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Paola Binetti, neuropsiquiatra e deputada italiana

Dentro de um partido de esquerda, pode defender-se a vida intensamente

 Política
Dentro de um partido de esquerda, pode defender-se a vida intensamente

Paola Binetti foi recrutada por Francesco Rutelli depois de ter verificado a sua resolução de ter aderido ao debate medi??tico. Dentro do PD, faz parte de um grupo de políticos que se definem como "conservadores em antropologia e reformistas na ??rea social". A imprensa italiana conhece-os como os teodem (de "teo", Deus; e "democratas"), em oposi????o aos teocon, conservadores.

 

Na XV legislatura (2006-2008), o grupo dos teodem era formado por tr??s senadores e tr??s deputados. Agora ?? constitu??do por sete senadores e cinco deputados. De momento, conseguiram criar um clima de defesa da vida dentro do próprio partido. Assim aconteceu no ano passado quando o PD votou, junto com a maioria conservadora, contra uma lei sobre a eutan??sia proposta pela esquerda radical.

 

"?? um erro considerar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito de decisão da mulher"

 

Binetti ?? herdeira de uma tradi????o iniciada por De Gasperi, pai da Democracia cristã italiana. Tamb??m ela est?? convencida que os católicos e os socialistas podem chegar a acordo sobre temas ??ticos controversos. "Dentro de um partido de esquerda, pode defender-se a vida intensamente", disse.

 

- A experiência dos teodem ?? muito parecida com a dos Democrats for Life nos Estados Unidos: crentes que iniciaram um movimento em defesa da vida dentro de um partido de esquerda. A que corresponde a esta tendência?

 

Nestes momentos em que o Ocidente est?? amarrado a um bipolarismo simplista, ?? dif??cil encontrar um partido que represente todos os nossos valores. Por isso ?? t??o importante que cada parlamentar, seja de que partido for, possa actuar em consciência. A Constitui????o italiana prev?? que nenhum parlamentar seja submetido ?? disciplina de voto; com isso garante que cada um decida, em primeiro lugar, de acordo com a sua consciência, e depois segundo a posi????o concertada por todos os da coliga????o ou do partido a que pertence.

 

"Por este caminho, a esquerda acabar?? por se converter num movimento radical que nada tem a ver com os ideais de inclus??o e protecção dos mais d??beis"

 

A verdadeira batalha em democracia est?? em defender a liberdade de consciência de cada deputado. Que todos possam decidir livremente o que, em consciência, cr??em que ?? o melhor para o seu pa??s. E que todos possam exprimir e promover os seus valores no seio do partido, e fora dele atrav??s de políticas transversais. Um pa??s tem de ter a garantia de que cada deputado vota em consciência.

 

Este ?? o contexto em que nasceu o nosso grupo: quer??amos defender a vida com absoluta clareza. Por isso insistimos na ideia de que h?? valores que não pertencem nem ?? direita nem ?? esquerda, mas sim ?? natureza humana e que se podem defender sem problemas num Estado laico.

 

- D?? a impress??o que esse "bipolarismo simplista" esquerda-direita, de que fala, tem muito peso no debate sobre o aborto.

 

Parece-me que o problema est?? mal formulado. A esquerda não se inclina para o aborto, mas sim para os direitos individuais. E aqui h?? uma deformação: ?? um erro colocar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito da mulher a decidir. H?? outra parte implicada e, por isso, o debate deve colocar-se tendo em conta o direito ?? vida de todos. Como o filho ?? t??o pequeno, a sociedade deve proteg??-lo e conservar o seu direito ?? vida.

 

A esquerda enganou-se ao apresentar o aborto como um s??mbolo dos direitos humanos. Não podemos limitar-nos a defender o direito ?? vida do mais forte (a mulher), enquanto anulamos o do mais fraco (o filho). Se se continua por este caminho, a esquerda acabar?? por se converter num movimento radical que não tem nada a ver com os ideais de inclus??o, protecção do mais d??bil, luta contra a pobreza, promo????o social... Esta contradi????o interna j?? est?? a passar a factura: não ?? por acaso que a esquerda perdeu eleições em toda a Europa.

 

Os direitos e os desejos

 

- Ami??de diz-se que o debate sobre o aborto se trava nos parlamentos. Pelo contr??rio, a senhora prop??e lev??-lo para o terreno da cultura.

 

Na origem dos debates políticos sempre h?? uma ideia. Nestes momentos, a ideia que est?? a marcar grande parte da vida social ?? a concepção dos direitos individuais. Durante os últimos anos, tem-se exaltado tanto a autonomia individual que estamos prestes a transformar os desejos em direitos. ?? a lógica que leva a querer que se fa??a lei de tudo o que se deseja.

 

Esta ideia tem sido admitida noutros ??mbitos como o direito, a economia, a política ou a ci??ncia. ?? curioso: quando as pessoas simples v??em a mulher gr??vida em seguida reconhecem que a?? h?? outra vida humana, a do filho. Pelo contr??rio, alguns cientistas envolvem-se em racioc??nios retorcidos e introduzem a possibilidade de que essa vida não seja humana.

 

A essa distin????o acrescentam outra perigos??ssima: a diferença entre vida e "vida saud??vel". Enganam-se. O direito ?? vida não pode depender da sa??de. Temos de aprender a defender a vida com capacidade técnica e cient??fica, com solidariedade social e criativa.

 

- E que prop??e para mudar essa concepção dos direitos?

 

?? certo que durante muito tempo se desvalorizaram os direitos individuais. Mas agora ca??mos no extremo oposto. Devemos voltar a uma posi????o de maior equil??brio, onde o direito individual se confronte sempre com a responsabilidade social.

 

Paradoxalmente, o homem que coloca os direitos individuais no centro da sua exist??ncia acaba mergulhado numa enorme solidão, em conflito permanente entre os seus direitos e os dos outros.

 

N??s propomos uma vis??o antropológica e social do homem como sujeito de relações. A autonomia ?? s?? uma parte da nossa vida; no princ??pio e fim dela, dependemos sempre do cuidado dos outros. O que nos faz humanos não ?? a autodetermina????o, mas sim a capacidade de dar e receber. A vida ?? sempre relacional.

 

Juan Meseguer Velasco