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Os cento e cinquenta anos do fundador do sionismo

Theodor Herzl: utopia e realidade

 Política
Israel celebra os cento e cinquenta anos do nascimento do jornalista e jurista Theodor Herzl, fundador do sionismo e considerado pai do Estado
Theodor Herzl: utopia e realidade

Poderia dizer-se que esta mudança lhe melhorou o estatuto social, dado que os judeus de Viena eram muito diferentes dos de Budapeste, representando uma classe urbana e cosmopolita, cuja exist??ncia continuava a parecer-se com a vida num gueto, se bem que as leis discriminat??rias se tivessem suavizado com o passar do tempo. Mesmo assim, nem sequer a atmosfera de Viena se veria livre dos ventos anti-semitas, representados sobretudo por Karl L??ger, presidente da c??mara da capital austr??aca entre 1897 e 1910.


Um Estado para um povo

 

Não restam dúvidas de que tal situação influenciou a funda????o do sionismo, um movimento político nacionalista que pretendia criar um Estado para os judeus, numa ??poca em que o anti-semitismo ganhava na Europa Central e de Leste um forte impulso, favorecendo assim a emigração judaica para os Estados Unidos. O sionismo pretendia conseguir uma solução definitiva para a secular di??spora judaica. Ao mesmo tempo, por??m, o seu carácter laico punha de lado as tradicionais expectativas hebraicas de um Messias pessoal, pois o sionismo respondia ??s ess??ncias dos nacionalismos triunfantes da Europa do s??culo XIX.

 

Em consequência, não admitia matizes nem particularidades locais, não queria distinguir entre um sofisticado judeu de Berlim e outro do I??men, considerando-os todos como um ??nico povo, que deveria ter direito a ter um Estado, de acordo com o princ??pio das nacionalidades. Não era, pois, um juda??smo religioso, que era o que até ent??o tinha pregado o regresso a Si??o; antes afirmava que os rabinos deviam estar fechados nas suas sinagogas, do mesmo modo que os militares nos seus quart??is.


Sionismo laico e partidos religiosos

 

Muitos judeus religiosos podem reconhecer o m??rito de Herzl como fundador de um Estado hebraico moderno, mas o argumento de este ser uma defesa contra o anti-semitismo parece-lhes insuficiente. ?? tal o seu apego ?? literalidade b??blica que a única raz??o que aceitam ?? o chamamento feito por Deus a Abra??o, mandando-o sair da sua terra para se estabelecer na Palestina. A Terra Santa de Israel foi destinada ao povo judeu desde os prim??rdios dos tempos. Se durante quase dois mil anos o segredo da sobreviv??ncia do povo judeu foi a religi??o, não se poderia edificar uma ordem política e social ?? margem dela, nem reduzi-la a um fenómeno puramente cultural.

 

A liga????o entre juda??smo e território explica a subida eleitoral dos partidos religiosos a partir de 1967, ap??s a ocupa????o por Israel de Gaza e da Transjord??nia.


A proposta de Herzl

 

Por outro lado, Herzl, ao tempo correspondente em Paris do di??rio liberal Neue Freie Presse, viveu na capital francesa a agita????o social e política em torno do caso do capit??o Alfred Dreyfus, um judeu injustamente acusado de ser espi??o alem??o. Aquela eclos??o colectiva de anti-semitismo no ber??o da Revolução Francesa levou o jornalista a publicar O Estado Judeu* (1896), preconizando a emigração judaica para um território que forneceria a base para um Estado próprio.

 

Herzl não acreditava nas virtudes da assimila????o e estava convencido de que nunca deixariam os judeus viver em paz

 

Não era, no entanto, um Estado exclusivo, porque Herzl tinha consciência de que nem todos os judeus a?? se quereriam estabelecer. Deveria, de qualquer modo, desempenhar o papel de Estado protector, posto que o te??rico do sionismo tinha a premoni????o de que uma grande catástrofe pairava sobre o povo judeu. Não acreditava nas virtudes da assimila????o e estava convencido de que da?? a duas gerações os judeus não conseguiriam viver em paz. E afirmava que a trag??dia não iria acontecer no leste da Europa mas justamente na zona ocidental do continente. Da?? a sua urg??ncia nos últimos oito anos de vida - Herzl morreu em 1904 vítima de insufici??ncia card??aca - por organizar o movimento sionista no seu objectivo de conseguir um Estado soberano para os judeus.

