Ruanda recupera das feridas do genoc??dio
Nas eleições legislativas realizadas no passado m??s de Setembro no Ruanda, o pequeno pa??s interior da ??frica central conhecido sobretudo pelo genoc??dio de 1994, as mulheres candidatadas obtiveram 56% dos lugares na Assembleia, quase o dobro da quota feminina fixada por lei (30%). Esta propor????o de deputadas ?? a mais elevada de todo o mundo.
A 10 de Outubro, o Parlamento do Ruanda aprovou a proposta de fazer do ingl??s a l??ngua a ser usada em todas as instituições educativas, desde os jardins-de-infância ??s universidades. O Ruanda, que foi por um certo espa??o de tempo col??nia alem?? e depois da I Guerra Mundial, col??nia belga, passou a fazer parte da ??frica franc??fona. Todos os ruandeses, incluindo os condutores de moto-taxis e as vendedoras do mercado, compreendem alguma coisa de franc??s, mas muito pouco ou nada de ingl??s. Agora a situação começará a mudar. No ano passado, na conferência da Commonwealth realizada em Kampala, o Ruanda apresentou o seu pedido formal de ades??o, o que nunca tinha feito um pa??s franc??fono.
O presidente do Ruanda, Paul Kagame est?? no poder desde 2000. Foi eleito em 2003 com 95% dos votos por um per??odo de sete anos e tem a possibilidade de vir a ser reeleito para outro mandato. H?? pouco tempo, Kagame convidou profissionais de outros pa??ses da regi??o a trabalharem no Ruanda, onde ser??o dispensados dos tr??mites de licen??as de trabalho, o que não acontece nos pa??ses vizinhos. No ano 2007, o pa??s cresceu a um ritmo sustentado de cerca de 6% e necessita de pessoal especializado.
Os tribunais populares
Durante o genoc??dio de 1994 a popula????o foi literalmente dizimada e centenas de milhares de ruandeses fugiram do pa??s, enquanto as grandes pot??ncias dirigiam o olhar noutro sentido. Escreveram-se muitos livros, principalmente em ingl??s, que relatam aqueles sangrentos cem dias.
Mas o Ruanda ?? muito mais que um pa??s que se recupera de um pesadelo. O governo tomou iniciativas. A reconcilia????o e a harmonia promovem-se em actos públicos e são tema constante das homilias de sacerdotes e pastores. Organizam-se actos culturais, desportivos e juvenis para fomentar a unidade e para que todos se considerem ruandeses, ultrapassando qualquer grupo ??tnico. Em todo o caso, tem pouco sentido classificar os ruandeses como hutus ou tutsis: depois de gerações de casamentos mistos, muitos são mesti??os. Por isso as mortes durante o genoc??dio tiveram caracter??sticas t??o complexas e tr??gicas.
Nos últimos anos t??m-se formado tribunais tradicionais, chamados ???gacaca???, para julgar suspeitos de genoc??dio. Os julgamentos são públicos e realizam-se no mesmo cen??rio do crime, com a presen??a de testemunhas oculares. O acusado defende-se, as testemunhas também prestam as suas declara????es, e o j??ri, constitu??do por pessoas daquele lugar, decide se o acusado deve ser posto em liberdade, condenado a trabalhar em benef??cio da comunidade, ou regressar ?? pris??o. Segundo o livro A Thousand Hills, do jornalista americano Stephen Kinzer, que se baseou em entrevistas entre o presidente Kagame e os tribunais ???gacaca???, o Ruanda oferece ao mundo um modelo de perd??o e de reconcilia????o que outros Estados poderiam imitar.
De um modo geral, os ruandeses estão contentes com este sistema, que talvez pare??a deficiente para os familiarizados com a justi??a de estilo ocidental. Os cr??ticos objectam que se usam duas medidas diferentes, uma vez que os crimes cometidos depois do genoc??dio pelos soldados do governo Frente Patri??tica Ruandesa (FPR) são julgados nos tribunais estatais.
Pol??cias limpos em ruas limpas
Não h?? dúvida que Kigali ?? a capital mais limpa, mais bem organizada e mais disciplinada da regi??o. Nos últimos s??bados de cada m??s est?? previsto que todos, incluindo os ministros, vistam roupas velhas, luvas de pl??stico e saiam para fazer a limpeza mensal das ruas. Noutras cidades africanas organizam-se de vez em quando, de modo informal, fainas id??nticas, quando chegam a organizar-se.
A corrupção aberta ?? muito mal vista. Um polícia ruand??s não pediria nem admitiria um suborno. H?? j?? algum tempo que Kagame advertiu os membros do governo e da administra????o para que não gastassem dinheiro público em ve??culos caros. Quase sem chamar a aten????o, mandou p??r controlos policiais nas principais avenidas da cidade e confiscar imediatamente os carros de luxo, conduzidos por funcion??rios públicos, para serem postos a leil??o.
