Pesquisa

Political Disaffection

A política na era do desencanto

 Política
A escassa valoriza????o da componente política por parte dos cidad??os não ?? uma novidade; a sua pontua????o nos inqu??ritos de opinião costuma ser muito baixa
A política na era do desencanto

Di Palma (1) definiu este termo como o sentimento subjectivo de impot??ncia, cinismo e falta de confian??a no processo político, nos políticos e nas instituições democráticas, mas sem um questionamento do regime político.

 

Este fenómeno est?? a sofrer uma progressiva agudiza????o em Espanha, ao ponto de ter acabado por ocupar as primeiras p??ginas dos jornais, porque o bar??metro do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), de Fevereiro de 2010, salientou que a classe política constitui surpreendentemente, com 16,8%, o terceiro problema mais preocupante para os espanh??is, acima inclusivamente do terrorismo (12,5%). S?? ?? superado, embora de modo muito consistente, pelo desemprego (81,8%) e pelos temas económicos (47,8%). O facto ?? confirmado quando se pergunta pela import??ncia que têm na vida do inquirido diferentes aspectos. Numa escala de 0 a 10, aparecem em primeiro lugar a sa??de e a família, com 9,68 e 9,63 respectivamente, enquanto que a política se situa no fim do pelot??o com 3,97 (bar??metro do CIS de Dezembro de 2009).

 

Em democracias consolidadas ou nas novas

 

A avers??o pela política enquanto tal, aponta para uma tendência a longo prazo que estaria a minar as relações entre os cidad??os e os sistemas de governo democráticos, afastando-os progressivamente, mas sem levar a um questionamento radical do regime. Segundo Torcal (2), a avers??o incluiria por seu turno dois elementos diversos. Um deles, denominado indiferença política (political disengagement), reflectiria a falta de compromisso dos cidad??os nos diversos processos políticos (vota????es, debates parlamentares), e o segundo, a avers??o institucional, a falta de confian??a nas instituições políticas do pa??s (justi??a, parlamento, sindicatos).

 

Sendo a avers??o pela política um fenómeno geral nas democracias ocidentais, apresenta-se com caracter??sticas diversas nas democracias da primeira e segunda vaga, e nas da terceira, que são aquelas que acederam ?? democracia nos últimos anos do s??culo XX, como ?? o caso da Espanha (3).


Parece existir un menor nível de avers??o pelas instituições da democracia nos pa??ses com um passado democrático consolidado

 

Em geral, parece existir um menor nível de avers??o para com as instituições da democracia nos pa??ses que têm um passado democrático consolidado (mais de 50 anos), possuindo uma experiência democrática rica e prolongada. Pelo contr??rio, as democracias recentes, com falta desta experiência, não t??m elementos de refer??ncia para avaliar o funcionamento e os resultados das instituições democráticas, o que as torna mais vulner??veis aos fracassos.

 

Esta divis??o, e as causas em que se apoia, afecta também o modo de reagir ?? avers??o. Alguns sociólogos salientaram que esta não teria necessariamente de ser sempre negativa, pois poderia dar lugar a iniciativas originais por parte de cidad??os comprometidos que impulsionassem uma mudança ou melhoria das relações entre os órgãos de governo e os cidad??os, contribuindo assim para adaptar o sistema democrático ??s altera????es sociais.

 

Todavia, confirmou-se que esta tendência difere nos dois grupos de democracias. Nas democracias consolidadas, esta reac????o positiva parece contar no seu activo com o passado político que, operando na consciência colectiva, envia uma mensagem optimista e de esperança em relação ao sistema global, estimulando a promo????o de ideias que o fa??am melhorar.

 

Os próprios partidos proporcionam aos meios de comunicação social material para alimentar a política do esc??ndalo, potenciando o descrédito geral da profiss??o

 

Um exemplo recente desta tendência encontramo-lo no movimento americano denominado Tea Party, constitu??do por cidad??os de base que est?? a tentar influenciar as decisões de governo numa perspectiva próxima dos republicanos, mas de forma aut??noma. Pelo contr??rio, no caso das novas democracias, o passado opera em sentido oposto, enviando impulsos negativos gerais e arraigados a respeito do sistema político, que fomentam a desmobiliza????o e a avers??o.