 

Foi Herzl que em 1897 organizou o primeiro congresso internacional sionista em Basileia, tendo na sua sequência visitado o sult??o otomano e o Kaiser Guilherme II, em busca de apoios para o seu projecto. Tendo estes contactos resultado infrut??feros, o fundador do sionismo voltou-se para a Gr??-Bretanha, que oferecia aos judeus perseguidos na R??ssia czarista a possibilidade de encontrarem ref??gio temporário no Uganda. Foi esta a proposta de Herzl ao sexto congresso sionista de 1903, deixando embora claro que o objectivo final dos sionistas era regressar ?? Palestina, objectivo este que se tornaria realidade com a cria????o do Estado Judaico meio s??culo depois.


A imagem deteriorada do sionismo

 

A descri????o do Si??o do futuro não descuidava os pormenores espec??ficos: constitui????o, l??ngua, legisla????o, bandeira, ex??rcito..., mas o que não previa claramente era em que lugar do mundo se estabeleceria. O autor pensava nas vastas planuras da Argentina, dado que o governo desse pa??s tinha feito uma oferta, mas não podia em absoluto descartar a Palestina, sua terra de origem e ent??o pertencente ao Imp??rio otomano. Afirmava de facto no seu livro que, se o sult??o lhes entregasse a Palestina, os judeus poriam em ordem as deficit??rias finan??as turcas. Chegou mesmo a asseverar que uma Palestina judaica seria "uma muralha contra a ??sia", "uma vanguarda da civilização contra a barb??rie".

 

Estas palavras continham algo de prof??tico porque, com o passar dos anos, muitos ??rabes haviam de considerar o Estado de Israel como uma nova vers??o do colonialismo ocidental. Mas Herzl sentiria hoje dificuldade em ver Israel como um posto avan??ado da Europa no M??dio Oriente, pois no Estado hebraico ganha for??a a ideia de que os europeus apoiam sobretudo os palestinianos.

 

E não basta que as opini??es públicas considerem ser essa a op????o progressista, pois Israel sempre analisar?? ?? lupa qualquer declaração dos representantes das instituições europeias, se bem nos lembramos das passadas cr??ticas da Alta Representante da PESC, Catherine Ashton, ?? interven????o militar em Gaza. Caiu no entanto mais mal a Israel que no passado m??s de Mar??o o presidente brasileiro Lula da Silva se tivesse negado a visitar o t??mulo de Theodor Herzl, alegando vagas desculpas protocolares. Mesmo tendo alguns dos seus porta-vozes afirmado que era uma questão de neutralidade, não ?? compreens??vel que em seguida visitasse em Ramallah o t??mulo de Arafat.


Para o governo de Netanyahu, Theodor Herzl ?? compar??vel aos antigos profetas de Israel, ?? o novo Mois??s que abriu o caminho

 

Para o governo de Netanyahu, Theodor Herzl pode comparar-se aos antigos profetas de Israel, ?? o novo Mois??s que abriu o caminho, mas, tal como o seu predecessor, também não lhe foi dado entrar na Terra Prometida, mesmo estando presentemente sepultado em Jerusal??m. A sua vis??o foi talvez ut??pica, mas tornou possível o renascimento de um Estado judaico. Acontece, por??m, que a imagem do sionismo se encontra presentemente deteriorada, tanto ou mais que em 1975, quando a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução - que foi contudo revogada em 1991 - equiparando-o a um novo tipo de racismo.

 

No entanto, a dram??tica evolução do conflito israelo-palestiniano associa o sionismo com agress??o militar e ocupa????o, conforme reconheceu a própria Organiza????o Sionista Mundial (The Jerusalem Post, 22-04-2010), apesar de este organismo afirmar que as ideias de Herzl visavam a constitui????o de uma sociedade ideal em que conviveriam judeus e n??o-judeus.

 

Do sionismo ao trabalhismo

 

Censurou-se de facto o autor de O Estado Judeu por na sua obra não referir a popula????o pr??-existente na Palestina. Ele não podia desconhecer tal realidade, pois tinha viajado até esse território. Contudo, um dos principais estudiosos de Herzl, Shlomo Avineri, sublinha a import??ncia do seu romance ut??pico de 1902, Altneuland (Terra Velha e Nova ) se quisermos aprofundar nas ideias do l??der sionista. Não deixa de ser surpreendente que num dos capítulos dessa obra seja narrada a celebra????o de uma P??scoa judaica ?? qual assistem um frade franciscano e um pope ortodoxo. Ainda mais espantosa ?? a descri????o do templo de Jerusal??m, reconstru??do pelos judeus rec??m-chegados e ligado ao Santo Sepulcro e ??s mesquitas muçulmanas.

