A apoteose do nacionalismo chin??s e o soberanismo
Das suas palavras pode-se tirar a conclusão de que a China actual não sup??e nenhuma ruptura com o passado. A República Popular tem sessenta anos de exist??ncia: trinta deles inscrevem-se na ortodoxia comunista de Mao; os outros trinta correspondem ao socialismo de mercado institu??do por Deng Xiaoping.
Poder??amos dizer que ambos os per??odos sup??em uma estratégia, primeiro de retrac????o, e depois de expans??o. A grande mudança, de alcance milen??rio, foi a abertura da China ao mundo, mas isso ?? fruto do pragmatismo e da adapta????o ao cen??rio global surgido nas últimas décadas do s??culo XX. Da?? deriva a sede de desenvolvimento económico do gigante chin??s. Ser a segunda pot??ncia económica mundial esconde, no entanto, o doloroso contraste de um rendimento per capita de 3.000 dólares, o que coloca a China no 104?? lugar do ranking mundial. A mensagem do ministro, por??m, ?? que a ascens??o chinesa não significa tanto uma amea??a como uma oportunidade para os pa??ses desenvolvidos. Um maior grau de desenvolvimento permitiria ?? China um maior protagonismo, juntamente com maiores responsabilidades, na cena internacional. Trata-se da famosa "ascens??o pac??fica" da China, que tenta não inquietar nem os seus vizinhos asi??ticos nem o resto do mundo, mas que de facto pretende colocar-se num dos primeiros lugares entre as pot??ncias mundiais, quase a par com os EUA.
O discurso internacional da China j?? não fala de paz nem de socialismo, como nos velhos postulados marxistas-leninistas, mas de paz e desenvolvimento. Num artigo do Le Monde de 15-01-2010, o especialista em sistemas comunistas Thierry Wolton comparava a China actual com a URSS posterior a Kruschev, quando com estat??sticas inflacionadas se tentava ocultar o fracasso do regime na sua tentativa de superar o Ocidente. Esta estratégia de marketing era ali??s alimentada pela credulidade ocidental, sempre disposta a acreditar nas intenções pac??ficas do advers??rio, fosse para ficar em paz com a sua consciência ou com os seus negócios.
Não se entender?? nunca o comunismo chin??s, nem o mao??sta nem o actual, sem o nacionalismo
A "sovietomania" dessa altura foi superada pela "sinomania" de agora, mesmo que Wolton ponha a descoberto os calcanhares de Aquiles da China actual: maquinaria industrial parcialmente obsoleta, discrimina????o social, inflação, envelhecimento da popula????o, catástrofes ecológicas... O socialismo sovi??tico também tinha alguns destes sintomas. Hav??amos ent??o de ficar sentados, ?? espera que o sistema se desmoronasse, como aconteceu com a URSS de Gorbachov? As coisas não são assim t??o simples. A China não ?? um regime comunista qualquer. Por muito que o "Manifesto Comunista" dogmatizasse, afirmando que "os prolet??rios não t??m p??tria", Lenine e Estaline nunca acreditaram em tal dogma. Menos ainda Mao, Deng e os seus sucessores. Nunca se entender?? o comunismo chin??s, tanto o mao??sta como o actual, sem o nacionalismo.
?? frequente alguns jornalistas ocidentais serem de opinião que a China contempor??nea ?? uma regress??o comparada com a mao??sta e que até estão a regressar os "senhores da guerra" caracter??sticos das primeiras décadas da república, que este ano comemora o seu centen??rio. Tamb??m não compreendem que a suposta rigidez ideológica de Mao estava ao serviço do interesse nacional: converter a China numa grande pot??ncia da ??sia e do mundo e transformar num par??ntese o s??culo de humilha????es infligidas pelas pot??ncias ocidentais e pelo Jap??o.
Harmonia e multilateralismo
Os dirigentes actuais, a come??ar pelo presidente Hu Jintao, proclamam nos seus discursos a necessidade de uma "sociedade harmoniosa", o que evoca os velhos ensinamentos confucianos de "harmonia sem uniformidade". A harmonia ?? a express??o do equil??brio na sociedade, e ningu??m a poderia incarnar melhor do que um estado autorit??rio e benevolente para com os seus s??bditos, paradigma que o pr??spero micro-estado de Singapura soube incarnar: a?? convive a harmonia confuciana de família, sociedade e "despotismo moderado".
Na China, harmonia aplica-se a tudo: ?? unidade necessária para se ter for??a e poder, o que se ajusta muito bem ao comunismo chin??s; ??s relações internacionais, que entendem o mundo como um sistema de equil??brio entre as grandes pot??ncias; ?? aus??ncia de desacordos que justifiquem o controlo social por parte do Estado, em caso de falta de "harmonia"... Acaba por se conseguir encontrar um tipo de harmonia que atente contra os direitos da pessoa, o que indirectamente sup??e a aceitação de que tais direitos não são de alcance universal.
A perspic??cia de comunistas chineses como Deng Xiaoping, em tempos acusados de "direitistas", soube vislumbrar o horizonte da globaliza????o, que iria p??r fim a uma sociedade internacional polarizada em blocos ideológicos. Restou uma única super-pot??ncia, mas os restantes competidores iriam alistar-se no multilateralismo, entendido como rejei????o de uma vis??o messi??nica do mundo que fazia demasiado finca-p?? na democracia e nos direitos humanos como instrumentos necessários para se alcançar paz e segurança.
