Passar certid??es de ??bito a Deus
Exemplos recentes deste tipo de literatura são o livro de Richard Dawkins, A Desilus??o de Deus (cf. este site) ou o de Daniel Dennet, Quebrar o Feiti??o, ou a reciclagem das Doze provas da inexist??ncia de Deus, do anarquista franc??s Sebastien Faure, falecido em 1942.
Os autores anglo-sax??nicos pr?????inexist??ncia de Deus??? remontam-se muitas vezes ao 11 de Setembro, com os conhecidos t??picos: Se Deus existe, como pode permitir o mal no mundo? Não reparam nos genoc??dios (de arm??nios, judeus, africanos, ??ndios americanos); fixam-se apenas no 11/09, no que lhes aconteceu e que, embora tr??gico, não tem compara????o com os maus-tratos (mortes, torturas???) de milhões de inocentes ao longo dos s??culos.
Uma abordagem mais coerente da ???religi??o e males do mundo??? teria de come??ar por reflectir no que os homens t??m feito com as religi??es, apesar de as principais (cristianismo, islamismo, hindu??smo, budismo), ensinarem a viver a compaix??o, a fraternidade e o respeito pela vida. (No caso do islamismo haveria que introduzir alguns cambiantes, mas substancialmente ?? assim). Não ?? possível conceber o cristianismo como uma fonte de ??dio, quando os seus principais ensinamentos t??m por base ???Deus ?? amor??? ou ???Amai-vos uns aos outros como eu vos amei???, dando a vida pelos outros e não tirando-a.
Tamb??m tem sido constante na história o facto de os seres humanos se terem servido da religi??o como instrumento de poder, meio de propaganda e de domínio abusivo das consciências. Fizeram-no fara??s eg??pcios, monarcas ass??rios, c??sares romanos, reis cristãos, ditadores republicanos, como Cromwell, e até agora não poucas fac????es do Islão. Mas não se suprime o ??dio com a elimina????o da religi??o, como se demonstra amplamente na história do s??culo XX.
?? dif??cil chegar a entender a liberdade
Quando se atribui a Deus a culpa dos males dos homens, fica demonstrado que não se entende em que consiste a liberdade. Um texto da B??blia, Eclesi??stico, 15, 14, diz que ???Foi Ele que desde o princ??pio fez o homem e o deixou nas m??os do seu próprio arb??trio???. Um bem que se realiza ?? for??a, por coac????o, j?? não ?? um bem, porque contamina qualquer realiza????o com o mal da supress??o da liberdade. Por isso, a pior coac????o ?? a que se baseia em motivos religiosos. Tertuliano dizia no s??culo II que ???n??o ?? próprio da religi??o obrigar a religi??o???. Pascal escrevia no s??culo XVII: ???querer impor a religi??o ao esp??rito, por meio da for??a e de amea??as, não ?? próprio da religi??o, mas do terror???.
A liberdade (também a religiosa, isto ??, a liberdade da consciência) precisou de fazer um longo percurso para ser entendida, e ainda hoje não ?? em todos os s??tios: basta passar revista ??s numerosas inquisi????es que têm existido, aos policiamentos ideológicos, aos regimes de terror. Nada disto pertence ?? história da religi??o, mas ?? história do pouco ou nenhum respeito pela dignidade do homem e da sua condi????o religiosa.
Mas se o homem desvirtua assim a sua liberdade, não seria prefer??vel que abandonasse definitivamente a religi??o, para não ser utilizada como desculpa para os horrores? ?? mais racional e gratificante tentar expor a religi??o na sua verdadeira ess??ncia, não tanto para que seja, como se dizia, um trav??o, mas para que sirva ?? consciência de uma constante interpela????o e de ensinamento do que ?? fundamental: fazer o bem e evitar o mal, Deus, como pai comum de todos os seres humanos, iguais em dignidade e nenhum mais que outro.
O ??nus da prova
Querer demonstrar a inexist??ncia de Deus tem t??o pouco sentido como querer provar a inexist??ncia de qualquer coisa. A inexist??ncia, por si s??, não se pode provar. Menos ainda o que, a existir, tratando-se de algu??m infinito (faz parte da ess??ncia de Deus) significaria uma tentativa infinita de prova, quer dizer, algo impossível, pelo menos para um ser finito.