 

Um outro capítulo chama igualmente a aten????o: uma campanha eleitoral num futuro 1923, num Estado de Israel onde ??s mulheres ?? reconhecido o direito de voto e onde todos os habitantes, independentemente da ra??a ou da religi??o, gozam dos mesmos direitos. O que mais chama a aten????o ?? o facto de um dos protagonistas, Rachid Bey, ser um engenheiro ??rabe de Gaza que ocupa um cargo na Administra????o do Estado. Herzl apresenta-o como algu??m que soube entender as vantagens económicas e tecnológicas trazidas ?? Palestina pela chegada dos judeus.

 

O vil??o da história ??, no entanto, o fundador de um partido racista judeu que d?? pelo nome de "Geier", que em alem??o significa "abutre", e que estaria inspirado no anti-semita presidente da c??mara de Viena, Karl L??ger. Os argumentos do partido são muito simples: no Estado judaico, somente os judeus t??m direito de cidadania; os demais habitantes são simplesmente residentes tolerados, sem gozarem dos mesmos direitos. Segundo Avineri, isto demonstraria que Herzl tinha consciência da exist??ncia de um racismo judaico, que no Si??o do futuro seria derrotado nas eleições, em favor de princ??pios liberais e igualit??rios. Um contraste completo com uma Europa onde o racismo se apresentava vitorioso. Infelizmente, a prematura morte de Herzl t??-lo-ia impedido de aprofundar na exist??ncia de tal perigo.

 

Nos anos seguintes difundir-se-iam por seu lado as ideias de um sionismo revisionista desenvolvido por Zeev Jabotinsky (1880 - 1940). Nele se acentuavam os contrastes entre nacionalismo e democracia liberal, dado que ele se preocupava pela segurança do seu povo, sobretudo durante os anos em que o anti-semitismo se transmitia da Alemanha ao resto da Europa.

 

Herzl, pelo contr??rio, estaria mais próximo de uma vis??o socialista e multi-culturalista - anterior ?? inven????o do termo - se bem que seja sobretudo visto como o criador do sionismo político, que a partir da década de 30 havia de ser eclipsado pelo trabalhismo, com figuras t??o transcendentes na funda????o do Estado como David Ben Gurion e Golda Meir. Em contraste com Herzl, os trabalhistas não acreditavam na boa vontade das grandes pot??ncias para criarem um Estado para os judeus. Pelo contr??rio, iria ser a classe trabalhadora judaica estabelecida na Palestina a construir esse Estado, e um dos instrumentos para tal seria o kibbutz, uma comunidade colectiva de trabalhadores agr??colas.

 

A for??a do nacionalismo ??rabe

 

Por seu lado, o fundador do sionismo pensava que o campon??s era uma classe em vias de desaparecimento na sociedade industrial. Mas a progressiva imigração de judeus para a Palestina tornava muito arriscado o estabelecimento de quintas individuais e, por raz??es de segurança, pois viviam no meio de uma popula????o hostil, era preciso criar quintas colectivas. Da?? o aparecimento em 1909 do primeiro kibbutz, embora este tipo de quintas s?? tivesse atingido a sua m??xima expans??o nos anos do domínio brit??nico sobre o território.

 

Apesar de tudo isto, as ideias originais do sionismo não corresponderam ?? realidade sobre o terreno. Evidentemente que Israel não ?? um Estado teocr??tico, mas a teoria não teve em conta a for??a de outro nacionalismo, o nacionalismo ??rabe-palestiniano, e menos ainda a for??a de um islamismo que considera esse mesmo território sagrado e indivis??vel. Em finais do s??culo XIX, o nacionalismo ??rabe como movimento político não tinha ainda despontado. Surgiria pouco tempo depois, com a rebeli??o dos ??rabes contra o Imp??rio otomano, seguida de outras rebeli??es contra os colonialistas brit??nicos e franceses.

 

De qualquer modo, a utopia sionista est?? imbu??da de racionalismo, de fasc??nio pelo progresso, ante cujas vantagens todos se rendem. Não toma no entanto em consideração a for??a das emo????es, que ?? capaz de conduzir ao ??dio e ao derramamento de sangue.

 

Antonio R. Rubio

 

*O Estado Judeu; Rio de Janeiro, Garamond, 1998