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Tr??s amigos que uniram a Europa

 Política
Schuman, De Gasperi, Adenauer: da amizade entre pessoas ?? colabora????o entre povos
Tr??s amigos que uniram a Europa

Por ocasi??o do anivers??rio, Dur??o Barroso, presidente da Comissão, pronunciou um discurso no qual se referiu nestes termos aos pais fundadores da Uni??o Europeia: "H?? 50 anos, a Europa sofria as divis??es criadas pela Guerra Fria e entrava no confuso processo de descoloniza????o. Quem acreditaria ent??o que a aventura europeia lançada por alguns se converteria no projecto farol de todo um continente, numa realidade compartilhada hoje por quase 500 milhões de cidad??os, num modelo de organiza????o para outras regi??es do mundo?

 

"Nada disto seria possível sem a determina????o de um grupo de europeus, profundamente marcados por duas guerras fratricidas, mas com o olhar firmemente dirigido para o futuro, homens capazes de superar os marcos nacionais para oferecer um projecto de integração política e económica ?? Europa".


Com as suas próprias vidas

 

Se ser amigos consiste em compreender-se e em estimar-se, pode dizer-se que os tr??s principais fundadores da Europa foram amigos.

 

Por que se compreenderam e se estimaram? Talvez porque tinham atravessado circunst??ncias parecidas nas suas vidas e porque reagiram perante elas de modo semelhante. Este fenómeno não ?? novo na história. Com muita frequ??ncia grandes homens passaram por grandes dificuldades e reagiram perante elas com hero??smo. Não são s?? as circunst??ncias extraordin??rias que atravessam mas também a reac????o perante elas o que os faz moldar a história.

 

Robert Schuman, Alcide De Gasperi e Konrad Adenauer foram homens de fronteiras e ao mesmo tempo sem fronteiras; feitos prisioneiros j?? na sua juventude, reagiram sem rancor; perante as dificuldades opuseram o bom humor e o optimismo; os tr??s souberam aliar no seu carácter a firmeza ?? bondade, substituir o ??dio pela confian??a; os tr??s foram homens de f??, f?? que herdaram mas também souberam cultivar. Nas suas próprias vidas, e não s?? nas suas palavras, a Europa lan??a as suas ra??zes. Viveram primeiro em si mesmos o que fomentaram depois nos seus pa??ses.


Homens sem fronteiras


Robert Schuman nasceu em Clausen (Luxemburgo) em 1886, de nacionalidade alem?? pelo pai, que procede da Lorena, regi??o anexada ?? Alemanha em 1871, depois da guerra franco-prussiana. Come??a Direito em Bona, continua em Munique e em Berlim e termina em 1908 em Estrasburgo. Em 1912 abre um escritério de advogados em Metz, ent??o cidade alem?? na regi??o da Lorena. Depois da derrota alem?? na Primeira Guerra Mundial, a Als??cia e Lorena voltar??o a Fran??a. Robert Schuman ?? eleito deputado, um dos primeiros deputados franceses das regi??es da Als??cia e da Lorena quando estas regi??es entram a fazer parte do Parlamento franc??s pela primeira vez.

Schuman sempre se sentiu franc??s de cora????o, mas, como se deduz dos seus anos de juventude, embebeu-se da l??ngua e cultura alem??s, cujas riquezas descobriu e assimilou rapidamente.

Alcide De Gasperi nasce austr??aco em 1881 em Pieve Tesino, prov??ncia de Trento, que ent??o fazia parte do Imp??rio Austro-H??ngaro. O pai ?? chefe de um posto de polícia, funcion??rio do Imp??rio. Na zona fala-se italiano. De Gasperi estuda filosofia na Universidade de Viena e entra em contacto com as minorias do intrincado imp??rio: polacos, h??ngaros, eslovenos, checos. Em Viena aprender?? e lan??ar?? ra??zes o respeito por culturas diferentes da sua.

Rapidamente milita pela l??ngua italiana. Durante a Primeira Guerra Mundial ser?? como o arauto da vontade do Trentino de ser italiano. No fim da guerra quando, com efeito, a regi??o se une a It??lia, De Gasperi ?? aclamado como um her??i.

