Viver e Trabalhar em casa
O que faz de uma simples casa uma casa de família? E que tipo de casa de família promove hoje com mais acuidade o bem-estar e o desenvolvimento de todos os indiv??duos que nela habitam? Estas e outras questões ser??o discutidas em Novembro, num congresso que ter?? lugar em Londres, e que ?? o segundo de uma s??rie de congressos organizados pela Home Renaissance Foundation. O congresso de Novembro ter?? como título: Excellence in the Home: From House to Home.
Um dos principais intervenientes neste congresso ser?? Charles Handy, fil??sofo da gest??o, cujas obras acerca da forma como o trabalho tem mudado, e dos efeitos que essas mudanças t??m na nossa vida e na vida das organiza????es, são famosas muito para al??m do Reino Unidos. Charles Handy far?? uma comunicação intitulada: ??A casa do futuro. O trabalho em casa??. Elizabeth Handy, sua mulher, fot??grafa de retrato que recorre a uma técnica muito espec??fica de familiariza????o, vai montar, nesse mesmo congresso, uma exposição sobre a casa de família e as pessoas que a constituem.
Nesta entrevista a MercatorNet, Catherine McMahon, membro da Home Renaissance Foundation, questionou Charles Handy sobre a vis??o que ele tem da casa de família como local de trabalho.***
- H?? algum tempo que a casa de família ?? o local onde as pessoas recuperam do dia de trabalho, para no dia seguinte voltarem a sair, a fim de despenderem as horas produtivas num escritério. Como lhe parece que ser?? a casa do futuro?
- Para come??ar, h??-de ser mais do que um local onde se dorme, como tem sido, até certo ponto, na última gera????o: um local aonde as pessoas v??o dormir, tomar uma ou outra refei????o, para depois voltarem a sair.
Em minha opinião, a casa do futuro ser?? um local onde as pessoas vivem, trabalham, dormem e descansam; ser?? mais um centro de reunião. Isso deve-se, por um lado, ao facto de ser cada vez mais conveniente as pessoas levarem trabalho para casa; e, por outro lado, ao facto de ser mais dispendioso para as organiza????es albergarem pessoas durante o dia, quando elas podem perfeitamente fazer a maior parte do seu trabalho fora do escritério. Al??m disso, a circula????o de pessoas tem-se tornado cada vez mais dispendiosa e dif??cil, pelo que se vai tornando natural que cada vez mais pessoas trabalhem mais tempo em casa se puderem.
H?? coisas que não se podem fazer em casa; tem de haver quem nos atenda no supermercado. Mesmo a??, contudo, o serviço ?? cada vez mais aut??nomo, de maneira que são necessárias cada vez menos pessoas. Se a senhora quiser ir ao cabeleireiro, também ter?? de sair de casa. Mas grande parte do trabalho do futuro ter?? por base a informação; e, uma vez que tudo o que tem de ver com a informação pode ser feito em casa, ser??o cada vez mais as pessoas que ficar??o em casa ??? mas essas pessoas também saem, não estão sempre fechadas, porque t??m necessidade de se encontrar com outras pessoas.
Esta tendência j?? est?? a ter impacto na arquitectura. No outro dia, fal??mos com uma arquitecta que nos disse que, actualmente, todas as casas que planeia t??m escritério, porque as pessoas que trabalham em casa precisam de um espa??o para esse efeito. Mas também ?? necessária uma ??rea comum, e ?? cada vez mais corrente as pessoas quererem combinar a ??rea de lazer com a ??rea onde cozinham e onde tomam as refei????es. Teremos, portanto, uma zona comum, com uns a cozinhar, outros a comer, outros a ver, uns a gritar, outros a brincar ??? uma ??rea que ser?? ampla, que ser?? a zona principal da casa.
