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Que fazer ao capitalismo?

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Que fazer ao capitalismo?

A ideologia liberal, fonte ou produto do sistema capitalista, foi chamada a depor sobre a responsabilidade que lhe cabe nesta crise. Mas ser?? de facto ela que deve sentar-se no banco dos r??us? Ou não ser?? antes necessário examinar problemas de outra ??ndole?

 

A resposta ir??, sem dúvida, depender da an??lise dos acontecimentos e das suas causas; para alguns, puramente conjunturais; para outros, bem arraigadas na própria natureza do modelo agora interdito.

 

O mea culpa de Alan Greenspan

 

Foi particularmente significativo o mea culpa pronunciado por Alan Greenspan, uma das figuras que melhor conjugou a profiss??o de f?? liberal, recentemente exposta num livro de mem??rias (A Era da Turbul??ncia) com a sua aplica????o pr??tica durante os longos anos em que esteve ao lado de governos republicanos ou democratas e permaneceu ?? frente da Reserva Federal Norte Americana. Greenspan declarou encontrar-se num estado de "impressionante perplexidade" perante o cr??tico panorama de que não poucos o acusam, e admitiu que a auto-regulamenta????o não funciona em questões de banca.

 

Num artigo aparecido em Breakingnews.com, Robert Cyran criticou duramente a falta de vis??o do homem até agora considerado como o sumo sacerdote das finan??as norte-americanas, censurando a sua incapacidade para admitir que a hybris - o pecado de arrog??ncia dos her??is de ??squilo e de S??focles - e a cobi??a dos agentes financeiros individuais pudessem prejudicar o sistema e prejudic??-los a eles".

 

Para outras mentalidades mais pragm??ticas, o problema está mais relacionado com a capacidade da ci??ncia económica para compreender a enorme complexidade dos factores que determinam estes epis??dios e, consequentemente, para os atalhar ou saber o que fazer quando se lhes deparam. ?? esta preocupa????o pela casu??stica que agora nos leva a voltar os olhos para o grande precedente hist??rico de 1929, procurando comparar as caracter??sticas do impacto, avaliar os seus efeitos e rever a efic??cia das respostas que ent??o se propuseram.


O capitalismo intervencionado

 

Num artigo com título de urg??ncia Save the System, Thomas Friedman questiona o significado que o plano de salvamento que Bush tem para este debate, nos seguintes termos: "A pergunta que fa??o a mim mesmo e que penso que Paulson e Bush também estarão a fazer a si mesmos, ?? esta: Que efeito ter?? esta interven????o do governo ao assumir o risco que constitui o cora????o do capitalismo?".

 

A darmos crédito a George Soros, o milion??rio investidor cujo livro, A crise do capitalismo global, foi na altura um sucesso de vendas, o futuro reserva-nos tempos "menos irresponsáveis, menos agressivos no que respeita a especula????o, com menos alavancas financeiras e maior rigor na concess??o de créditos". Ao exortar a uma retracta????o pública, ele apresenta um plano completo de reformula????o te??rica: "Os mercados não tendem para o equil??brio, e não se limitam a reflectir as bases sobre as quais se apoiam os valores (os fundamentals), também as configuram. Por isto, não basta pura e simplesmente controlar a oferta monet??ria. é preciso reconhecer que os mercados são propensos a criar bolhas, e as regulamenta????es devem prevenir o seu crescimento desmedido".

 

Citando David Smick, perito em estratégia financeira, Friedman defende que "os planos de resgate e as garantias do governo, sendo ??s vezes necessários, também acarretam sempre consequências imprevistas". Smick não tem dúvidas sobre quem fica a ganhar neste mar de dificuldades: "Ganham: os fortes, os grandes, os consolidados, os nativos e os que estão seguros: gente de quem se poderia dizer que não precisa de dinheiro. Os que perdem: os novos, os pequenos, os estrangeiros e os de maior risco: mercados emergentes, empreendedores e pequenos negócios sem contactos políticos". Estas afirma????es coincidem com o coment??rio que Mois??s Na??m, economista e editor chefe da revista Foreign Policy, fez ao ranking das pessoas mais ricas do mundo, afirmando que essas fortunas foram ganhas mediante acordos com o governo. "Foi o Estado e não o mercado quem os tornou ricos. A crise económica criar?? muito mais oportunidades para aqueles que forem capazes de tirar partido do Estado para fazer fortuna".

