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O novo ???centro compassivo??? de David Cameron*

 Política
O novo ???centro  compassivo??? de David Cameron*

A ideia de uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo come??ou a germinar na primeira metade do s??culo XX e cristalizou em propostas sugestivas como o "humanismo económico" (Wilhelm R??pke) ou a "planifica????o para a liberdade" (Karl Mannheim).

 

Estas propostas passaram sem dar nas vistas. Foi preciso esperar pelos anos 90 para que a terceira via alcan??asse fama mundial. O sociólogo brit??nico Anthony Giddens, foi o inspirador do New Labour de Tony Blair, que popularizou a ideia e a colocou no cerne do debate político contempor??neo.


O novo projecto procura atenuar os excessos do liberalismo económico de Margaret Thacher com medidas sociais que simultaneamente tendam a fortalecer os valores familiares e a sociedade civil.

 

Os cr??ticos de Giddens - entre os quais Ralf Dahrendorf - sempre reprovaram a ambiguidade das suas ideias. Alguns foram ainda mais longe, demonstrando que a sua terceira via não o era na realidade, dado que se inclinava para um extremo: o individualismo. A comprov??-lo est?? a sua vis??o da família, baseada somente na satisfa????o afectiva do casal.

 

O certo ?? que o projecto político concebido pelo bin??mio Giddens-Blair cativou, dentro e fora do Reino Unido, muita gente que andava ?? procura de uma "social-democracia renovada"

 

Uma das chaves do ??xito da terceira via de Giddens consistiu em apresentar um n??cleo de valores e de princ??pios como elementos fundamentais do "novo trabalhismo". Perante o pragmatismo dos seus advers??rios, Blair surpreendeu a opinião pública com ideias novas, tais como "Estado social investidor" ou "igualdade inclusiva".

 

Para al??m da carga emotiva que transmitiam, estas ideias serviram para criar a convic????o de que os trabalhistas falavam a s??rio. O programa não era um conjunto de medidas incoerentes, mas sim um projecto a longo prazo.


Mudan??a nos conservadores

 

No entanto, depois da derrota sofrida pelo Partido Trabalhista nas eleições europeias de 1999, Blair optou por apresentar ??s eleições de 2001 um programa muito mais pragm??tico. De facto, a partir desse ano, o l??der trabalhista deixou de utilizar a express??o "terceira via".


A reconstrução da sociedade brit??nica deve apoiar-se em dois princ??pios b??sicos: recuperar a no????o de bem comum e fortalecer o associativismo cívico.

 

Quando Gordon Brown sucedeu a Blair em 2007, o discurso das grandes ideias passou ao ba?? das recorda????es. De vez em quando, Brown utilizava alguns lugares-comuns, sobre o elitismo dos conservadores, por exemplo. Mas a sua falta de carisma acabou por colocar num dilema o Partido Trabalhista, desgastado por 13 anos de governo. David Cameron teve a aud??cia de se apresentar ??s eleições de Maio com uma ideia brilhante: "o centro compassivo". Apesar de a sua proposta estar muito menos articulada que a de Blair, conseguiu criar nos eleitores a sensa????o de que algo de novo est?? na forja.

 

Assim o explicou o l??der tory aos seus colegas de partido numa conven????o celebrada no passado dia 28 de Fevereiro: "Agora podemos olhar o povo brit??nico nos olhos e dizer que estamos com eles e que somos como eles. Que estamos aqui para servir este pa??s compassivo, tolerante e multirracial. Que este Partido Conservador votou pela mudança e nunca vai voltar atr??s".

 

Pela primeira vez em dez anos, os conservadores conseguiram ficar nas sondagens ?? frente dos trabalhistas. Mas as ideias não são tudo em política. Seguramente pesou também muito o d??ficit, o desemprego e a subida de impostos efectuada pelo Partido Trabalhista.

 

O facto de os tories terem decidido entrar no debate das ideias ?? de facto uma novidade. O seu projecto ganhou agora consist??ncia e gera confian??a.

 

Ideias de dois think tanks

 

O novo "centro compassivo" de Cameron ?? ainda um projecto vago, para o que contribui a falta de um ide??logo incondicional ao estilo de Giddens. Actualmente, a proposta do l??der tory fundamenta-se em dois think tanks: "The Centre for Social Justice (CSJ), nascido no seio do Partido Conservador, e a ResPublica, um laborat??rio de ideias independente fundado por Phillip Blond, ideologicamente afecto aos conservadores.

 

Ian Duncan Smith, católico convicto e antigo l??der conservador, ?? a cabe??a vis??vel do CSJ. A sua ideia b??sica ?? que a permissividade dos trabalhistas, unida a uma política fiscal que privilegia a instabilidade familiar, potencia certos problemas sociais como o fracasso escolar, a depend??ncia dos subs??dios ou a prolifera????o do ??lcool e das drogas.

 

Para Duncan e os seus seguidores, a regenera????o da sociedade brit??nica passa pela promo????o do casamento e da estabilidade familiar. ?? evidente que os conservadores não andam desatentos, e reparam nas alarmantes taxas de div??rcio, no decr??scimo do número de casamentos e na crescente aceitação da co-habitação na Gr??-Bretanha.

