Um clube político para as pot??ncias emergentes?
Os investidores estarão possivelmente a viver um momento positivo, mesmo que os políticos ocidentais, sobretudo os norte-americanos, tenham raz??es para estar inquietos. Al??m do mais, a crise económica est?? a contribuir para que os BRIC exijam uma maior participa????o no sistema financeiro mundial. Vimo-lo na Cimeira do G-20 em Londres, ponto de partida para uma reforma nos sistemas de vota????o do FMI, pois existe um desfasamento evidente entre o Brasil, representante da d??cima economia mundial e que s?? conta com 1,38% dos votos do Fundo, e a B??lgica, cuja economia constitui um ter??o da brasileira mas possui 2,09% dos votos.
Interesses sino-americanos
Analisemos os números: estes quatro pa??ses representam 15% da economia mundial, embora o que mais chama a aten????o seja o seu poder financeiro (mais de 40% das reservas monet??rias mundiais). Não ?? estranho que a China, possuidora de quase 700.000 milhões de dólares em títulos do tesouro norte-americano, esteja muito atenta ao plano de reformas económicas de Obama, pois nelas se joga o seu dinheiro.
O d??fice or??amental norte-americano, que ir?? disparar nos próximos anos, ?? encarado pelos chineses como uma amea??a ?? sua segurança. Nestas circunst??ncias, ?? de esperar uma maior concerta????o de Washington e Pequim para l?? dos assuntos puramente económicos e financeiros. ?? o chamado G-2, apresentado como a futura e aut??ntica configura????o do poder mundial. Neste contexto, entendem-se os esfor??os das autoridades chinesas para manter o iuan em níveis baixos de c??mbio, e ao mesmo tempo lutar para impedir uma queda do dólar, algo que não seria do desagrado dos russos, sempre dispostos a apresentar o rublo, o iuan e outras moedas de pa??ses emergentes como alternativas ?? divisa norte-americana.
Os crescentes interesses sino-americanos, potenciados com o realismo em política externa imposto pela Administra????o Obama, são um dos factores que impedem o BRIC de se constituir como uma alian??a política que sirva de contrapeso ?? hegemonia norte-americana.
Sob o impulso russo
Outro factor ?? que o governo do primeiro-ministro indiano Manmohan Singh, reeleito recentemente, est?? interessado em potenciar os la??os estratégicos com os EUA. Nos tempos de Bush estes la??os concretizaram-se na coopera????o no ??mbito nuclear civil, embora não se deva ocultar que a ??ndia encara com uma certa inquieta????o, não tranquilizada pelas palavras de Obama, a possibilidade de ser relegada para segundo plano em benef??cio do Paquist??o, o velho aliado da guerra fria, dotado de armas nucleares suscept??veis de cair nas m??os do extremismo islamista. Por outras palavras, a necessidade de recuperar a confian??a do mundo muçulmano conduz inexoravelmente Washington a marcar algumas dist??ncias com a ??ndia e Israel.
Do que dissemos não ?? dif??cil tirar a conclusão de que ?? a R??ssia a principal impulsionadora do BRIC como factor geopolítico mundial. S??o quatro pa??ses com uma extensa superf??cie e grandes recursos naturais, embora a demografia não deixe de ser desigual: mais de mil milhões de habitantes na China e na ??ndia, enquanto o Brasil e a R??ssia mal ultrapassam os cem milhões, circunst??ncia que ?? um calcanhar de Aquiles para o futuro da R??ssia, pa??s que insiste mais nos aspectos políticos que nos económicos.
Ap??s contactos informais anteriores, o que se pretende com a reunião dos representantes políticos m??ximos que teve lugar em Yekaterimburgo no passado dia 16 ?? uma certa institucionaliza????o destes encontros. A agenda pareceu centrar-se em assuntos como a crise financeira, a reforma do FMI ou a luta contra as altera????es clim??ticas, assim como o aumento da coopera????o a todos os níveis entre os quatro pa??ses. Apesar de tudo, da interven????o do presidente Medvedev e da declaração final, depreende-se um claro matiz político.
Novos centros de poder
O presidente russo reconheceu que os pa??ses do BRIC se re??nem igualmente noutros f??runs, mas a cria????o de um f??rum espec??fico corresponde ao propósito de coordenar posi????es em torno dos problemas financeiros internacionais. As questões políticas não apareceram de modo expresso no seu discurso, a não ser numa ou outra alus??o ??s oportunidades que o novo f??rum proporciona em mat??ria de política externa. Contudo, parece evidente que Moscovo fez coincidir deliberadamente, no mesmo lugar e na mesma data, a reunião da Cimeira da Organiza????o para a Coopera????o de Xangai, f??rum asi??tico que agrupa a R??ssia, a China e as repúblicas ex-sovi??ticas da ??sia Central, e que conta com a ??ndia e o Ir??o como observadores.
Para Medvedev, Yekaterimburgo foi nestes dias "o epicentro do mundo", como se quisesse recordar aos ocidentais, e nomeadamente aos EUA, que se estão a configurar no mundo novos centros de poder e decisão, nos quais a R??ssia tem um papel de protagonista. Nesses centros não se repete o slogan ocidental de que a democracia e os direitos humanos contribuem para a paz e a segurança, embora o Brasil e a ??ndia sejam democracias reconhecidas. Tudo gira em torno do velho princ??pio - defendido pela "democracia soberana russa" - da soberania dos pa??ses e dos direitos que lhe são inerentes.
Neste sentido, a declaração final da cimeira do BRIC insiste num "mundo multipolar mais justo e mais democrático", mas d?? a impress??o de que os verdadeiros protagonistas da democracia são os pa??ses. Cabe agora ??s pot??ncias emergentes, que noutros tempos foram dominadas pelo Ocidente, disfrutar da sua parcela de poder mundial. Ressuscita assim, pouco a pouco, a velha teoria do equil??brio de poder, que a Europa conheceu durante s??culos. E qualquer historiador sabe que esta teoria não serviu para preservar a paz.

