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Cimeira de Washington: a esquerda e a direita

 Política
Cimeira de Washington: a esquerda e a direita

Continuou ainda assim a usar-se a antiga terminologia de esquerda e direita, mesmo estando totalmente vazia de qualquer significado (para j?? não falar do centro).

 

Para usar a nomenclatura habitual, estiveram em Washington, da esquerda: Gordon Brown (Reino Unido), Lula da Silva (Brasil), Kevin Rudd (Austr??lia), Manmohan Singh (??ndia) e Thabo Mbeki (??frica do Sul); enfim, toda uma gama coroada pelo chin??s Hu Jintao, que combina o comunismo p??s-maoista com o capitalismo semi-selvagem e a ditadura política. E, como convidado de última hora, Zapatero (Espanha).

 

Entre os da direita contaram-se: Bush (EUA), Sarkozy (Fran??a), Merkel (Alemanha), Felipe Calder??n (M??xico), Stephen Harper (Canad??) e Tar?? As?? (Jap??o).

 

Mais dif??ceis de posicionar são o russo Medv??dev, sombra de Putin, por sua vez sombra do que resta do anterior poder da URSS; a argentina Kirchner; o turco Erdogan; Susilo, da Indon??sia; Koo Moo-Hyun, da Coreia do Sul; para não falar de Abdullah Bib Abdulaziz, o autorit??rio rei da Ar??bia Saudita.

 

Isto ??, havia na grande cimeira pelo menos dois pa??ses (a China e a Ar??bia Saudita) onde o respeito pelos direitos humanos brilha pela aus??ncia, embora esse facto não parecesse incomodar nem os governantes da esquerda, nem os da direita, porque o que est?? em jogo ?? o dinheiro, e com o dinheiro não se brinca. A par desta Realpolitik, a terminologia esquerda e direita serve apenas para o marketing eleitoralista, para o let??rgico arrastar-se de sess??es parlamentares semi-vazias e para que algu??m como Carrillo continue a balbuciar A Internacional de punho erguido.

 

Liberdades f??ceis, igualdade dif??cil

 

Ao longo da história, a direita sempre tem insistido mais na liberdade individual e a esquerda, mais na igualdade. Mas, nos pa??ses mais desenvolvidos e com regimes democráticos, estão mais ou menos asseguradas tanto uma relativa liberdade como uma relativa igualdade; por isso as políticas económicas e sociais são em todos eles equivalentes.

 

Pareceria ent??o conveniente encontrar outros critérios de diferencia????o. Paradoxalmente, a esquerda encontrou-os, ao conceder liberdades em terrenos que têm que ver com a corporalidade; da?? a apologia do aborto e da utiliza????o de embri??es, da permissividade sexual (tudo est?? bem entre adultos que consentem), da eutan??sia. Mais que uma esquerda revolucion??ria, tal esquerda parece assim uma direita tresloucada, o que se confirma também pelo facto de alguns partidos de direita se terem mostrado partidários dessas mesmas "conquistas" que, mais que na linha da igualdade, estão na linha de uma liberdade ?? qual o v??cio subiu ?? cabe??a.


Falta de ideias novas

 

Onde p??ram as ideias? Onde estão quando, perante as consequências da irresponsabilidade financeira, a medida mais urgente ?? recapitalizar os bancos? J?? que no campo das medidas pr??ticas todos coincidem, as antigas ideias de capitalismo e de socialismo deviam ser substitu??das por outras, que deviam nascer de um esfor??o de pensamento para as enraizar profundamente na ética e, mais concretamente, na justi??a. Porque a justi??a ?? a grande defraudada nas actuais ideias políticas, enfraquecidas e c??nicas.

 

Estas ideologias, ao cantarem a m??sica dos direitos humanos, escrevem a letra do apego ao poder pelo poder, esquecendo os pobres que h?? na terra e multiplicando os casos em que muitos, servindo-se do poder, enriquecem com o dinheiro alheio. S??o ideologias que preferem servir os v??cios dos cidad??os em vez das suas virtudes. S??o ideologias que desconhecem o sentido do mistério e que por isso adoptam uma atitude displicente, quando não persecut??ria, em relação ?? religi??o. S??o ideologias que perderam o sentido do risco, a paix??o das ideias, a coragem de lutar, e se abrigam a coberto do dinheiro. S??o ideologias que aceitam que, por exemplo, uma mulher com carreira na política nunca use duas vezes o mesmo vestido, num mundo onde milhões de pessoas ainda não t??m que comer. Ou que um político ache que precisa de um carro blindado que custa meio milh??o de euros.

 

A in??rcia da linguagem

 

Diante de tal panorama, continuar a falar de esquerda ou de direitas s?? se explica por pregui??a mental, por in??rcia de linguagem ou pela lógica dessa vida paralela ?? vida real que ?? a vida da política, dado que esta j?? não ?? res publica, ou seja, coisa comum, coisa de todos.

 

Vivemos uma ??poca na qual, mais que o fundo, interessa a forma; mais que a realidade, a apar??ncia; mais que a verdade, a opinião; mais que a beleza, o decorativo. Assim se explica o auge do design e da cirurgia est??tica.

 

Pensar, no momento presente, que ser da esquerda ou da direita ?? uma espécie de cosmovis??o, um pensamento sobre a vida social, um armaz??m de ideias que conduzem ?? ac????o, ?? ter ficado muito para tr??s na história. Tudo isso j?? foi assim, mas h?? muito tempo.

 

Maquiavelicamente, a política ?? agora uma conquista do poder. Os partidos, da esquerda ou da direita, não são mais que trampolins. O poder imp??s a sua lógica: mutante, relativa e c??nica. Por isso pode desconhecer a realidade do pa??s, por isso pode impunemente exceder-se nas suas fun????es. Não existe j?? um pensamento prévio que sirva para comparar, julgar e, conforme os casos, modificar as actua????es. Não existe j?? uma teoria para avaliar a pr??tica. Quem estiver no poder - quer seja da direita ou da esquerda - goza dele enquanto durar, personaliza tudo, converte-se num l??der populista e as ideias ... as ideias são coisas boas para a publicidade.

 

Se quisermos uma comprova????o de tudo isto, de como as grandes ideias produzem grandes pessoas, examinemos com aten????o a chamada fotografia de família da cimeira de Washington para ver quem l?? aparece. Haveria l?? algum político de import??ncia mundial, com ideias profundamente vincadas, que tenha vivido uma vida de verdadeiro serviço ao seu povo, sem preocupações de protagonismo? Podemos procur??-lo na fotografia mas, ao contr??rio do jogo do Wally, ser?? dif??cil encontr??-lo.

 

Rafael G??mez P??rez