Konrad Adenauer nasceu em Col??nia em 1876. Viveu em Col??nia e em Bona. Morreu em Rh??ndorf, todas elas cidades situadas na regi??o do Reno, eixo geogr??fico europeu, grande passagem natural que percorre, alimenta e comunica a Europa desde a antiguidade.

Sem rancor


Schuman, Adenauer e De Gasperi sentiram na carne a persegui????o, a pris??o e o desprezo. ?? precisamente nessas circunst??ncias e talvez por causa delas, que geraram ideias de paz, de fraternidade e de unidade entre os homens e entre os povos.

Robert Schuman foi preso primeira vez em 1940 depois da invas??o alem?? de Fran??a. O Governo de P??tain tinha-lhe oferecido um minist??rio mas ele não o aceitou. Joseph B??rkel, dirigente regional nazi da Lorena, interroga-o com brutalidade, ainda que acabe por lhe professar uma certa amizade, nascida da admira????o perante a reac????o de optimismo e a aus??ncia de ??dio de Schuman durante o seu encarceramento. Ao fim de algum tempo de reclus??o comunicaram-lhe que estava autorizado a ler uma s?? obra de literatura; respondeu que escolhia a história dos papas, em 24 volumes, se porventura o tempo fosse longo.

B??rkel prop??e-lhe a liberdade se lhe der a sua palavra de não passar a zona livre. Schuman assegura-lhe que far?? todo o possível por l?? chegar ali. Perante o seu n??o, concede-lhe resid??ncia na aldeia de Neusdats under Weinstrasse. Consegue escapar-se e chega a Lyon dia 15 de Agosto de 1942, justamente ao come??ar a missa solene.

Come??a um longo p??riplo de clandestinidade que durar?? tr??s anos, de 1942 a 1945. Durante este per??odo de fugas cont??nuas, Schuman trabalhar?? sem descanso em favor da futura unidade franco-alem??, escrevendo e reflectindo sobre ela. Tr??s anos de pobreza extrema e um risco permanente de ser descoberto e assassinado. Desta situação não guardar?? rancor algum, pelo contr??rio, estender?? os bra??os ?? Alemanha, convencido de que s?? a unidade entre os povos conseguir?? que não se repita a trag??dia que viveu na sua própria carne.

Em tempos de persegui????o


De Gasperi foi preso pela primeira vez em Novembro de 1904, por ocasi??o de um confronto em Innsbruck entre estudantes alem??es e italianos. O jovem De Gasperi aproveita o perman??ncia na pris??o durante um m??s para animar os seus companheiros.

Durante a Primeira Guerra Mundial, ainda que não em situação prisional, ?? considerado como refugiado e ??-lhe proibido voltar ?? sua regi??o, o Trentino. ?? precisamente nessa ??poca que j?? evoca a fraternidade entre os povos como premissa da Europa unida.

Durante o regime fascista instaurado em It??lia em 1921 Mussolini acusa De Gasperi de "austrianismo". Em 1927 foi metido na pris??o Regina Coeli. Ao conhecer a condena????o de quatro anos de cadeia, escreve a frase b??blica "Quem semeia com l??grimas recolher?? com alegria", e ?? sua mulher: "Sou uma semente na m??o toda-poderosa, uma pequena pedra com a qual se constr??i o edifício... bendigo a m??o de Deus, que arrancando-me ?? vida dissipada dos assuntos públicos, me obriga a meditar sobre a vida interior". Palavras semelhantes ??s de Robert Schuman no seu cativeiro em 1941: "Fui demasiado negligente nesse ponto de vista (a ora????o e a vida interior) Deus remediou-o". A pena de De Gasperi ser?? comutada por Mussolini gra??as ?? interven????o de Mons. Endrici durante uma visita do Rei e de Mussolini a Trento.

Konrad Adenauer conhece a cela pela primeira vez sendo jovem Presidente da C??mara Municipal de Col??nia em 1933. Os nazis declaram-no "indigno de confian??a", tiram-no do seu posto, confiscam a sua resid??ncia, substituem-no por um nazi e declaram-no "inimigo do povo". Em 1944, em plena Guerra Mundial, os nazis det??m-no de novo depois de um atentado contra Hitler.

