A fugidia felicidade das mulheres
Para medir o grau de felicidade das mulheres, Stevenson e Wolfers recorreram a numerosas sondagens realizadas nos Estados Unidos e na Europa. Entre as mais citadas estão a General Social Survey e o Eurobar??metro. Todas, cada uma a seu modo, colocaram o problema com perguntas directas: "Considera-se muito satisfeita, ligeiramente satisfeita, algo descontente ou muito descontente... com o seu trabalho, a sua família, a sua situação financeira, etc.?"
O estudo não pretende explicar quais as causas que provocaram o decr??scimo da satisfa????o das mulheres americanas e europeias. Limita-se a analisar uma s??rie de dados para mostrar um desconcertante paradoxo: a felicidade das mulheres desceu nos últimos 35 anos, precisamente na fase em que melhorou indubitavelmente a sua educa????o, os seus rendimentos, a sua situação profissional e social. Essas melhorias são dados objectivos, mas a satisfa????o que procuram entra no campo da subjectividade e depende também das expectativas associadas a essas metas.
Nos anos 60, as mulheres americanas consideravam-se, em m??dia, mais felizes que os homens. Hoje, a satisfa????o dos homens cresceu e supera a das mulheres. Por outro lado, o maior descontentamento feminino ultrapassa as diferenças de classe e de ra??a.
Esta diminui????o geral da satisfa????o das mulheres admite interpretações ideológicas diversas. Assim o fez notar o colunista Ross Douthat no New York Times de 27-05-2009. Para ele, as progressistas ver??o neste estudo a confirma????o da sua tese: que a revolução feminista bateu em cheio num "tecto de vidro ou de cristal", como se designa habitualmente. Por seu lado, as conservadoras far??o finca-p?? no fracasso do movimento feminista radical.
?? certo que o estudo admite as duas leituras, diz Douthat. Mas progressistas e conservadoras poderiam pelo menos estar de acordo em duas coisas: uma, que é preciso esfor??o para tornar mais f??cil a concilia????o entre o trabalho e a aten????o ?? família, que ?? uma fonte de frustra????o para muitas mulheres; e outra, que o decl??nio da família constitu??da por pai e m??e reduz a satisfa????o vital das mulheres, que se v??em obrigadas a educar os filhos sozinhas.
Para resolver estes problemas, Douthat prop??e que progressistas e conservadoras se juntem para promover políticas de apoio ?? maternidade. "Podem não compartilhar os fins, mas deviam compartilhar os resultados: um pa??s onde seja mais f??cil conciliar família e trabalho, independentemente do lado para onde se pense que se deve inclinar a balan??a".
O segundo problema ?? mais dif??cil de resolver. Mas, no em seu parecer, não h?? nenhuma raz??o s??ria para que os dois grupos de mulheres não juntem esfor??os - como j?? fizeram na batalha contra a pornografia nos anos 80 - para apoiar uma revolução social que desincentive a sexualidade irresponsável de alguns homens.
Mais sozinhas
O estudo de Stevenson e Wolfers despertou o interesse de alguns analistas americanos. Em Christianity Today.com (4-06-2009), a socióloga Lisa Graham McMinn considera que a diminui????o da felicidade das mulheres est?? relacionada com as expectativas - de cariz individualista - que o movimento feminista contempor??neo ajudou a criar.
"Acredit??mos que merec??amos uma vida f??cil e feliz e exercemos o direito a ser tudo o que quis??ssemos, desde que nos sent??ssemos realizadas. Mesmo que isso nos levasse a quebrar compromissos, a acabar com relações e a afastar-nos da f?? em que crescemos. Este objectivo individualista não nos fez felizes, pelo contr??rio, deixou-nos mais s??s".
Face a este modo de pensar, McMinn prop??e um modelo de realiza????o pessoal centrado na ajuda aos outros. "Concordo com os pensadores iluministas, que defendiam ser necessário libertar todos os membros da sociedade para se poderem desenvolver as suas possibilidades. E concordo com o movimento feminista, quando diz que se deviam aqui incluir as mulheres".
"Mas o individualismo s?? redime quando se admite que o desejo de realiza????o pessoal vai unido ?? ideia de fazer algo bom pelos outros. Quando eu me ocupo de mim mesma, me formo e persigo os meus próprios objectivos, não s?? para ser mais feliz, mas porque perten??o a um mundo que necessita que eu d?? o melhor de mim, e quando contribuo para o bem dos outros, ent??o encontro a felicidade".