Desconfian??a em Espanha

 

Se as teses anteriores estão correctas, a Espanha tem uma grande desvantagem ?? partida, devido ao seu longo passado anti-democrático ou pseudo-democrático, no qual se teria de incluir não s?? os longos anos da ditadura franquista, como as décadas anteriores ?? Guerra Civil e todo o turbulento s??culo XIX. O inconsciente ou consciente colectivo espanhol, com efeito, arrasta consigo um pesado lastro de desconfian??a sobre o sistema político, pronto a fazer valer o seu peso diante de qualquer deteriora????o do sistema democrático, real ou fict??cia.

 

Não se pode ignorar, no entanto, que contrariando as teses padr??o da avers??o, houve recentemente em Espanha mobiliza????es importantes, organizadas pela sociedade civil opondo-se a projectos de cariz ideológico impulsionados pelo governo de Rodr??guez Zapatero, que obtiveram o apoio de centenas de milhares de cidad??os. De qualquer forma, o movimento espanhol talvez se tenha centrado mais na presen??a pública -algo que conseguiu plenamente-, mas sem impulsionar com a mesma energia a participa????o dos seus membros nos sistemas institucionais de representa????o política e de governo. Seria, portanto, de certo modo, uma reac????o a partir de fora do sistema, sobre o qual pesa essa desconfian??a ou avalia????o negativa arraigada no nosso passado anti-democrático ou pseudo-democrático.


A deteriora????o causada pela corrupção


A imagem que os partidos transmitem ?? muitas vezes demasiado monol??tica, especialmente devido ?? disciplina de voto no Parlamento

 

Entre as raz??es concretas que geram a avers??o pela política em Espanha, a primeira e mais evidente ?? a not??ria deteriora????o da imagem pública do político, causada, antes de tudo, pela multiplica????o de casos de corrupção. Embora pare??a que qualquer sociedade ?? suscept??vel de assumir a exist??ncia de casos de corrupção, a recente generaliza????o destes casos saturou essa medida, levando a uma certa demoniza????o da classe política em geral.

 

A classe política ??, evidentemente, a principal responsável por este ju??zo, pois ?? um facto que os casos de corrupção se multiplicaram. Mas deve-se acrescentar que a percepção subjectiva do nível de corrupção ?? aumentada de forma artificial pela tendência dos meios de comunicação social (e da sociedade em geral) para a política do esc??ndalo, assim como pela sua utiliza????o enquanto arma política que ?? atirada entre as diversas forma????es políticas. O esc??ndalo "vende", pelo que os casos de corrupção (sejam reais ou n??o) aparecem sempre na primeira p??gina dos jornais, levando não poucas vezes a linchamentos medi??ticos irrevers??veis, visto que o ju??zo social nunca pode ser compensado por uma tardia absolvi????o judicial.

 

A sua utiliza????o como arma política tem um efeito similar. Embora a den??ncia da corrupção real seja um serviço ?? colectividade que os indiv??duos ou os partidos devem fazer, muito menos se torna f??cil, especialmente para os partidos, subtrair-se ao seu uso para eliminar inimigos políticos, mesmo que as den??ncias se baseiem em indícios não especialmente fundamentados. Gera-se assim um c??rculo vicioso no qual os próprios partidos proporcionam aos meios de comunicação social material para alimentar a política do esc??ndalo, potenciando o descrédito geral da profiss??o, visto que quando os casos de corrupção se generalizam, os cidad??os deixam de ter em conta o partido político concreto que o provoca e formulam uma vis??o global e negativa sobre toda a classe política.

 

A solução te??rica para este problema ?? muito simples: bastaria que os representantes dos partidos e os governantes se comportassem de modo honesto. Mas os políticos, e isto nem sempre ?? reconhecido pelos cidad??os comuns, não são uma classe de excep????o, que provenha de um outro qualquer planeta, mas uma profiss??o integrada por cidad??os como os outros, que cresceram e amadureceram no mesmo contexto social. E, se na política espanhola houve um aumento do nível de corrupção, a raz??o ?? porque o mesmo aconteceu em toda a sociedade.


