Depois dos referendos, uns e outros recorreram ?? press??o violenta
Logo que terminou a contagem dos votos, ambas as partes recorreram ?? press??o violenta para conseguir os seus objectivos: a aprova????o da nova constitui????o por parte do governo e o reconhecimento das autonomias departamentais por parte dos prefeitos da oposi????o.
O certo ?? que os bloqueios de estradas, a ocupa????o das instituições governamentais, os cercos ??s cidades e os confrontos violentos entre os grupos mobilizados por ambos os lados - com o correspondente saldo de mortos e feridos - mostram claramente que os mecanismos habituais num regime democrático - concerta????o, negocia????es, diálogo e, em último caso, a intriga - são pouco menos que in??teis.
Para complicar as coisas, Evo Morales parece ser muito reticente em utilizar as for??as de segurança estatais para repor a ordem, e, em todo o caso, nunca as usa para reprimir os "sectores sociais" que o apoiam. Ao fim e ao cabo, o conceito de que o Estado ?? o ??nico que tem o monop??lio leg??timo do uso da for??a foi posto em causa pelo próprio Morales quando era oposi????o, durante o governo de S??nchez de Lozada.
Portanto, para o governo, a defesa da democracia deve ficar pelas m??os dos sectores sociais que se mobilizam para favorecer o processo de mudança patrocinado pelo MAS. Que eles respondem ??s instru????es de Morales e que não actuam espontaneamente, ficou bem claro no dia 24 de Setembro quando milhares de camponeses - alguns armados - que vieram de outros departamentos favoráveis ao governo para tomar "pacificamente" Santa Cruz, a capital do principal departamento opositor, se dispersaram rapidamente quando assim o decidiram os seus dirigentes, sem dúvida por indica????o do governo, pois ocorreu quando o Presidente se encontrava a discursar na ONU.
O cerco ao Parlamento
Os mesmos funcion??rios do governo - incluindo o próprio Evo Morales - t??m expressado frequentemente que a mudança a que se prop??em se produzir?? "a bem ou a mal", com ou sem diálogo com a oposi????o. Sem ir mais longe, nestes dias, na reunião de Morales com os sectores sociais, tomou-se a resolução de cercar o Parlamento a partir de 13 de Outubro - cujo Senado ?? controlado pala oposi????o - para o obrigar a convocar o referendo para aprovar a nova constitui????o, da qual a popula????o realmente pouco sabe acerca do seu conteúdo, e que seguramente ser?? aprovada pelo simples facto de ser proposta por Morales.
Na realidade, na Bol??via poucas manifestações políticas são "espont??neas" e muito menos, pac??ficas. O prefeito da oposi????o no departamento de Pando, Lepoldo Fern??ndez foi demitido - aproveitando o estado de s??tio decretado pelo governo - para ser submetido a tribunal, com o argumento de ter utilizado sic??rios armados para repelir uma concentra????o de camponeses. Mesmo que não se prove a liga????o de Fern??ndez com o ocorrido, houve um confronto com tiros em Pando, e nele participaram funcion??rios da Prefeitura. Quanto aos incidentes que ocorreram paralelamente nos departamentos de Beni e Tarija, pararam quase instantaneamente logo que os prefeitos da opis????o concordaram em entrar em negocia????es com o governo do MAS.
E não ?? segredo para ningu??m que a responsável pelos dist??rbios contra as delega????es do governo em Santa Cruz - a Uni??n Juvenil Cruce??ista - ?? uma espécie de grupo de choque da Prefeitura desse departamento.
Como ?? j?? recorrente, depois da crise novamente se encontram a negociar duramente o governo e a oposi????o, neste caso a pedido da Uni??o das Na????es Sul-americanas (Unasur), cuja interven????o impediu que as coisas viessem a piorar, e evitou oportunamente os Estados Unidos, cujo embaixador foi expulso por Evo Morales, acusado de promover um golpe cívico contra o governo.
Para al??m da dif??cil conjuntura actual, o que alguns v??em com temor são as consequências da tendência boliviana ultimamente frequente para recorrer ?? violência política para prevalecer sobre o advers??rio. Uma tendência que, infelizmente, a abund??ncia das convoca????es para as urnas, para eleger ou referendar autoridades ou decisões não parece de alterar a curto prazo. Uma vez que j?? se introduziu a ideia de que um dirigente político bem sucedido não ?? quem melhor sabe comunicar as suas propostas para convencer o eleitorado, mas sim aquele que utiliza a for??a com mais efic??cia, mesmo correndo o risco de que em qualquer momento - como parece ter acontecido em meados de Setembro - a situação se descontrole.

