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Vis??es dissonantes sobre a eclos??o da II Guerra Mundial

 Política
70?? anivers??rio da invas??o da Pol??nia e ???mem??ria hist??rica???
Vis??es dissonantes sobre a eclos??o da II Guerra Mundial

A 1 de Setembro de 1939, deu-se a invas??o da Pol??nia por parte das tropas nazis, pouco depois de os governos de Hitler e de Estaline terem assinado um acordo de não agress??o que inclu??a um protocolo secreto para a reparti????o da Europa de Leste em zonas de influência. A propósito deste anivers??rio, o presidente russo Dmitri Medvedev afirmou que ningu??m pode ter dúvidas sobre "quem come??ou a guerra, quem matou e quem salvou milhões de vidas; quem, em resumo, salvou a Europa".

 

Putin apresenta o pacto nazi-sovi??tico como an??logo a outros pactos que tentaram de forma equ??voca travar Hitler

 

Durante uma entrevista recentemente concedida ?? televis??o estatal Rossiya, Medvedev afirmou que equiparar as culpas da Uni??o Sovi??tica com as da Alemanha nazi ?? uma "c??nica mentira".

 

Com estas palavras, o presidente russo respondia a uma resolução da Organiza????o para a Seguran??a e a Coopera????o na Europa que, em Julho passado, por proposta de um representante da Litu??nia, acordou que a data de 23 de Agosto fosse um dia de mem??ria das vítimas do nazismo e do estalinismo. A resolução identificava ambos como regimes totalit??rios, considerando-os responsáveis por "genoc??dio, viola????o das liberdades e dos direitos humanos, crimes de guerra e crimes contra a humanidade".

 

Medvedev pretendeu igualmente refutar a tese de muitos historiadores que afirmam que foi o chamado pacto Ribbentrop-Molotov - designado pelo nome dos Ministros dos Neg??cios Estrangeiros de ambos os pa??ses - que levou Hitler a invadir a Pol??nia, e que a Uni??o Sovi??tica partilha portanto a responsabilidade pelo come??o da guerra. Dezasseis dias depois da ocupa????o alem??, as tropas sovi??ticas entravam na Pol??nia pelo Leste, e anexavam ?? URSS parte deste território, juntamente com zonas da Finl??ndia e da Rom??nia.

 

Os bispos alem??es e polacos publicaram uma declaração conjunta destinada a reafirmar a reconcilia????o e a pedir que a mem??ria não fique "prisioneira do passado"

 

Outra das ofensivas do governo russo no quadro do 70?? anivers??rio do come??o da guerra foi um document??rio emitido pela televis??o pública, repetido quatro vezes entre os dias 20 e 23 de Agosto, e onde a Pol??nia ?? apresentada como c??mplice dos planos de Hitler para a invas??o da Uni??o Sovi??tica.


Putin escreve sobre o pacto nazi-sovi??tico

 

Como que para serenar os ??nimos, na véspera da comemora????o Putin publicou um artigo no di??rio polaco Gazeta Wyborcza, em que d?? uma vis??o mais matizada do pacto nazi-sovi??tico. Afirma Putin que se viu obrigado a abordar a questão do pacto Molotov-Ribbentrop, porque este est?? a ser utilizado por alguns pa??ses nas suas disputas actuais com a R??ssia e ?? apresentado como se fosse o ??nico detonador da II Guerra Mundial.

 

Putin apresenta o acordo como mais um dos pactos que tentaram de forma equ??voca travar Hitler, e não como um facto especialmente condenível. Seria "an??logo" ao pacto de Munique de 1938, com o qual a Fran??a e a Gr??-Bretanha aceitaram a ocupa????o da Checoslov??quia pela Alemanha.

 

Segundo Putin, o governo de Estaline achou necessário assinar o pacto com Hitler, porque os sovi??ticos estavam a sofrer a agress??o japonesa pelo Leste e não queriam uma guerra em duas frentes. A ocupa????o de uma zona da Pol??nia constitu??a a restaura????o de uma parte do imp??rio russo, perdida ap??s a I Guerra Mundial e ambicionada por Estaline. O artigo conclui afirmando que, numa consideração retrospectiva, nenhum pacto com os nazis podia ser moralmente justificado. Putin aproveita o artigo para dizer que "?? extremamente irresponsável (...) tergiversar a história, procurando nela motivos para reclama????es e ofensas mútuas", e prop??e "um futuro de coopera????o entre a R??ssia e a Pol??nia".

