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Ressaca das eleições para o Parlamento Europeu

 Política
Chaves da crise da esquerda europ??ia
Ressaca das eleições para o Parlamento Europeu

Apesar de os diferentes motivos para este fenómeno derivarem da diversidade da política interna em cada um dos 27, e mesmo que a emerg??ncia de op????es ex??ticas e os elevados ??ndices de absten????o também não autorizem a direita a assumir o escrut??nio com ares triunfalistas, o certo ?? que o novo mapa do Parlamento comunit??rio p??s em evid??ncia a anemia que desde h?? algum tempo a democracia social-democrata europeia vem a acusar.

 

A esquerda e a crise económica

 

Se, por um lado, parece previs??vel que, perante uma crise económica, o favor popular se oriente para os valores de efic??cia e ortodoxia fiscal que se costumam identificar com a direita, os analistas admiram-se por a esquerda não ter sabido aproveitar o que se poderia apresentar como um fracasso do capitalismo e das políticas neo-liberais.

 

D?? no entanto a impress??o de que a perspectiva anti-capitalista com que a esquerda denunciou a actual catástrofe financeira se est?? antes a virar contra ela. De facto, identifica-a com um discurso j?? ultrapassado que não parece vi??vel a cidad??os inevitavelmente inseridos na din??mica da globaliza????o. Tal ?? a opinião de Denis Macshane, parlamentar do presentemente muito maltratado Partido Trabalhista brit??nico, que num extenso artigo para a Newsweek (08-06-2009) reconhecia que a esquerda deve "atender primeiro ao crescimento e s?? depois ?? redistribuição; e aprender que, se trata os empres??rios, os bens fabricados no estrangeiro e os trabalhadores com passaportes diferentes como inimigos, poder?? talvez agradar aos militantes, mas continuar?? a ser preterida pelos eleitores".

 

?? necessário, diz o legislador brit??nico, que a social-democracia "aprenda a ser pr??-business", o que significa que "deve apoiar o objectivo do crescimento económico forte, que abre espa??os simultaneamente aos trabalhadores imigrantes mal remunerados e a um tratamento justo da classe m??dia".

 

Ora bem, observa Macshane, "s??o as empresas, e não o Estado, que criam postos de trabalho, mesmo sendo o Estado a configurar a justi??a social. A social-democracia sem um nível de emprego pleno ou próximo disso acaba numa amarga batalha centrada na redu????o dos ingressos".

 

A desorienta????o na escolha de modelos ?? para Macshane um dos factores que conspiram contra a redefini????o estratégica de que a esquerda precisaria: "A última moda ?? admirar a China como bem sucedida economia de mercado dirigida pela esquerda, mal reparando nos gulags chineses ou na persegui????o dos activistas pr?? democracia", previne ele. "Muitos dos social-democratas actuais t??m tendência para admirar as pessoas erradas pelas raz??es erradas, o que lhes mina a credibilidade aos olhos da maioria dos seus votantes".

 

Outro paradoxo ?? que, embora os governos da direita se proclamem como tais, o modelo que aplicam face ?? crise ressuscita as fórmulas keynesianas da social-democracia.

 

Governos de direita com políticas keynesianas

 

Tem-se, por outro lado, a impress??o de que o parâmetro económico não ?? j?? o definitivo para dar forma a um determinado carisma político. Pois, conforme sublinham muitos colunistas, deveria ter sido outro "paradoxo" a favorecer a esquerda, e acontece que, embora os governos de direita se proclamem como tais, o modelo que seguem ?? social-democrata, com políticas económicas que redescobrem o keynesianismo. Como comenta Jos?? Ignacio Wert em artigo para El Pa??s (09-06-2009), a evolução dos partidos de direita na Europa comunit??ria tornou-as grupos menos dogm??ticos, pois "os democratas cristãos transformaram-se em populares e abrangem um amplo espectro, desde o conservadorismo ?? fronteira da social-democracia. A sua adaptabilidade tornou-os mais aptos para a sobreviv??ncia". J?? dizia C??novas del Castillo (político e historiador espanhol do s??culo XIX) que, ao fim e ao cabo, "a política ?? a arte de aplicar a cada ??poca aquela parte do ideal que as circunst??ncias permitem".

