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Quebrar o ciclo de violência no L??bano e arredores

 Política
Em pa??ses que sofreram guerras internas e repetidos conflitos entre diferentes comunidades, não ?? raro que se eternize o ciclo da violência
Quebrar o ciclo de violência no L??bano e arredores

O L??bano ?? um pa??s onde esta preocupa????o est?? muito viva, e dela resultou uma conferência anual, organizada pelo Center for Lebanese Studies, na American University de Beirute. Alexandra Asseily (1), cuja família sofreu em várias alturas a tr??gica experiência da guerra, foi a conferencista deste ano.

 

Filha de pai brit??nico e de m??e russa, parte da sua família viveu a Primeira Guerra Mundial, tendo-lhe nela morrido um filho, enquanto os outros familiares sofreram as consequências da Revolução Russa, o ex??lio e uma vida de refugiados. Alexandra conheceu aquele que se tornaria seu marido em 1966 e a partir desse ano foi viver para o L??bano durante "uma ??poca maravilhosa", até que, depois de alguns anos, o horror da guerra alterou de novo a sua vida. Foi testemunha do sofrimento das pessoas ?? sua volta e, na medida das suas possibilidades, dedicou-se a dar ajuda e al??vio aos que a rodeavam. P??de ser testemunha directa do impacto dos traumas atrav??s das gerações.

 

Procurando as causas que tinham feito rebentar os confrontos, um grupo de conhecidos seus reunia ora em Londres ora em Beirute, até que em 1984 decidiram estabelecer na capital brit??nica o Centro de Estudos Libaneses, como estratégia para olhar com maior profundidade o passado e o presente e assim construir o futuro.

 

Paralelamente, Alexandra Asseily fez o seu próprio percurso. Ao olhar para as experiências vividas, surgiram-lhe as perguntas sobre a raz??o de tanta violência e de tanta falta de humanidade de que eram capazes as pessoas, pertencessem a que grupo pertencessem. Interrogava-se sobre qual poderia ser o seu contributo para a paz e, segundo relata, "tive também que p??r em ordem a minha vida espiritual", procurando compreender-se a si própria para ajudar os outros. Acabou por ser psicoterapeuta e trabalhar nessa ??rea em Londres e Beirute.

 

A import??ncia da história

 

H?? actualmente comportamentos violentos que em muitos casos resultam da acumula????o de feridas interiores transmitidas de pais a filhos

 

Alexandra Asseily conta epis??dios da sua experiência profissional e ilustra com exemplos o modo como comportamentos violentos actuais s??o, em muitos casos, fruto da acumula????o de feridas interiores transmitidas de pais a filhos, de professores a alunos, de idosos a jovens. Explica como o programa de história leccionado num col??gio pode levar a que modelos latentes, ainda vivos nas famílias por tradi????o oral, irrompam no presente e gerem reac????es violentas, individuais ou de grupo. Fala das dificuldades que vivem os muçulmanos ao serem etiquetados de terroristas e como h?? povos na Europa que não se d??o bem com outros povos devido a conflitos que podem remontar a mil anos atr??s.

 

Segundo Asseily, a história tem uma grande import??ncia, porque nos permite conhecer as nossas ra??zes e guardar as nossas viv??ncias. O papel dos antepassados ?? vital para muitas culturas não ocidentais, pois d?? ??s pessoas o sentido da honra, da ajuda aos outros e do esfor??o em favor do grupo ou da comunidade. Mas, como deixar uma marca positiva e quebrar o ciclo de violência que geram as próprias experiências, para transmitir uma vis??o construtiva ?? gera????o vindoura? Asseily conclui: trabalhando para que o passado nos informe, mas não nos controle nem condicione.


Atrever-se a mudar

 

Para Alexandra Asseily, quebrar o ciclo de violência exige um trabalho com cada comunidade. Trata-se, em primeiro lugar, de assumir a responsabilidade - activa ou passiva - que se teve em propagar um conflito, abstendo-se de actuar de maneira irreflectida, e inclusivamente ter a valentia de ir contra-corrente face ??s ideias violentas do grupo em que estamos inseridos.

 

Em segundo lugar, temos de nos atrever a mudar preconceitos e lugares-comuns, para alterar as atitudes das pessoas e, dessa maneira, fazer com que cada gera????o chegue ??s suas próprias conclus??es em face das actua????es do grupo. Isto surge em momentos de paz e de reflex??o, de autocr??tica e valentia, ou em momentos de doença, de acidentes ou de inesperadas cr??ticas dos outros. Mas ser conscientes da necessidade da mudança não sup??e necessariamente aderir a ela. A educa????o te??rica por si s?? não produz rejei????o da violência.

 

?? necessário perdoar, em primeiro lugar para cada um poder viver livre do ??dio que lhe condiciona as ac????es

 

Tamb??m h?? que perdoar ??queles que em alguma ocasi??o foram nossos inimigos, aos que nos feriram, ofenderam e humilharam. ?? f??cil de dizer, reconhecia Asseily na sua disserta????o, perante um público que reagiu de imediato a este ponto, e ?? mais complicado pratic??-lo; mas é preciso pratic??-lo, para cada um de n??s poder viver livre do ??dio que condiciona as nossas ac????es e a vida das pessoas que nos rodeiam: a família, os colegas e a comunidade.


A cultura do medo ao outro

 

Asseily faz uma s??rie de sugest??es dirigidas a pais de família, professores e directores de instituições educativas, para criar coes??o social no pa??s e desse modo quebrar os ciclos de violência impostos pelos grupos.

 

A cultura do medo ao outro vai-se transmitindo de gera????o em gera????o, come??ando pelo próprio lar, atrav??s de uma educa????o baseada em frases autorit??rias, que minam a confian??a da pessoa nas suas capacidades. Por exemplo, dizia ela, perante uma pessoa agressiva e severa, uma criança tenta apazigu??-la atrav??s de uma conduta "correcta", mas fica ressentida e, quando puder, a sua violência vir?? ao de cima nas circunst??ncias menos adequadas.

 

Para Alexandra, ?? importante que a pessoa que educa esteja consciente dos seus próprios erros, e que em primeiro lugar se perdoe a si mesma. ??s vezes, dizia, h?? a tendência de exigir aos filhos ou alunos o que não se p??de fazer ou viver pessoalmente. Todos devemos estar atentos a fazer este exercício interior de não julgar, de trabalhar sobre as nossas próprias experiências para podermos agir com amabilidade de forma continuada.

 

Finalizou citando uma história africana: Um velho chefe de tribo estava sentado ?? fogueira com os netos, a contar-lhes histórias. A certa altura, disse-lhes com seriedade: "Trava-se no meu cora????o uma batalha entre dois le??es. Um ?? o medo, a desconfian??a, a agress??o, o isolamento, o ego??smo, a inveja e a guerra; o outro ?? a coragem, a lealdade, a amizade, a verdade, a generosidade, a solidariedade e a paz. ?? uma batalha dura, acrescentou, e desenrola-se no cora????o de cada um de n??s. As crianças observavam-no em silêncio, até que uma perguntou: Que le??o ?? que ganha? Ao que o chefe respondeu: 0 que tu alimentares.

 

Helene Daboin, em Beirute

Notas

 

(1) "How to create a sense of safety for teachers and students to allow social cohesion in place of a culture of fear?". Alexandra Asseily, The Center for Lebanese studies, annual conference, American University of Beirut.