 

Com estes antecedentes, os actos de comemora????o que tiveram lugar a 1 de Setembro em Gdansk -onde come??ou o ataque alem??o-, e a que assistiram 22 chefes de Estado e de governo, podiam ter dado lugar a posi????es conflituosas entre russos e polacos. Mas, no seu discurso, Putin adoptou um tom mais conciliador. Voltou a afirmar que "todas as tentativas feitas entre 1934 e 1939 com o objectivo de alcançar a paz com os nazis, assinando tratados e pactos, foram moralmente inaceit??veis, in??teis e prejudiciais do ponto de vista pr??tico"; louvou a valentia dos soldados e cidad??os polacos na luta contra o nazismo, e sugeriu que os debates hist??ricos sejam deixados ao cuidado dos historiadores, encorajando o desenvolvimento da coopera????o entre a Pol??nia e a R??ssia.

 

Pela parte polaca, o presidente Lech Kaczynski foi cortante, classificando como "punhalada pelas costas" a invas??o do Leste da Pol??nia pelo Ex??rcito Vermelho. O tom apaziguador coube ao primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, que declarou que a visita de Putin reflecte um crescente esp??rito de coopera????o, apesar dos desacordos sobre a mem??ria hist??rica.

 

Desde que se libertaram do regime comunista, os polacos t??m reagido contra todas as tentativas russas de manipulação do passado e relativiza????o dos crimes de Estaline; nomeadamente, a matan??a de Katyn, em que cerca de 23.000 polacos, principalmente oficiais, foram assassinados por ordem de Estaline, que depois tentou atribuir a matan??a aos nazis.

 

A Comissão russa para a "mem??ria hist??rica"

 

V??rios dirigentes russos acusaram os pa??ses ocidentais de reescrever a história e de subestimar os sacrif??cios da Uni??o Sovi??tica, que perdeu 27 milhões de pessoas na guerra. Em Maio passado, Medvedev criou uma "Comissão destinada a contrariar as tentativas de falsificar a história para prejudicar os interesses da R??ssia", integrada por 28 membros, entre os quais somente tr??s são propriamente historiadores (dois investigadores e um arquivista). As outras 25 pessoas são todas funcion??rios e políticos.

 

David R. Stone, professor de Hist??ria na Kansas State University e membro do The Russian Front, um grupo de profissionais especializados em temas de história militar e diplom??tica russa (http://russian-front.com/frontoviki/), referiu que, apesar das discuss??es na comissão, a faculdade de decidir sobre a falsidade ou certeza de uma tese hist??rica "fica quase literalmente nas m??os de Medvedev", dado que "o sancta sanctorum dos arquivos russos ?? o Arquivo Presidencial", e em última inst??ncia ?? ele quem decide se os historiadores podem ou não ter acesso ?? informação que ali se guarda. De facto, o director da comissão, Sergei Naryshkin, que ?? o Chefe de Pessoal do Kremlin, dirige também a ag??ncia encarregada de desclassificar o material dos arquivos russos.

 

Por seu turno, o porta-voz do Conselho da Federa????o, Sergei Mironov, prop??s que se adoptem medidas para perseguir criminalmente quem quer que "repudie os resultados da II Guerra Mundial", que ?? ainda chamada na R??ssia "Grande Guerra Patri??tica". Se esta iniciativa se transformar em lei, comentou na sua coluna do The Moscow Times o opositor e antigo deputado na Duma Vladimir Ryzhkov, "um cidad??o russo ou estrangeiro que duvide do ???g??nio' de Estaline como comandante em chefe durante a II Guerra Mundial, ou que questione se os habitantes dos pa??ses do Pacto de Vars??via realmente ???obtiveram a liberdade', poder?? ser condenado a uma pena de pris??o de tr??s a cinco anos".

 

Ryzhkov acrescenta que "a maior ironia desta farsa ?? que os piores falsificadores da história foram, quando muito, as autoridades sovi??ticas e russas", e que a comissão de Medvedev "cria uma amea??a directa contra os historiadores e os cidad??os particulares que tentam investigar com objectividade a história da Guerra".