Depois da vit??ria aliada na Segunda Guerra Mundial, Adenauer ?? nomeado de novo Presidente da C??mara de Col??nia. No entanto, não se acabaram com isso as persegui????es. A administra????o inglesa da zona destituiu-o como "presidente indigno" Em Londres governam ent??o os trabalhistas, mais próximos aos social-democratas alem??es que aos democratas-cristãos, o partido de Adenauer.

Adenauer reagir?? sempre com um optimismo sem falha: "Diminu??dos, mas não aniquilados", ser?? o seu slogan. Aprender?? do desprezo a necessidade do apreço entre as pessoas e os povos. A partir de 1949 e até 1963, durante a chamada "era Adenauer", na qual ser?? chanceler da Alemanha, poder?? trabalhar efectivamente em favor da paz e da unidade entre os povos da Europa. As suas ideias de paz e de colabora????o tinham sido geradas em tempos de persegui????o.

Tra??os de carácter


A Robert Schuman não lhe pouparam insultos de mau gosto. O seu nariz comprido e a careca são objecto cont??nuo de caricaturas. As cr??ticas foram especialmente duras durante os anos das tens??es internacionais entre os blocos pr??-sovi??tico e pr??-ocidental, reflectidas em Fran??a nas lutas entre os partidos. Face ao ??dio do ambiente, Schuman reage com paz e bom humor. Numa ocasi??o, sendo ministro viajando de comboio e sem escolta, responde a um revisor incr??dulo sobre a sua identidade, tirando o chap??u: "Mas nunca viu este cr??nio nos jornais?".

O mesmo Schuman dir?? também durante a ??poca em que ?? ministro das Finan??as: "Alguns perdem a cabe??a quando uma escolta de motociclistas abre caminho ao seu carro, por isso, eu prefiro, sempre que seja possível, ir a p??". E como detalhes de sobriedade contam que se preocupava que ficassem apagadas as luzes quando terminava uma reunião, utilizava os formul??rios usados como papel de rascunho e apontava os seus gastos pessoais.

Numa ocasi??o, ainda como ministro das Finan??as, um jornalista reconhece-o a trabalhar num compartimento do comboio abarrotado de gente e pergunta-lhe por que não reserva um compartimento s?? para ele, Schuman responde-lhe que sabe muito bem quanto custa e que teria de ser pago pelas Finan??as P??blicas.

Durante uma reunião política um dos assistentes critica um ministro comunista. Schuman corta rapidamente dizendo que não tolerar?? que se critique um dos seus colegas diante dele: "Para mim, a solidariedade ?? sagrada".

Conta-se que De Gasperi sabia rectificar quando se enganava. Depois de uma viva discuss??o na Uni??o Acad??mica Católica Italiana na qual se incomodou e saiu batendo com a porta, volta ?? sala e diz que tem pena ter colaborado para a divis??o com a sua atitude orgulhosa e pede publicamente perd??o. Contam também de Schuman que, depois de uma reunião em 1940 na qual também tinha batido com a porta, voltou ao fim de um quarto de hora, pediu desculpa e rogou aos que tinham assistido ao epis??dio que, para lhe perdoarem, aceitassem o seu convite para jantar.

O alicerce para a construção da Europa


Em 20 de Maio de 1950 Robert Schuman faz aprovar pelo Conselho de Ministros franc??s o plano que tinha sido concebido por Jean Monnet para unir a Europa. Tratava-se de confiar a produção francesa e alem?? de carv??o e de a??o a uma Comunidade aberta também a outros pa??ses europeus e sob uma autoridade comum. Monnet confiou a Schuman a realiza????o da Comunidade Europeia do Carv??o e do A??o, convicto j?? da confian??a que ele gozava no mundo. "Pode propor o que quiser, v??o sempre acreditar em si ".

Esse mesmo dia, Adenauer, consciente da import??ncia do acto, declara: "?? o dia mais feliz da minha vida... O plano Schuman corresponde perfeitamente ??s minhas ideias...Não ter??amos o dever de consagrar todas as nossas for??as espirituais, morais e económicas ?? cria????o de uma Europa que pudesse converter-se em elemento de paz?"