A falta de projecto

 

Um segundo grupo de factores que est?? a deteriorar imenso a imagem da política em Espanha pode-se agrupar em torno da etiqueta: falta de projecto. Os cidad??os esperam capacidade de lideran??a, vis??o e coer??ncia na classe política, que hoje parece ser um bem escasso.

 

Um dos principais factores que integram esta falta de projecto ?? a aposta no curto prazo. Os políticos e, em especial, o partido no governo, não parecem possuir um projecto para o pa??s e, concretamente, para solucionar os problemas económicos, pelo que actuam com base em decisões de curto alcance que permitem resolver os problemas de modo moment??neo ou, simplesmente, superar uma delicada situação política atrav??s do impacte medi??tico da decisão. Esta política de tapa-buracos pode servir para ir ultrapassando conjunturalmente os problemas, mas agrava-os a longo prazo -porque não os resolve- encorajando o sentimento de avers??o, na medida em que o cidad??o observa, mais cedo ou mais tarde, que por detr??s dessa atitude, s?? existe um exercício c??nico de perman??ncia no poder, mas não uma tentativa responsável de resolver os problemas do pa??s.

 

Compet??ncia profissional do político

 

Outra causa da deteriora????o da imagem dos políticos ?? gerada pela percepção de uma certa falta de competência profissional, em parte, devido ao elevado nível de exigência que os cidad??os esperam dos seus representantes e, em parte, porque efectivamente ?? assim. Nem sempre possuem o nível cultural e profissional que seria desejável. Uma das causas deve ser procurada na demoniza????o da política e no seu efeito negativo em pessoas competentes que optam por profiss??es melhor consideradas socialmente; de igual modo, a total dedica????o a um partido, se não for acompanhada por processos formativos, pode gerar personalidades muito conhecedoras dos alicerces das organiza????es, mas sem capacidade de lideran??a nem de gerar ideias com impacte social.

 

Para resolver este problema foi proposto o mecanismo da porta girat??ria, que consiste em integrar nos partidos pessoas competentes -juristas, economistas, gestores culturais, profissionais de diversa ??ndole- que desempenhem determinadas fun????es durante um per??odo de tempo limitado e regressem depois ao exercício da profiss??o. Trata-se, sem dúvida, de uma ideia interessante, mas de dif??cil implementa????o, pois o profissional externo deve enquadrar-se e adaptar-se ?? estrutura de funcionamento e de poder de um sistema social (o partido político) que não conhece a partir de dentro e, por outro lado, o seu regresso ?? profiss??o depois de um per??odo de aus??ncia ou ruptura nem sempre est?? assegurado. O exemplo recente de Manuel Pizarro, antigo CEO da Endesa, testemunha claramente as dificuldades deste tipo de processos.

 

Por último, também se salientou que o objectivo de captar todos os possíveis votantes ("catch all"), costuma traduzir-se num esbatimento dos projectos próprios aos quais são eliminadas as arestas mais conflituosas, para que a mensagem chegue ao maior público possível. Trata-se de um procedimento compreens??vel, mas cuja contrapartida ?? que a mensagem final que chega ao eleitorado pode ser t??o indefinida que perca parte da sua capacidade motivadora gerando avers??o. Uma alternativa vi??vel ?? o microtargeting com o qual se aponta para sectores definidos da popula????o a partir de propostas muito próximas dos seus interesses.


A estrutura dos partidos

 

A percepção sobre o funcionamento dos partidos também ?? outra das causas de avers??o.