No tema da exist??ncia de Deus, o ??nus da prova recai sobre quem o afirma. Existe uma longa tradi????o destas provas. Para citar s?? algumas: o argumento ontológico de Santo Anselmo, rejeitado por S??o Tom??s e por Kant, mas admitido por Descartes e Hegel, entre muitos outros; as famosas cinco vias de S??o Tom??s de Aquino, que recolhe argumenta????es de Arist??teles e de Plat??o, algumas com tanta aceitação como a quinta, sobre a ordem do mundo, que o próprio Voltaire recolhe, a seu modo: ???Deus existe, porque não h?? rel??gio sem relojoeiro???.
A tudo isto pode acrescentar-se a prova do consenso universal, porque a cren??a em Deus vem do Paleol??tico e chega até hoje, quando 83% da popula????o mundial ?? crente de alguma religi??o.
O Deus dos fil??sofos e o Deus da f??
Alguns crentes podem considerar que estas provas filos??ficas da exist??ncia de Deus são pouco convincentes. Um exemplo ?? um famoso texto de Pascal: ???O Deus de Abra??o, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob, não ?? o dos fil??sofos nem o dos s??bios???. E acrescenta: ???O Deus de Jesus Cristo: s?? se pode encontrar ???s?? se pode seguir pelos caminhos do evangelho???.
Hans K??ng, no seu livro com o título que podemos chamar comercial Deus existe? comenta a posi????o de Pascal: ????? aqui que Pascal encontra o fundamento último dessa certeza em que j?? não h?? dúvidas e sobre a qual se podem levantar todas as outras certezas: não a certeza de si mesmo, não um conceito, não una certa ideia de Deus, não o Deus dos fil??sofos e dos s??bios, mas o Deus verdadeiro, o Deus vivo da B??blia... Para Pascal aqui torna-se claro que o homem não conhece Deus a não ser com o cora????o... ???o último passo da raz??o ?? reconhecer que h?? uma infinidade de coisas que a superam???.
???A dimens??o religiosa do ser humano, escreveu Henri Bergson, ?? algo t??o claro ???que deve pertencer ?? sua estrutura???. De um modo mais belo, j?? Santo Agostinho tinha escrito nas Confiss??es: ???Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso cora????o estar?? inquieto enquanto não descansar em Ti.???
O fundo da quest??o
Ser por Deus, contra Deus ou indiferente a Deus ?? uma misteriosa escolha que se reproduz em cada ser humano desde que o mundo ?? mundo. ?? conhecido o início do salmo 53: ???Diz no seu cora????o o insensato: Não h?? Deus???. Mas a seguir o salmo parece dar raz??o para tal: ???n??o h?? quem fa??a o bem, nem um sequer???, ???pervertidos em massa??????
O encarni??amento contra Deus deu-se historicamente nas recentes configura????es culturais do mundo ocidental e desde ent??o tem sido exportado para outras zonas do mundo, como aconteceu com o antite??smo comunista na R??ssia, China e mais de vinte pa??ses, em que a tradi????o não era de modo algum de ate??smo, mas de cren??a.
Não h?? nenhum antite??smo nos milhares de etnias que foram estudadas pela antropologia cultural em todo o mundo. O islamismo, desde o s??culo VII aos nossos dias, ?? t??o contr??rio ao ate??smo que ??s vezes o pode castigar de um modo que não est?? de acordo com a liberdade da consciência. Tamb??m o mundo do hindu??smo est?? ???cheio de deuses ??? e tende para uma s??ntese num Deus ??nico e absoluto. A alma africana demonstrou-se naturalmente crente e piedosa e assim acontece na maioria das pessoas oriundas desse continente em qualquer canto do mundo.
Buda mostra nas est??tuas o seu umbigo, mas não o contempla. Em contrapartida, no Ocidente h?? uma longa tradi????o de o homem se considerar o centro, a s??ntese e a perfeição da cultura humana. O aparecimento mais ou menos frequente de atestados contra a exist??ncia de Deus não ?? um facto que esteja a acontecer ao ser humano em geral, mas apenas a uns quantos de um grupo particular de pessoas em alguns pa??ses do Ocidente.
S??o Tom??s de Aquino podia afirmar que uma pobre mulher cristã sabia mais de Deus do que Arist??teles. Agora e sempre, a simples honradez da f?? sempre tem mais densidade e mais categoria, mesmo humana do que a auto-sufici??ncia intelectual ou, em geral a auto-sufici??ncia de quem se julga algu??m. O exemplo mais claro de sinceridade foi o de Nietzsche que disse: ???n??o h?? Deus, porque, se houvesse, eu não suportaria não o ser???.