Estaline reabilitado

 

Para recuperar o orgulho nacional russo, maltratado ap??s o desaparecimento da URSS e a perda de estatuto de grande pot??ncia, Putin não teve dúvidas em reabilitar em grande parte a figura de Estaline. Embora não negue que cometeu erros, prefere apresent??-lo como o dirigente libertador que derrotou a Alemanha nazi e tornou possível a transformação da R??ssia, em vez de record??-lo como o cruel d??spota responsável pela morte de milhões de vítimas.

 

A recente reinaugura????o da esta????o de metro de Kurskaya, uma das de maior tr??nsito de utentes no centro de Moscovo, gerou polémica entre historiadores, activistas dos direitos humanos, políticos e dirigentes religiosos, visto que, depois de um ano de trabalhos de restaura????o, exibe novamente na arquitrave do vest??bulo as palavras do hino sovi??tico que se cantava quando a esta????o foi aberta em 1950: "Estaline educou-nos na fidelidade ao povo, inspirou-nos no trabalho e nos feitos heróicos". O autor destes versos, o poeta russo Sergei Miljakov -falecido precisamente nestes dias, aos 96 anos -, tinha revisto a letra do hino ap??s a morte de Estaline, para eliminar as refer??ncias ao ditador georgiano, e estas tinham desaparecido igualmente, desde h?? cerca de meio s??culo, da esta????o a que agora foi devolvido o seu aspecto original.

 

Embora as autoridades afirmem que a restaura????o obedece simplesmente a motivos art??sticos, os que a criticam t??m indícios para pensar que faz parte do programa de reabilita????o do l??der sovi??tico que tem vindo a tornar-se vis??vel desde a chegada ao poder de Vladimir Putin, em 2000. Nesse mesmo ano, em Maio, o Banco Central russo emitiu 500 moedas de prata com a ef??gie de Estaline.

 

Alertas dos bispos alem??es e polacos

 

A mem??ria hist??rica serve muitas vezes para criar tens??es no presente. Na Alemanha, o governo decidiu, no passado m??s de Abril, criar um memorial dedicado aos alem??es dos pa??ses do Leste que sofreram expuls??es ap??s a guerra; uma iniciativa que ati??ou o anti-germanismo de certos sectores políticos polacos.

 

Para evitar estes confrontos, os bispos católicos da Alemanha e da Pol??nia redigiram uma declaração conjunta, apresentada simultaneamente em Bona e em Czestochowa, a propósito da comemora????o dos 70 anos, onde condenam os crimes cometidos durante o conflito e as expuls??es que aconteceram depois. A ideia deste documento ?? reafirmar o que foi expresso pelos bispos de ambos os pa??ses na c??lebre carta publicada em 1965, ainda a Cortina de Ferro dividia a Europa, e que foi um sinal de reconcilia????o.

 

A actual declaração, afirmou a Confer??ncia Episcopal alem??, "pretende menos olhar para o passado do que voltar-se para o futuro. E ?? neste sentido que se dirige sobretudo aos políticos dos dois pa??ses". Segundo o texto, "?? necessário vigiar para que as novas gerações tenham e conservem um correcto conhecimento da II Guerra Mundial". "Não temos necessidade apenas de fazer um balanço honrado das atrocidades do passado, como também de renunciar aos estereotipos que tornem mais problem??tica uma boa compreens??o daquela ??poca e possam minar a confian??a criada, para l?? das dificuldades, entre polacos e alem??es", afirma a exorta????o subscrita pelos presidentes de ambas as conferências episcopais, monsenhor Robert Zollitsch e monsenhor Jozef Michalik.

 

A mem??ria não deve ficar "prisioneira do passado", defendem os bispos, que se referiram também a "certas tendências presentes na sociedade e na política, que revelam ainda a tenta????o de uma utiliza????o propagand??stica das feridas recebidas, com o objectivo de despertar ressentimentos a partir de uma interpreta????o falsificada da história". A carta, tal como a de 1965, recorda ao mesmo tempo a prioridade da responsabilidade hist??rica.

 

Aceprensa