Sexo, g??nero e confus??o
A ideia de que o sexo e o g??nero não t??m porque coincidir leva a pensar que a natureza ?? totalmente male??vel.
A cirurgia de "reatribui????o de sexo" realizou-se num rapaz de 16 anos que se considerava mulher. Iv??n Ma??ero, cirurgi??o pl??stico que realizou a interven????o, garante que o rapaz se vestia de rapariga desde os quatro anos (aos quatro anos uma criança j?? decide como se veste?). O doente que sofre desta perturba????o esteve submetido a tratamento durante tr??s anos, não se especificando se recebeu também tratamento psiqui??trico.
Sem tentar avaliar um caso cuja história clínica se desconhece, chamam a aten????o as ideias que revela Ma??ero sobre o sexo e o g??nero, nestes dias em que foi protagonista medi??tico. Em 1999 especializou-se em cirurgia para transexuais - diz ter realizado 500 interven????es - por isso, não ?? de estranhar que pense que não existe nenhum problema. "J?? era rapariga. Como g??nero sente-se mulher, ainda que os seus órgãos genitais sejam masculinos. Isso faz com que a sua vida não seja normal. N??s s?? adapt??mos o sexo ?? mente" (El Pa??s, 13-1-2010).
Das suas palavras deduz-se que o sexo de uma pessoa ?? um mero acidente biológico que pode ser trocado para seguir o g??nero que cada um sente ou escolhe. "O erro est?? em não distinguir g??nero, sexo e orienta????o sexual. G??nero ?? como me sinto, se homem ou mulher. Sexo,como são os meus órgãos genitais. E orienta????o, com quem quero ter relações". J?? se v?? que aqui o importante ?? o "sinto" e o "quero" e não o que "s??o" os dados biológicos.
No entanto, apesar da cirurgia, alguns factores biológicos não mudam. Cada uma das c??lulas do corpo de uma pessoa tem cromossomas que o identificam como homem ou mulher. E, durante a gravidez, as hormonas pr??-natais modelaram de forma diferente o cérebro dos rapazes e das raparigas. O próprio Ma??ero reconhece que o doente "dever?? ter um tratamento hormonal feminino - estrog??nios - durante toda a sua vida". Na mesma lógica, também não poder?? ter filhos, dado que a dita "rapariga" não tem ovários.
O que a cirurgia não resolve
Se não existe dúvidas de que a transexualidade ou disforia de g??nero ?? uma doença e um conflito penoso, o que não parece t??o claro ?? que a "atribui????o de sexo" seja a cura para estas situações. Psiquiatras de renome que estudaram estes casos p??em em dúvida que esta solução resolva os conflitos deste tipo de doentes.
Paul McHugh, chefe do serviço psiqui??trico do Johns Hopkins Hospital da Universidade do mesmo nome, foi uma das pessoas que aprofundou o tema. Num artigo publicado em First Things (Novembro de 2004) referia os estudos realizados no seu departamento com doentes que tinham sido submetidos a este tipo de cirurgia nesse hospital.
Quanto ao tipo de doentes, havia fundamentalmente dois grupos. Um era formado por homens homossexuais que viam na troca de sexo um modo de resolver os seus conflitos e a culpabilidade que sentiam, para poderem actuar sexualmente como mulheres com homens. O outro consistia em homens heterossexuais (e alguns bissexuais) que se excitavam quando se vestiam de mulheres e para os quais a transformação cir??rgica lhes permitia mais verosimilhan??a.
"A maioria dos doentes contactados, alguns anos depois da cirurgia, estavam contentes com o que tinham feito e s?? alguns o lamentavam", conta McHugh. "Mas no que se refere a relações, trabalho e emo????es tinham os mesmos problemas que antes. A esperança de que superariam as suas dificuldades emocionais para ressurgir psicologicamente não se tinha cumprido".
Outro estudo sobre temas semelhantes, realizado nos serviços psiqui??tricos do Clark Institute de Toronto, identificou este tipo de doentes como homens que se excitavam ao imitar mulheres sedutoras, o que os levava, primeiro, a vestirem-se como mulheres e, eventualmente, a recorrerem a uma solução cir??rgica. Como a maioria continuava a sentir-se atra??da pelas mulheres, identificava-se, perante os psiquiatras, como l??sbicas. (Talvez por isto Iv??n Ma??ero advirta que "pode haver um transexual homossexual").
Depois destes estudos o departamento de psiquiatria do Johns Hopkins Hospital deixou de prescrever esta cirurgia de reatribui????o de sexo para adultos. "Como psiquiatras, dever??amos tratar as suas mentes e não os seus órgãos genitais", diz McHugh. "Proporcionar uma cirurgia para trocar o corpo destas pessoas com pouca sorte ?? colaborar com a sua perturba????o mental em vez de a tratar". Quando o Johns Hopkins anunciou que ia deixar de fazer esta interven????o, muitos hospitais seguiram-no, mas outros continuam a pratic??-la.
Perante a ideia de uma mulher "presa" num corpo de homem (ou vice-versa), estes psiquiatras pensam que uma pessoa pode sofrer desta perturba????o por experiências negativas que na infância ou na adolesc??ncia a levaram a não aceitar a sua masculinidade ou feminilidade. Tentando superar este doloroso conflito, imagina viver como algu??m de outro sexo. Isto pode levar a pessoa que sofre esta perturba????o a vestir-se e a identificar-se mais com o sexo oposto, e inclusive a enganar-se com a ideia de pertencer a ele.
Jovens confusos
Estes diagnósticos psiqui??tricos, comenta McHugh, não foram bem recebidos pelos "activistas transexuais (normalmente aliados ao movimento gay) que ainda sustentam que a sua perturba????o de g??nero representa a sua verdadeira identidade sexual". "Poder-se-ia esperar que aqueles que afirmam que a identidade sexual não tem bases biológicas ou f??sicas trariam mais provas para persuadir outros. Mas notei que h?? um forte preconceito a favor da ideia de que a natureza ?? totalmente male??vel", diz o psiquiatra.
Tamb??m em Espanha, a Federa????o Estatal de L??sbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais emitiu um comunicado para "festejar" a opera????o realizada em Barcelona e exigir o direito de um menor ser operado "se for o seu desejo, se tiver o apoio m??dico e o apoio da família" Segundo pensam, "o tr??mite judicial atrasa inexplicavelmente a realiza????o da cirurgia e viola o direito ao livre desenvolvimento do ou da menor".
Não se entende esta atrac????o pelo bloco operat??rio, quando a lei para a troca de g??nero, aprovada em Espanha pelo governo de Zapatero em 2007, e que foi saudada no momento como "a mais avan??ada do mundo", s?? pede que se tenha diagnosticado no interessado uma perturba????o (disforia) de g??nero, de que tenha sido tratado medicamente durante pelo menos dois anos, mas não exige que o tratamento tenha inclu??do cirurgia de atribui????o sexual (modifica????o dos órgãos genitais).
No entanto, Ma??ero pensa que "cada vez operaremos mais jovens. A sociedade ?? cada vez mais madura e existe um maior conhecimento". O mais prov??vel ?? que efectivamente haja mais problemas de identidade sexual entre os jovens, pela própria confus??o que hoje se difunde entre sexo, g??nero e orienta????o sexual, unida ao predomínio do desejo. Mas, precisamente por isso, a prud??ncia e os dados psiqui??tricos aconselham a não precipitar decisões antes da maioridade e a proporcionar a essas pessoas toda a ajuda psiqui??trica que necessitem.