De Gasperi, ?? cabe??a do Governo italiano, adere ao plano no dia seguinte.

O plano Schuman ?? o ponto de partida, na pr??tica, do que se tinha concebido na mente e na vida dos tr??s pais da Europa.

Estender a m??o


J?? desde o fim da Primeira Guerra Mundial, Schuman, Adenauer e De Gasperi tinham agido e falado a favor de uma Europa unida. A Segunda Guerra Mundial e a vit??ria dos Aliados fizeram com que fosse Schuman o motor efectivo e primeiro, imediatamente secundado por Adenauer e De Gasperi.

Em 10 de Agosto de 1946, durante a Confer??ncia de Paz em Paris, quando a It??lia ?? tratada como um pa??s vencido, De Gasperi termina o seu discurso solicitando dos vencedores uma paz que correspondia ?? colabora????o fraterna entre os povos. Tamb??m num discurso perante a C??mara de Com??rcio de Nova Iorque em Janeiro de 1947, De Gasperi falar?? dos Estados Unidos da Europa: "As fronteiras perderam o seu significado". Palavras quase id??nticas ??s de Schuman: "As fronteiras, em vez de serem muros de divis??o, devem transformar-se em pontos de comunicação".

Em 1948, apenas passados tr??s anos desde o final da guerra sangrenta, Adenauer tinha escrito: "Depois de tanto sangue derramado h?? que dar as m??os". No mesmo ano Schuman prop??e "estender a m??o ao inimigo de ontem, não s?? para se reconciliarem mas também para construirem juntos a Europa do amanh??".

Ra??zes cristãs


A experiência semelhante de uma vida de luta, de uma reac????o de paz e a coincid??ncia de ideias, criou entre eles uma amizade profunda.

Schuman escreve a De Gasperi em 1953: "Encontr??mo-nos tarde na vida, mas a nossa amizade tem sido profunda e sem reservas. Foi sempre um mediador eficaz e desinteressado. Os dois devemos abrir caminho atrav??s de mal-entendidos e de maldades".

Maria Romana De Gasperi escreveu sobre a amizade entre o seu pai e Robert Schuman: "Entenderam-se bem de imediato. Uma mesma profundidade espiritual, um mesmo idealismo transparece sempre nas suas interven????es sobre o tema da Europa. Continuam a parecer jovens, gra??as ao entusiasmo e ao compromisso que p??em neste programa de unidade".

Unidade, fraternidade. Termos inspirados na f?? e no crisol da vida dos tr??s pais da Europa.

Schuman declara repetidas vezes que a raz??o de levar a cabo o plano que tem o seu nome ?? a sua cren??a nos fundamentos cristãos da Europa. Em 1959, dirigindo-se ao Parlamento Europeu, declara: "A democracia nasceu e desenvolveu-se com o cristianismo, nasceu quando o homem, fiel aos valores cristãos, foi chamado a valorizar a dignidade da pessoa, a liberdade individual, o respeito dos direitos dos outros e o amor ao próximo. Antes da era cristã estes princ??pios nunca tinham sido enunciados; o cristianismo foi o primeiro a valorizar a igualdade entre todos os homens, sem diferenças de classe nem de ra??a".

Por seu turno, De Gasperi escreve: "A origem desta civilização ?? o cristianismo. Com isto não pretendo introduzir um critério confessional exclusivo nem uma avalia????o da nossa história, mas o de uma heran??a europeia comum, de uma ética compartilhada por todos que exalta a ideia da responsabilidade da pessoa humana, com o seu fermento de fraternidade evang??lica, com o seu sentido do direito herdado da antiguidade, com o seu culto da beleza refinado desde h?? s??culos, com a preocupa????o da verdade e da justi??a fundados numa experiência milenar".

Ana Gonzalo Castellanos, Chefe de Unidade no Gabinete de Coopera????o da Comissão Europeia.

* As refer??ncias literais reportam-se ?? obra de Audisio Giuseppe e Chiara Alberto, Fondateurs de l`Europe unie selon le projet Jean Monnet, Ed. Salvator, Paris (2004).