 

A primeira raz??o ?? um possível excesso de verticalismo, que leva a que todas as decisões sejam tomadas a partir dos escal??es mais elevados e sejam impostas depois de maneira hier??rquica e pouco dialogada ao resto dos quadros e das bases. ?? claro que um partido ?? um sistema de poder e, portanto, essa transmissão do poder não s?? ?? inevit??vel como até desejável em alguns aspectos. Mas, apesar disso, a imagem que os partidos transmitem ?? muitas vezes demasiado monol??tica, talvez devido ?? escassez de pessoas com suficiente personalidade e competência para expressarem a sua própria opinião de forma independente e madura. Isto ?? especialmente evidente no Parlamento, onde a disciplina de voto actua com frequ??ncia como um cilindro uniformizador, que impede a express??o de posi????es independentes, racionais ou minimamente cr??ticas.

 

Alguns propuseram, para resolver este problema, o sistema das listas abertas. No entanto, como em tudo na política, não existem solu????es f??ceis. Na realidade, o número de políticos que os cidad??os conhecem ?? muito limitado, pelo que não ?? assim t??o evidente que, no caso de poder escolher entre determinado número de pessoas, o votante pudesse vir a possuir a informação suficiente de modo a decidir com conhecimento de causa entre os diversos candidatos; por outro lado, em eleições de ??mbito nacional, uma pessoa pode desejar votar num projecto político global, independentemente de quem a represente numa determinada circunscri????o.

 

O desconhecimento da política real

 

Outro dos motivos da avers??o pela política ?? o desconhecimento por parte dos cidad??os da realidade da vida política, das suas dificuldades, da sua complexidade, das suas necessidades e das suas leis internas. Um exemplo muito esclarecedor, na minha opinião, encontramo-lo em alguns grupos de pessoas ideologicamente muito comprometidas que promoveram a gesta????o de pequenos partidos inspirados no humanismo cristão (Familia y Vida, AES) por considerarem que o Partido Popular não defendia adequadamente e com suficiente contund??ncia esta perspectiva. ?? possível que o ponto de partida pudesse estar em parte justificado, mas estes grupos não estavam verdadeiramente conscientes da enorme dificuldade que envolve defender estas posi????es de modo efectivo no plano nacional. Por isso, depararam rapidamente com graves problemas que bloquearam o seu desenvolvimento.

 

O primeiro ?? que nenhum partido se pode limitar a propor questões de carácter ideológico-doutrinal, pois o ??mbito de temas que se aborda na política ?? muito mais amplo. Al??m disso, as questões ideológicas, embora interessem a um grupo amplo de espanh??is, não são os temas fundamentais que v??o determinar a orienta????o de voto da maioria da popula????o. Por isso, um partido que se centre prioritariamente nesses aspectos est?? condenado, ?? partida, a ser minorit??rio. Por último, apesar de grupos substanciais de pessoas poderem partilhar um acordo sobre determinadas ideias, esse acordo, em si mesmo, não ?? mais do que um projecto te??rico intelectual com falta de uma base operativa assente no território. E, sem estes elementos, não ?? um partido político. Ora, construir esse emaranhado organizativo ?? algo complexo: exige l??deres com capacidade de unir vontades, instrumentos económicos, capacidade de compromisso, habilidade política, etc.

 

Esta vis??o ut??pica da política também est?? presente, embora de otro modo, nas avalia????es negativas que não levam em conta que os mesmos problemas que a afectam, existem também noutros meios profissionais. A corrupção, a concorr??ncia desleal ou as trai????es profissionais não são caracter??sticas exclusivas da política e podem ser encontradas em muitos outros ??mbitos profissionais. O que acontece ?? que os interesses em jogo na política s??o, em geral, muito mais relevantes, o que multiplica a paix??o e o desejo.


Juan Manuel Burgos

 

(?? professor da Universidad CEU San Pablo (Madrid). Presidente da Asociaci??n Espa??ola de Personalismo.)

 

Notas

 

(1) G. Di Palma, 1970, Apathy and participation. Mass Politics in Western Societies, New York, The Free Press.

 

(2) M. Torcal, 2003, Political disaffection and democratizacion history in new democracies, Working Paper 308.

 

(3) S. P. Huntington, 1991, The Third Wave. Democratization in the Late Twentieth Century, Norman OK, University of Oklahoma Press.