 

Que os conservadores tenham hasteado a bandeira da defesa da família não se deve s?? a motivos ideológicos. At?? ?? data, o CSJ elaborou tr??s relatórios (2006, 2007, e 2009) que mostram a correlação existente entre a instabilidade familiar e os problemas sociais.


Porqu?? "compassivo"?

 

Se o CSJ forneceu a Cameron um bom arsenal de dados e argumentos para promover sem complexos os valores familiares, a ResPublica proporcionou-lhe as ferramentas necessárias para "humanizar" o neo-liberalismo de Thatcher com medidas sociais centradas nos mais desfavorecidos.

 

O fundador da ResPublica, Phillip Blond, ?? um pensador político que h?? bastante tempo defende um "conservadorismo social"; chama-lhe Red Torysm, denomina????o surgida h?? j?? vários anos. Nascido no ambiente oper??rio dos arredores de Liverpool, Blond estudou filosofia e ci??ncias políticas na Universidade de Hull e também teologia em Cambridge.

 

Alguns consideraram Blond como o fil??sofo de cabeceira de David Cameron. Mas ainda ?? cedo para o saber. At?? hoje, o l??der conservador limitou-se a apadrinhar o lan??amento da ResPublica.

 

Com a express??o "centro compassivo", procura o astuto Cameron destacar-se da vis??o do thatcherismo que passou ao imagin??rio colectivo. Face aos excessos do capitalismo neoliberal, defenderia um modelo de economia de mercado que premeia os bons (a classe trabalhadora) e castiga os maus (os especuladores).

 

Não est?? no entanto ainda claro que o "centro compassivo" de Cameron seja o mesmo que o Red Torysm. Mas, de momento, coincidem em alguns objectivos b??sicos: distanciar-se da política económica de Thatcher, defender os valores familiares e combater o individualismo extremo."

 

O Red Torysm ?? um conservadorismo que acredita na família e nas relações humanas, que tem uma vis??o social e que produz uma economia transformadora que melhora o bem-estar da classe mais baixa da sociedade", explica Blond a Emili J. Blasco numa entrevista ao ABC (15-02-2010).


Renovar o debate público

 

Neste momento, pesa sobre os ombros de Cameron o peso das eleições gerais, o que não acontece com Blond. Esta sua situação permite-lhe parar para pensar sobre os grandes problemas económicos, políticos e sociais que hoje atravessa o Reino Unido.

 

Segundo o Manifesto ResPublica, este think tank tem como meta alterar os termos do debate público. O diagnóstico inicial ?? terminante: "A Gr??-Bretanha atravessa um momento de crise económica, de fractura social e de fragmenta????o cultural. A nossa economia est?? arruinada. Perdemos o sentido de responsabilidade social e um propósito moral compartilhado".

 

A crise que Blond descreve tem tr??s vertentes, que apontam para tr??s boas intenções malogradas.

 

"Em nome da liberdade de mercado, produzimos o auge dos monop??lios que sufocam a competência e concentram a riqueza e as oportunidades em elites impenetr??veis"

 

"Em nome do Estado assistencial, o paternalismo estatal fez saltar pelos ares as aspira????es pessoais e perpetuou o imobilismo social, fazendo com que milhões de brit??nicos desistam de alcançar a independ??ncia social e económica".

 

"Em nome da diversidade democrática, perdeu-se um propósito moral compartilhado, e deu-se lugar a uma pluralidade de conflitos civis que prejudicaram a na????o, impediram a integração social e desgastaram a identidade colectiva".

 

Depois do diagnóstico, o Manifesto prop??e uma terapia. A ideia de reconstruir a sociedade brit??nica deve apoiar-se em dois princ??pios b??sicos: recuperar a no????o de bem comum - que ?? algo mais que o mero interesse geral dos burocratas - e fortalecer o associativismo cívico.

 

"Numa sociedade civilizada, o mercado e o Estado não deveriam ser vistos como a meta última ou a melhor express??o da humanidade. Na realidade, são os meios para alcançarmos o nosso objectivo; não são um fim em si. Esse objectivo comum ser?? decidido pelos cidad??os associados, mediante a pr??tica e o discernimento do bem comum".

 

Entre as medidas propostas para alterar a natureza an??rquica do mercado e conseguir a reparti????o de riqueza, Blond destaca tr??s: ajuda ?? habitação, ajuda aos filhos e cria????o imediata de um fundo de pens??es, para levar as pessoas a poupar.

 

Blond prop??e p??r o Estado ao serviço da sociedade, com a finalidade de transformar o assistencialismo estatal. Perante o sistema de provis??o directa de serviços, julga ser necessário dotar de maiores poderes as comunidades locais para serem elas a identificar as necessidades reais dos cidad??os.


Aceprensa

 

*(NdR) O título do artigo ?? uma alus??o ?? express??o cunhada por Bush, que se referiu a si mesmo como "conservador compassivo".