Kigali, j?? de si, cidade espectacular pelas colinas em que assenta, est?? a transformar-se numa moderna cidade-montra, com jardins, passagens elevadas, centros comerciais: um centro regional de tecnologias de informação e outros serviços. Os turistas regressaram para ver os gorilas das montanhas do norte, ou o monumento em mem??ria do genoc??dio, erguido no lugar onde se enterraram milhares de vítimas, e que inclui um museu do genoc??dio com fotos murais, v??deo- clips e objectos que pertenceram ??s vítimas.
Esfor??o na educa????o
Tem uma boa rede de estradas. A educa????o recuperou o ritmo que tinha perdido e mant??m-se com alta prioridade. Est?? a implantar-se um plano de estudos de orienta????o mais secularizada do que antes do genoc??dio, quando a Igreja dirigia a maioria dos col??gios. As escolas não conhecem greves, ao contr??rio do que acontece nos pa??ses vizinhos, onde a m?? alimenta????o, a corrupção e uma gestão deficiente provoca a revolta dos estudantes. Isto deve-se, em parte, ao temperamento dos ruandeses, por natureza inclinados a respeitar a autoridade, mas também ao rigoroso controlo por parte do governo e ao apelo feito em muitos col??gios para o diálogo entre os dirigentes.
Os responsáveis pelos governos locais t??m que dar contas da sua gest??o. Podem ser destitu??dos, sem que haja um ???padrinho??? para os proteger, como acontece noutros pa??ses. As pessoas são laboriosas, e no campo ??? onde trabalha 90% da popula????o ??? a jornada come??a logo ao amanhecer. Tamb??m se tem feito um grande esfor??o para levar a cabo uma enorme campanha de vacina????o de crianças; os ??ndices de preval??ncia da sida ??? cerca de 3% ??? são os mais baixos da regi??o.
Um pa??s pobre
Contudo, o pa??s ainda tem muitos problemas para resolver. O rendimento per capita ?? muito baixo (800 dólares) e 60% da popula????o vive abaixo do limiar da pobreza. Excluindo o norte, que tem um solo vulc??nico muito f??rtil e fornece grande parte dos alimentos, todo o pa??s ?? caracterizado pelo solo rochoso, de baixa qualidade, e amea??ado pela fome. Nos pa??ses vizinhos muitos rurais emigram do campo para a capital por disputas de terras ou porque lhes pagam tarde e mal os seus produtos. Passam a trabalhar no pequeno com??rcio, nos transportes ou nos serviços. Em Kigali a imigração ?? menos evidente, e ?? compar??vel ao sector informal de vendedores de rua que têm sapatos e outros artigos de segunda m??o.
Ruanda ?? o pa??s de ??frica com maior densidade de popula????o: 281 habitantes por quil??metro quadrado, segundo os dados de 2006. Est?? a debater-se a possibilidade de propor uma política de tr??s filhos por família, mas ainda não foi aprovada. Não seria coerciva, como na China, mas os pais seriam ???animados??? a limitar a família. Isto poderia implicar, para os que não cumprissem a meta, a priva????o de alguns direitos. A actual taxa de fecundidade ?? de 5,3 filhos por mulher.
Imprensa menos livre
A Igreja Católica est?? numa posi????o amb??gua. A maior parte da popula????o ?? católica e as igrejas enchem-se. Alguns sacerdotes e religiosos estiveram implicados no genoc??dio, bem como alguns soldados da FPR foram acusados de maltratar sacerdotes depois da mortandade. Mesmo assim, alguns l??deres religiosos não se sentem seguros para se exprimirem com confian??a e autoridade, ou para tratar com o Estado questões de interesse mútuo. A Igreja perdeu influência depois do genoc??dio. Alguns ruandeses que regressaram do ex??lio não se educaram no catolicismo e sentiram-se atra??dos por grupos de pentecostais e adventistas, que se estabeleceram em pequenas comunidades.
Quando se diz que os meios de informação são menos livres que nos pa??ses vizinhos, em geral pretende-se criticar o governo. Mas não parece imprudente um certo controlo dos media, se tivermos em conta que foi uma emissora de r??dio não controlada, a Radio Libre des Milles Collines, que instigou ao ??dio contra os tutsis e os hutus moderados.
A recupera????o do Ruanda não tem sido f??cil: as pessoas convivem com os assassinos que mataram as suas famílias. Muitos continuam traumatizados e não poucos ficaram ??rf??os. Pode suceder que algumas feridas nunca cheguem a cicatrizar completamente. Tem-se ???instado??? com os ruandeses a perdoar se querem viver em paz e evitar que se repitam as atrocidades. ?? um repto que, até agora, tem sido bem enfrentado.

