Mas ser?? isto, de facto, ci??ncia? Segundo uma equipa de estaticistas que analisou alguns estudos, não ?? prov??vel (Vuh et al, Perspectives on Social Neuroscience, 2009). Muitos desses estudos estabelecem correlações irrealistas entre o cérebro e o comportamento. Na opinião destes estaticistas, mais de metade dos neurocientistas sociais seleccionaram a informação "a dedo", ou seja, utilizaram apenas os dados que corroboravam a sua teoria.
Para chegarem ??s mesmas conclus??es que o primo-do-bilhar, limitam-se a seleccionar apenas os voxels (unidade de medida com que a neuroci??ncia determina as partes activas do cérebro) que permitem demonstrar a sua teoria, ao inv??s de se basearem em todas as informações disponíveis.
Como refere a equipa de Vuh, "mais de metade admitiu recorrer a uma estratégia que avalia correlações separadas para voxels individuais, tendo apenas em consideração os subconjuntos de voxels que excedem limites predefinidos. N??s demonstramos que esta an??lise facciosa sobrevaloriza muito as correlações e, ao mesmo tempo, fornecemos diagramas de dispers??o tranquilizadores. Usando esta técnica de an??lise na nossa amostra de estudo, cheg??mos ?? conclusão de que, na sua grande maioria, as correlações eram inveros??meis. Al??m disso, defendemos a possibilidade de outros problemas de an??lise terem dado origem a correlações completamente esp??rias em alguns casos."
Se o leitor não tem formação em estat??stica, não se preocupe; não necessita de fazer grandes cálculos matem??ticos. Basicamente, se decidir observar apenas aquilo que sustenta a sua opinião, vai descobrir que esta ??... verdadeira! ?? incr??vel, mas não ?? ci??ncia. O papel dos estaticistas consiste em sugerir aos autores dos estudos em questão que reanalisem os dados que recolheram atrav??s de m??todos mais convencionais.
Ficam aqui tr??s pequenas observa????es que poder??o refutar os falsos conhecimentos divulgados nos meios de informação:
1. Cada cérebro ?? um permanente mar de reorganiza????o ao longo de toda a vida, pelo que os cérebros podem diferir bastante uns dos outros. Ponha de lado a tese de que toda a gente sabe o que se passa na sua cabe??a, a menos que o seu neurocirurgi??o esteja a fazer-lhe um diagnóstico individual. E Deus não permita que isso aconte??a!
2. Tenha cuidado com a pretensa ci??ncia, que apenas nos diz aquilo em que a cultura popular acredita, sem apresentar provas independentes. (Os homens preferem as loiras, as mulheres gostam de homens altos...) A verdadeira ci??ncia p??e em causa as ideias populares. Relatividade... algu??m ?? capaz de me dizer o que significa? Ou a teoria qu??ntica? Ou o intrincado mecanismo de uma c??lula viva? Ou a linguagem do genoma?
3. Prefira sempre o senso comum, baseado em provas, ??s teorias da cultua popular. As coisas que o primo-do-bilhar est?? sempre a ouvir na televis??o da sala de jogos nascem de fantasias psicológicas ("as mulheres gostam de fazer compras"). Estas fantasias vigoram durante uma ou duas gerações e depois desaparecem. Pelo contr??rio, o senso comum est?? baseado em mil??nios de observa????es. Por exemplo, o senso comum não nos diz que as mulheres adoram fazer compras. Diz-nos, sim, que uma publicidade eficaz, dirigida a um alvo vulner??vel, pode gerar necessidades aparentes (n??o necessariamente reais). Numa cultura diferente, as mesmas mulheres gabar-se-iam do seu talento para poupar e conseguir que lhes fizessem um desconto.
Os falsos conhecimentos podem parecer rid??culos, mas isso não significa que sejam inofensivos. Actualmente, muitas aplica????es de falsos conhecimentos são de natureza anti-religiosa: por exemplo, a grande maioria das descobertas feitas por estudos s??rios mostra que a espiritualidade ?? ben??fica para os seres humanos. Portanto, se o leitor ouvir outra opinião, num recente estudo de neuroci??ncia... bem, veja a obseva????o 3.
Fonte: www.mercatornet.com
Denise O'Leary ?? co-autora de The Spiritual Brain (Harper, 2007)
Tradu????o de Isabel Costa, a partir do original publicado em www.mercatornet.com