- De momento, o design urbano empurra as pessoas para irem trabalhar fora de casa, e muitas delas passam imenso tempo em transportes. O que podemos fazer para convencer as autoridades a reconhecerem a import??ncia da casa de família na vida das pessoas?
- Eu defendo que o tempo gasto em transportes ?? muito caro; ?? caro para a organiza????o e ?? caro para o indiv??duo. Quando pensamos que, na sua maioria, os edifícios de escritérios s?? estão ocupados durante 40 horas por semana ??? das cerca de 160 horas possíveis ???, percebemos que ?? uma despesa enorme. ?? portanto, obviamente, do interesse das organiza????es ter escritérios pequenos, fazendo deles locais de reunião, em vez de serem locais onde as pessoas se sentam a trabalhar. A ideia ?? mandar as pessoas trabalhar para casa e s?? as chamar quando t??m de trabalhar em conjunto, de colaborar de forma pessoal, em vez de o fazerem por telefone ou por correio electr??nico.
Por outras palavras, a economia ??? que ?? a principal alavanca das altera????es sociais ??? vai dizer cada vez mais: por favor, não circulem tanto. ?? mau para a economia, ?? mau para a bolsa dos indiv??duos, ?? mau para o ambiente, e por a?? fora.
- é preciso ser muito virtuoso para trabalhar em casa e trabalhar de forma efectivamente estruturada. ?? de esperar que as pessoas trabalhem bem em casa?
- Sim, claro, ?? necessário aprender a trabalhar em casa, e ?? necessário aprender a gerir as pessoas que trabalham em casa. Mas tem de se confiar em que far??o o trabalho, e deix??-las decidir quando. Nem toda a gente começará a trabalhar ??s 8.30 da manh??; algumas pessoas h??o-de trabalhar noite dentro, porque ?? nessa altura que os filhos estão a dormir e que h?? silêncio em casa, e podem muito bem ir ??s corridas durante o dia. Pois muito bem. Se um empregador come??a a telefonar aos empregados de hora a hora, para verificar se eles estão a trabalhar, isso ?? um disparate. O empregador tem de lhes dizer: ???Quero este relatório na segunda-feira; tanto me faz que o fa??a no s??bado, no domingo, ou na sexta-feira.??? A meu ver, esse ?? o melhor tipo de gest??o: o trabalho est?? feito? ?? de boa qualidade? Foi feito a tempo e horas? Era aquilo que se pedia? O empregado ?? que decide quando e como o far??, e com quem conversa nos intervalos. Parece-me que isso ?? substituir a tirania pela liberdade.
As crianças, ou pelo menos os adolescentes, passam cada vez mais tempo ao ar livre, em actividades ou com os amigos, do que em casa com a família. Como transformar a casa da família num local onde os mi??dos gostem de estar? ?? bom andar na rua a fazer coisas; os jovens não gostam de estar permanentemente com os pais. Mas parece-me que as refei????es são momentos marcantes na vida, e que os filhos devem estar em casa ?? hora das refei????es, pelo menos de algumas. Acho mesmo que uma família que come em conjunto não se desfaz. O que me entristece na vida moderna ?? o facto de os mi??dos terem mentalidade de n??madas: v??o ao frigor??fico e levam a comida para o quarto. Tenho estado em casas onde não existe uma mesa de refei????es, de maneira que a família não tem sitio onde comer em conjunto. Cada um deles pega num prato, serve-se e senta-se no sof??, diante da televis??o, a comer. Não tem mal nenhum fazer isso de vez em quando. Mas parece-me que fazer as refei????es em conjunto faz parte da vida familiar.
Para isso, tem de haver uma mesa comum, de preferência na cozinha ??? e não noutra sala, porque isso torna as coisas excessivamente formais. A cozinha tem de ser o local onde, para al??m de se cozinhar, também se come; idealmente, ser?? aberta para um espa??o comum. Mas as pessoas também precisam de privacidade, para al??m dos espa??os destinados ?? vida em comum.
