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Ralf Dahrendorf: uma sociologia da liberdade

 Política
Ralf Dahrendorf: uma sociologia da liberdade

Se algo houve que caracterizou a vida de Ralf Dahrendorf, falecido a 17 de Junho em Col??nia, foi o seu compromisso com a liberdade, seguindo o exemplo dos intelectuais do s??culo XX que se opuseram decididamente aos regimes totalit??rios. Talvez fosse a admira????o que sentia por alguns desses pensadores, entre os quais se encontrava um dos seus mestres na London School of Economics, Karl R. Popper, que o levou a dedicar-lhes uma sincera homenagem no seu último livro, La libertad a prueba.

 

Dahrendorf também tomou rapidamente consciência do valor da independ??ncia intelectual, da honestidade e da defesa da liberdade num contexto político tempestuoso e amea??ador. Nascido em Hamburgo, em 1929, a família Dahrendorf sofreu o flagelo do nazismo e da guerra. Não foi por acaso que cedo se sentiu atra??do pelo mundo anglo-sax??nico, pelo liberalismo brit??nico e pelo pragmatismo sociológico. Depois de estudar filosofia e sociologia e de se doutorar na Universidade de Hamburgo, decidiu continuar os estudos na London School of Economics, um dos centros de ci??ncias sociais mais prestigiados do mundo.Foi durante os anos 60 que come??ou o seu percurso como professor por diversas universidades alem??s. Dahrendorf pertenceu a essa gera????o de sociólogos que receberam o testemunho dos grandes te??ricos sociais. Neste sentido, participou no famoso congresso da Sociedade Alem?? de Sociologia, celebrado em Tubinga em 1965, em que a tradi????o da Escola de Frank-furt, representada por Adorno e um jovem Habermas, se confrontou com as propostas do racionalismo cr??tico, com Popper e Albert ?? cabe??a. Mais tarde, entre 1967 e 1970, o próprio Dahrendorf presidiu ?? institui????o que promoveu o encontro.Deu-se a conhecer ao público especializado com diversos ensaios, entre os que se destacam As classes sociais e o seu conflito na sociedade industrial (1957), Sociedade e Sociologia: a Ilustra????o aplicada (1962) e Homo Sociologicus (1965). Mas foi também um ass??duo colaborador de publica????es destinadas ao público em geral. Al??m disso, alcan??ou notoriedade pública quando come??ou a interessar-se pelo exercício da política activa: filiou-se no Partido Liberal alem??o e foi deputado, vice-ministro dos Neg??cios Estrangeiros e mais tarde Comiss??rio Europeu em Bruxelas.Nos anos 70, viveu no Reino Unido. Durante dez anos (1974-1984) dirigiu a famosa London School of Economics e também leccionou na Universidade de Oxford. A sua paix??o pela cultura brit??nica e o rápido processo de adapta????o aos costumes ingleses explicam que, em finais dos anos 80, tenha decidido tornar-se cidad??o brit??nico. A Rainha Isabel II nomeou-o Bar??o e entrou na C??mara dos Lordes em 1993.Entre a política e a sociologia?? mais f??cil avaliar a contribui????o de Dahrendorf para a sociologia se se tiver em conta que na sua obra se cruzam a tradi????o continental - mais da-da ?? abstrac????o e ?? construção de grandes sistemas - e a anglo-sax??nica, centrada no estudo dos fenómenos concretos, na obten????o de dados e na comprova????o emp??rica. Assim o explicava no princ??pio de um dos ensaios mais importantes: "Em meados do s??culo XX, o sociólogo encontra-se numa situação pouco agrad??vel, pois, enquanto pretende fixar e afirmar os fundamentos da sua ci??ncia (...), s??o-lhe exigidas, compulsivamente, solu????es de aplica????o imediata e legitimidade universal".Sob esta perspectiva, a sua contribui????o mais importante foi a chamada "teoria do conflito social". Face ao funcionalismo de Parsons, no qual imperava uma imagem da sociedade est??vel e equilibrada e que era a teoria dominante no panorama sociológico, Darhrendorf, juntamente com outros, indicou que o relevante não ?? a harmonia nem o consenso mas sim a pluralidade de interesses e a luta e o confronto entre eles; da?? que reivindicasse a tens??o interna na sociedade como motor de mudança e de progresso social.Com os anos, Dahrenforf foi-se afastando da sociologia acad??mica e especializou-se no campo da filosofia e da ci??ncia política. Definia-se a si mesmo como liberal e mostrava-se céptico face a qualquer tentativa de interven????o pública, mas estava consciente dos riscos que acarreta uma política excessivamente liberal: o individualismo e a perda dos la??os sociais.Para o avan??o das liberdades, Dahrendorf achava necessário articular dois conceitos: oportunidades e liga????es. As oportunidades exigem que os cidad??os tenham direitos de participa????o, e bens e actividades disponíveis e pass??veis de op????o. As liga????es são v??nculos que d??o coes??o ?? sociedade.Encontramos nos seus últimos ensaios uma inquieta????o comum: como estabelecer v??nculos entre os indiv??duos que comp??em o tecido social, como conseguir uma cidadania madura e responsável, sem riscos para a liberdade individual? Para Dahrendorf, o rem??dio mais eficaz era estimular as iniciativas da sociedade civil e promover a actividade dos grupos interm??dios; neste último via uma sa??da para escapar, tanto aos efeitos do individualismo, como aos perigos do colectivismo.Josemar??a Carabante