Pesquisa

Governo e oposi????o na Bol??via travam uma luta de desgaste

 Política
Não se espera que o referendo revogat??rio de Agosto resolva o ???empate catastr??fico???
Governo e oposi????o na Bol??via travam uma luta de desgaste

Na última contenda eleitoral, Savina Cu??llar, uma camponesa quechua, indigenista e ex-membro da assembleia do MAS (Movimiento Al Socialismo, o partido de Morales), imp??s-se nos com??cios para eleger prefeito (governador) no departamento de Chuquisaca. Afirmou que uma das suas primeiras tarefas ser?? organizar um referendo para a autonomia de Chuquisaca.

 

Em princ??pios de Maio, o departamento de Santa Cruz aprovou um estatuto auton??mico, que foi declarado ilegal e separatista pelo governo de Morales. Nas últimas semanas, os departamentos de Beni, Pando e Tarija aprovaram estatutos semelhantes, em aberto desafio a La Paz.

 

Com a vit??ria de Cu??llar a oposi????o passou a controlar sete dos nove governos regionais da Bol??via.


Morales e os prefeitos v??o a referendo

 

Para complicar mais a situação, o Senado boliviano, controlado pelo partido oposicionista PODEMOS (Poder Democrático e Social) aprovou poucos dias depois dos com??cios santacruzenses o projecto-lei do referendo revogat??rio que o Executivo havia enviado ao Parlamento em fins do ano passado, e pelo qual no próximo dia 10 de Agosto Morales submeter?? a votos a sua gestão e a dos prefeitos do pa??s. No caso do Presidente perder esta consulta, ter?? de convocar eleições gerais no prazo de seis meses.

 

Segundo parece, a jogada do PODEMOS pretendeu evitar que o MAS aprove o seu projecto de constitui????o de fei????o estatizante e indigenista, como resposta ?? derrota sofrida em Santa Cruz.

 

Os governadores da oposi????o, agrupados no Conselho Nacional Democrático (CONALDE), apanhados de surpresa pela iniciativa do PODEMOS - nem sempre em sintonia com a oposi????o regional - recusam submeter-se a um referendo que quase seguramente v??o perder. Nenhum deles foi eleito com mais de 40% dos votos e a renova????o do mandato depende duma percentagem de votos que seja superior ??quela com que foram eleitos. Poderia até chegar-se ao absurdo de, mesmo que mais de 50% da popula????o aprove a sua gest??o, o governador tenha que abandonar o cargo.

 

Por outro lado, Morales, que foi eleito com maioria de quase 54%, acredita que os votos contra o seu mandato não atingir??o essa percentagem.

 

Com a perspectiva do referendo revogat??rio voltou a ser empurrada para a frente uma possível solução para as autonomias, que todos esperavam fossem negociadas depois do referendo. Assim, para a maioria dos analistas políticos, o referendo revogat??rio nada solucionar??, pois apenas demonstraria que persiste o "empate catastr??fico", como tem sido chamado o enfrentamento entre o governo e a oposi????o.

 

Um dos perigos de tal situação ?? que a contenda não seja apenas ideológica, mas ganhe contornos racistas. Enquanto que os adeptos da situação oficial v??o ganhando for??a entre os sectores populares e entre os camponeses de origem aut??ctone ou mesti??a, a oposi????o conta com o apoio da popula????o urbana e das classes m??dia e alta, que se considera branca.


?? espera da negocia????o

 

?? também uma inc??gnita prever como reagir??o as partes em conflito em caso de derrota. A linha oficial recusou até ao momento a reconhecer como v??lidas as vota????es em Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija e menosprezou a derrota que recentemente sofreu em Chuquisaca, por ser pouco numerosa a popula????o nessa regi??o. Pela sua parte, as regi??es opositoras, qualquer que seja o resultado da vota????o revogat??ria, ?? dif??cil que renunciem ao seu projecto auton??mico, que em todos os casos triunfou por uma margem elevada, e a que provavelmente se somar??o alguns dos departamentos controlados pelo MAS.

 

At?? agora, todas as tentativas de diálogo entre o governo e as regi??es fracassaram, e o governo decidiu suspender os contactos até depois do referendo de Agosto, pensando seguramente que ele ter?? resultados favoráveis para Morales e que ent??o poder?? dialogar numa posi????o de for??a.

 

Desde agora, e até ao referendo, os analistas coincidem em que continuar?? esta desgastante luta de baixa intensidade entre o governo e as regi??es opositoras, a quem custar?? aproveitar o impulso que ganharam com as consultas auton??micas.

 

O mais surpreendente de tudo ?? que, apesar da crise política, a economia continua em crescimento. Sem dúvida, tal se deve em boa medida aos elevados preços das mat??rias- primas que a Bol??via exporta: hidrocarbonetos, minerais e soja. No entanto, talvez seja também um indicador do crescente desinteresse de uma boa parte da popula????o pelas diverg??ncias entre o governo e a oposi????o. De certo modo, pode dizer-se que as pessoas continuam a sua vida, enquanto observam e esperam que os políticos resolvam as diferenças que os separam.

 

Pablo Miller