- Acha que as actuais tendências, em termos de concepção das casas, são em geral boas, m??s ou indiferentes? O que lhe parece que temos de melhorar?
- No meu livro, conto que, ao longe de 25 anos, n??s fomos mudando a cozinha de lugar em nossa casa, porque a fun????o da cozinha se foi alterando ?? medida que a família foi aumentando. Tivemos a possibilidade de fazer isso, porque t??nhamos uma casa vitoriana, cujos compartimentos não tinham sido concebidos para actividades espec??ficas; eram simples espa??os. O problema de grande parte das habitações modernas ?? o facto de os quartos, as salas, a cozinha, etc., serem determinados ?? partida, o que não permite grande flexibilidade, de maneira que, quando a família aumenta, ou se altera, torna-se necessário mudar de casa. Parece-me prefer??vel ter compartimentos multifuncionais. As famílias mudam; os filhos saem de casa; os filhos voltam para casa??? Temos de ser n??s a fazer o espa??o; não pode ser o espa??o a fazer-nos a n??s.
- Seja a m??e ou o pai a faz??-lo, ?? importante algu??m tomar conta dos filhos e da casa. Não lhe parece que a sociedade devia reconhecer melhor o valor desse trabalho e ??? não necessariamente remuner??-lo, mas ??? valoriz??-lo de alguma maneira?
- Sem dúvida nenhuma. Acabamos de fazer um estudo em Suffolk, em Inglaterra, sobre as pessoas que são as encarregadas da própria família, e cheg??mos ?? conclusão de que havia 98.000 pessoas que tinham abandonado a carreira para tomar conta de algum membro da sua família. Recebem um subs??dio por isso, um subs??dio m??nimo, dado pelo governo, por esse trabalho incrivelmente valioso, que poupa imenso dinheiro ao pa??s. Depois, h?? o trabalho de educar os filhos, de cozinhar, e por a?? fora ??? que são tarefas incrivelmente valiosas.
- Volta e meia, ouve-se dizer que o trabalho de uma dona de casa, ou de um dono de casa, vale 30.000 euros por ano, mas como ?? que isso se avalia efectivamente?
- Precisamos imenso de encontrar uma maneira de reconhecer formalmente o valor desse trabalho; ?? uma coisa em que ando a pensar h?? muitos anos. A verdade ?? que não sei como faz??-lo. Mas tenho a impress??o de que toda a gente reconhece ??? em particular numa altura em que são cada vez mais os homens que o fazem ??? que ?? de facto trabalho, que não se trata de uma espécie de lazer; de maneira que a cultura est?? a mudar, e são cada vez mais as mulheres, e alguns homens, que dizem: O meu trabalho ?? cuidar dos mi??dos.
Numa das famílias que and??mos a fotografar para este congresso, ?? o marido que fica em casa. Faz uns trabalhos no computador, mas a sua principal actividade ?? cuidar da casa, dos filhos e cozinhar durante a semana. A mulher cozinha aos fins-de-semana. Parece-me que, quantos mais homens se dedicarem a essa tarefa, mais se reconhecer?? que se trata de trabalho a s??rio.
Para mais informações sobre o congresso Excellence in the Home: From House to Home, ver www.homerenaissancefoundation.org
Original publicado em www.mercatornet.com, reproduzido com autoriza????o
Artigo relacionado:
H?? um interesse cada vez maior pelas profiss??es relacionadas com o cuidado das pessoas e com a alimenta????o
Obras de Charles Handy editadas em portugu??s:
- O Meu Eu e outros temas importantes, Actual Editora, 2006
- O Esp??rito Faminto, CETOP 1998
- A Era da Transformação, Markon Books 1997 (portugu??s do Brasil)
- Deuses da Gest??o, Cetop 1994
- A Era da Incerteza, Cetop 1999A Era do Paradoxo, Cetop 1998
- A Era da Irracionalidade, Cetop 1992