 

A este propósito também recorda o número da Newsweek preparado por Rana Foroohar: "muitas das transac????es mais alavancadas financeiramente nos últimos tempos foram feitas por bancos alem??es, mais regulados pelo Estado que por gigantes de Wall Street. Uma maior supervis??o governamental não garante por si que tudo corra bem: ?? necessário que as regulamenta????es estejam bem delineadas, que se possam cumprir e sejam razoavelmente flex??veis".

 

Maior regula????o ou melhor gest??o?

 

Regulamenta????es inteligentes para salvar o sistema e uma rápida retirada governamental dos assuntos da banca são também as directrizes apoiadas por Thomas Friedman. No seu ponto de vista, o descontrolo das pr??ticas financeiras não ?? tanto um tema que diga respeito ?? criminologia como aos princ??pios que devem reger a boa gest??o: "Os bancos que hoje resistem, os que estão a comprar outros e não a ser comprados - como JP Morgan Chase ou o Banco Santander - não sobreviveram por estarem mais bem regulados que os outros, mas porque foram mais bem administrados", argumenta.

 

Actualmente desencantada, a f?? de Greenspan baseava-se igualmente numa certa prud??ncia aplicada ao ??xito empresarial: "Cometi um erro ao presumir que o próprio interesse das organiza????es, especificamente dos bancos e de outras instituições similares, actuaria de tal modo que as tornaria mais aptas para proteger os seus accionistas e a equidade das empresas".

 

Contra a avareza...

 

A confian??a, que Francis Fukuyama considerava b??sica para qualquer interc??mbio produtivo, parece gravemente lesada; nestas circunst??ncias h?? o risco de cair no tenebroso reinado da cobi??a ou da desordem. Mas as vozes mais sensatas alertam contra a solução manique??sta para explicar a natureza do mal. Assim, por exemplo, Nicolas Baverez, na sua coluna de Le Monde recorda: "o crash político não ?? menor que o dos mercados; o ego??smo, a tendência para o "curto prazo" não são de modo algum exclusivos dos traders".

 

Para analistas como Fukuyama, a perversão do sistema consistiu, sobretudo, num excessivo dogmatismo em relação a dois princ??pios: conseguir descer os impostos sobre o autofinanciamento, e confiar na auto - regula????o dos mercados financeiros. David Brooks, por seu lado, procura as causas que podem toldar o discernimento dos homens de negócios, e ao mesmo tempo recorre a um dos profetas especialistas na gestão do risco - Nassim Nicholas Taleb, que no seu livro O Cisne Negro tinha predito que Fannie Mae estaba "sentada num barril de dinamite"-, e anuncia que "a crise financeira desencadear?? uma avalanche de economistas de comportamentos e de extrapoladores da psicologia mais elaborada para o reino das políticas públicas".

 

Segundo Brooks, tudo se relaciona com a "nossa tendência a olhar para os dados que confirmam os nossos preconceitos, em vez de olhar para aqueles que os contradizem; a nossa tendência a sobrevalorizar os acontecimentos mais recentes quando temos de antecipar possibilidades futuras; a nossa tendência para encontrar uma única explica????o para diversos factos concomitantes; a nossa tendência para enaltecer as nossas pretensas capacidades quando na realidade nos baseamos em acontecimentos ocasionais".

 

Outros pareceres não s?? apontam para uma renova????o dos esquemas económicos, mas, em geral, para uma profunda revis??o dos valores da democracia. "A esperança - alerta o Nobel Joseph Stiglitz - reside no facto de as nossas democracias serem suficientemente fortes para se imporem ao poder do dinheiro dos interesses particulares e na demonstra????o de que somos capazes de montar o novo sistema regulador de que o mundo necessita, se ?? que ?? nossa inten????o gozar de una economia global pr??spera e est??vel no s??culo XXI".

 

A verdade ?? que o debate ??tico não pode estar ausente, nem nunca esteve. J?? em 1759 Adam Smith propunha: "Poder??amos esperar que os homens procurassem o seu próprio interesse sem prejudicar indevidamente a comunidade, não s?? pelas restri????es impostas pelas leis, mas por também estarem sujeitos aos limites intr??nsecos derivados da moral, da religi??o, dos costumes e da educa????o". O livro que cont??m estas reflex??es, Teoria dos Sentimentos Morais, tem vinte anos menos que A Riqueza das Na????es. Como refere Rafael Termes na sua Antropologia del Capitalismo, talvez o último texto devesse ser lido ?? luz do primeiro.

 

Xavier Reyes Matheus