 

Claro que nem toda a gente est?? disposta a louvar essa flexibilidade da direita quando se trata de moderar as retic??ncias do intervencionismo; e h?? até quem o considere como uma aposta que ir?? passar a sua factura a m??dio ou a longo prazo, pois afirma-se que, quando o Estado mete as m??os num negócio, j?? de l?? não as tira. Mas, se se pode acusar a direita por esta perda de princ??pios ante situações em que parece não haver alternativa, a culpa da esquerda tem muitas vezes a marca de um deslize deliberado para a alternativa errada. Pois - como também observa Wert - existe uma m??xima que, a respeitar-se, tem uma indubit??vel repercuss??o no eleitorado: "se queres continuar no poder, faz aquilo que o teu advers??rio j?? fazia bem e, se puderes, faz mesmo melhor".

 

Wert acredita ainda que o pouco ??xito da esquerda em centrar o debate eleitoral sobre a Europa levou a que as eleições se convertessem num f??rum de debate sobre problemas dom??sticos, o que, neste momento de aperto económico, tende a tornar os cidad??os sens??veis a favorecer os discursos nacionalistas.

 

The Economist defendia h?? pouco tempo que a lideran??a de Gordon Brown no Partido Trabalhista se devia em boa parte ??s cr??ticas sempre t??midas feitas pelos seus próprios adeptos. Um estado de coisas que terminou decididamente a 4 de Junho, com a ren??ncia de James Purnell, seu ministro do Trabalho, que apelou mesmo para a demissão do chefe do governo.

 

Os resultados das eleições europeias foram desta vez demolidores: os trabalhistas caem mais de seis pontos em relação a 2004 e passam a ocupar o terceiro lugar, atr??s do Partido Conservador de David Cameron, que obteve 27% dos votos (praticamente o mesmo que h?? cinco anos), e do euro-céptico UKIP, que conseguiu 17%. Para Tony Travers, professor da London School of Economics, o resultado obtido nas urnas a 4 de Junho não p??e apenas em questão o trabalhismo, mas o bipartidarismo em geral, pois "com as consequências eleitorais correspondentes, tem o sabor da fragmenta????o e do individualismo que nas últimas décadas tem envolvido a Gr??-Bretanha". Julga Travers que "se tiverem essa oportunidade, as pessoas experimentar??o cada vez mais em novos partidos políticos", para bem ou para mal. "Gordon Brown, David Cameron e Nick Klegg ter??o de enfrentar o desafio de impedir o avan??o de partidos minorit??rios e outros", explica o catedr??tico, que conclui lapidarmente: "o g??nio libertou-se da garrafa".

 

A porta aberta por Purnell parece estar j?? de par em par. Assim, por exemplo, num artigo publicado em Espanha pelo El Mundo (09-06-2009), Charles Falconer, ex-ministro da Justi??a do Reino Unido e membro do Partido Trabalhista, criticou excessos que urge corrigir no seio do seu partido. "O esc??ndalo causado pelos gastos de representa????o dos parlamentares mostra que a opinião pública não est?? disposta a aceitar que a governa????o seja algo que se ventila em segredo entre um reduzido número de pessoas", assegurou Falconer, aludindo ??s irregularidades encontradas nas despesas de vários ministros, incluindo o titular da Justi??a, Jack Straw, o dos Neg??cios Estrangeiros, David Miliband, o das Finan??as, Alistair Darling, e o próprio Primeiro-ministro.

 

O Partido Conservador manteve-se alheio a estes esc??ndalos, o que, segundo alguns analistas, serve de sustent??culo ao progresso do multi-partidarismo. No entanto, David Cameron parece ter interpretado o problema em termos de oportunidade e de abertura, pois disse que iria reabrir as suas listas de candidatos antes das próximas eleições, para permitir que nelas figurem pessoas que até agora não participaram na política. Uma promessa especialmente prop??cia a um pedido de convocat??ria de eleições gerais, a que Brown recusou aceder, alegando -desajeitadamente - que um governo conservador que corte nos gastos públicos conduziria ao caos. A resposta de Cameron era previs??vel: "Temos j?? o primeiro indicativo de que [os trabalhistas] v??o perder".

 

Trabalhistas como Falconer reconhecem efectivamente que a sobreviv??ncia do trabalhismo "exige ser liderado por uma classe e uma cultura diferentes das existentes até ao momento, mais transpar??ncia, uma maior disposição para contar com uma mais ampla diversidade de pessoas, mais explicações, bem como uma maior capacidade para lidar com a economia e mais sinceridade sobre a situação real".


Xavier Reyes Matheus