Neste contexto, a única democracia aceit??vel ?? a igualdade entre Estados soberanos, o respeito pelos valores de todos os sistemas políticos e a não interfer??ncia nos seus assuntos internos. Nisto coincidem a R??ssia e a China hoje em dia: na orgulhosa reafirma????o do princ??pio da soberania dos Estados. Não h?? dúvida de que este ?? um dos princ??pios da Carta das Na????es Unidas, mas também o era no cen??rio internacional do s??culo XX, o da concerta????o entre as grandes pot??ncias, muito antes de surgir a primeira organiza????o de ??mbito universal.
A associa????o estratégica entre a China e os EUA
A afirma????o da China não passa j?? pelo isolamento nem pela desconfian??a relativamente aos f??runs regionais
A auto-afirma????o da China não passa j?? pelo isolamento nem pela desconfian??a em relação aos f??runs regionais. Nem sequer a presen??a dos EUA na ??sia e no Pac??fico ?? criticada, como o era em tempos, por os EUA serem uma pot??ncia estrangeira. Afinal de contas, os norte-americanos são o principal parceiro comercial dos chineses e a relação financeira entre ambos ?? a mais importante do mundo. O maior credor de Washington ?? Pequim, que nos finais de 2009 devia possuir mais de 700.000 milhões de dólares em obriga????es do Tesouro. Pouco interessa ?? China que a recupera????o económica dos EUA se venha efectivamente a verificar.
Tal realismo económico leva analistas como George Gilder a pedir ?? administra????o Obama que não exaspere os chineses (Wall Street Journal, 04-02-2010). A associa????o estratégica entre ou EUA e a China, que representa o n??cleo do capitalismo global, não devia ser lesada por objectivos considerados secundários, tais como o enfraquecimento do dólar, o livre acesso ?? Internet ou as negocia????es sobre o aquecimento global. Gilder considera que os EUA t??m j?? problemas que cheguem com o Ir??o, a Venezuela e a Coreia do Norte.
Gilder não ?? grande entusiasta acerca das recentes decisões de Washington, como vender armas a Taiwan ou receber o Dalai Lama. Mas se tais decisões correspondem a critérios de oportunidade política, ent??o deviam pelo menos incluir-se na categoria de "conflitos moderados". Assim os qualifica o analista chin??s Wang Wangzheng no China Daily de 04-02-2010, ao dar-se conta da inadequa????o da ideologia ocidental na construção de boas relações bilaterais. Tal ideologia não passa de um bal??o, que pode rebentar tal como estalou a crise financeira. Outro exemplo da superioridade de que se sente investido o nacionalismo de uma pot??ncia emergente.
Alimentando o nacionalismo
Face ao que se afirmava nos anos imediatamente posteriores ?? guerra fria, h?? numerosos indícios que nos levam a pensar que no s??culo XXI nem tudo no mundo se pode reduzir ?? geoeconomia. A geopolítica reclama os seus foros perdidos e tem como elementos importantes o nacionalismo e a for??a militar. Dizem-nos que a política externa da China se baseia na "ascens??o pac??fica" e que os chineses seriam os primeiros prejudicados se adoptassem uma política militarista geradora de conflitos, particularmente com os seus vizinhos asi??ticos. Mas esta an??lise mostra-se excessivamente racionalista, ao esquecer que a política externa tem também um carácter emocional e que a efervesc??ncia de um nacionalismo ferido, apegado aos agravos hist??ricos alimentados nas escolas, pode comportar s??rias consequências. A China não devia ser apenas vista como um lugar que oferece oportunidades de negócios, nem os sonhos multilateralistas, especialmente alimentados a seguir ?? presid??ncia Bush, dever??o impedir uma mais profunda vis??o do que se pensa dentro das fronteiras da China.
Sem precisar de ir mais longe: um dos bestsellers de 2009 com maior divulga????o dentro das fronteiras da China foi Unhappy China, escrito por cinco autores que defendem uma política mais firme em relação ao Ocidente. Um deles ?? Song Qiang, que em 1996 contribuiu para a publica????o de outro livro de caracter??sticas semelhantes, China Can Say No. Este analista político tem muito presentes os protestos ao longo do percurso da tocha ol??mpica, as queixas dos pa??ses ocidentais pela contamina????o provocada pela China ou a negativa desses mesmos pa??ses em partilhar tecnologia estratégica.
O certo ?? que a China não se conforma em ser a segunda pot??ncia económica mundial, ao ter afastado o Jap??o e a Alemanha. A sua vis??o estratégica nunca foi igual ?? dos gigantes económicos como a Alemanha e o Jap??o, que eram no entanto politicamente an??es. Se a China foi durante s??culos o Imp??rio do Centro, compreende-se que queira recuperar a sua posi????o com este regime p??s-mao??sta de "co- imperadores". Os dirigentes medem as palavras, procurando não usar express??es t??o virulentas como as usadas pelos autores de Unhappy China, que ao fim e ao cabo se limitam a afirmar sem rodeios que o potencial económico deve ser usado para conquistar a hegemonia política.
?? o nacionalismo que alimenta a firmeza dos chineses nos foruns internacionais. Mas firmeza não basta se se quiser figurar como modelo de lideran??a. Não basta o simples exemplo de quem sabe defender os seus interesses na cena internacional nem o das estat??sticas que mostram melhorias nas condições de vida material. Falta a dimens??o humana e, mesmo que não o queiram crer, ?? este o ponto fraco das pot??ncias que, como a China, elevam ?? categoria de dogma o princ??pio da soberania dos Estados.

