Ortodoxia
??A ??nica desculpa possível para a exist??ncia deste livro ?? o facto de se tratar de uma resposta a um desafio.?? Com efeito, ??s cr??ticas que Chesterton fez a vários pensadores no seu livro Heretics, um deles objectou: ???come??arei a preocupar-me com a minha filosofia quando o Sr. Chesterton nos tiver apresentado a dele.' ??Foi talvez incauto - reconhece Chesterton - fazer semelhante sugestão a uma pessoa que não hesita em escrever um livro ?? mais pequena provoca????o.??
A resposta da "Ortodoxia", escrita h?? precisamente cem anos, procura "apresentar - de um modo vago e pessoal, mais por meio de uma sucess??o de imagens mentais, do que de uma sequência de dedu????es - a filosofia a que aderi."
??, portanto, o relato de uma aventura intelectual, que parte das suas "especula????es solit??rias e sinceras". Qualquer leitor poder?? rever-se nalgumas das suas intui????es, e talvez fique admirado por ser conduzido até realidades profundamente humanas pela m??o t??o graciosa e, por vezes, surpreendente, de Chesterton. As p??ginas de "Ortodoxia" são curtas para tanta ideia e tanto humor. ?? possível l??-las tr??s, quatro e cinco vezes e continuar a ter surpresas.
Mas mais que o sumo de pensamento, o que melhor se descobre ?? medida que se avan??a ?? a personalidade do autor. ?? um perfil de uma transpar??ncia luminosa: um humor refinado, a intelig??ncia aguda e insaci??vel, a estima pelos opositores, a cultura vasta, e um optimismo nada ing??nuo, tornam-se crescentemente presentes.
Dale Ahlquist, presidente da "American Chesterton Society", considera que Chesterton abordou todas as ideologias do s??culo XX: o materialismo, o determinismo cient??fico, o darwinismo filos??fico, relativismo moral e o agnosticismo. Combateu tanto o socialismo como o capitalismo, ambos inimigos da liberdade e da justi??a na sociedade moderna. ??Mas a que coisas ele era favorável? O que defendia? - pergunta Ahlquist. - Defendia o homem comum e o bom senso.??
Chesterton escreve a "Ortodoxia" quando tem 34 anos, de uma vida j?? muito cheia, e continuar?? a escrever abundantemente até ?? sua morte, aos 62 anos. Aprendeu a ler aos 8 anos e foi um aluno distra??do. Não frequentou a universidade. Estudou na Escola de Artes. Ateu aos 12 anos e agn??stico aos 16, retornou para a Igreja Anglicana depois de casar com Frances Blogg, em 1901. Aos 48 anos converteu-se ao catolicismo.
Os dados que os seus bi??grafos fornecem impressionam. Desde que em 1900 publica os primeiros textos numa revista de arte, Chesterton: escreveu perto de cem livros, centenas de poemas, cinco pe??as de teatro, cinco romances e cerca de duzentos contos (incluindo a s??rie de contos policiais do Padre Brown, o padre detective). Chesterton escreveu em vários jornais (e chegou a ser director) conhecendo-se perto de 4.000 artigos. A si mesmo definia-se como jornalista.
Chesterton era um polemista, apaixonado pelo debate de ideias. Participou em diversos debates públicos, divertindo as audi??ncias como s?? ele era capaz. As suas interven????es eram particularmente notadas, e não s?? por medir mais de dois metros e pesar mais de cento e quarenta quilos. Discutiu com George Bernard Shaw, H.G. Wells, Bertrand Russell, Clarence Darrow, e outros pensadores contempor??neos. No final da sua vida, parte desses debates foram radiodifundidos. Se vivesse, Chesterton seria hoje, ao mesmo tempo, escritor, conferencista, bloguer, comentador televisivo, e talvez actor (de facto chegou a participar num dos primeiros "westerns" mudos).
Chesterton influenciou muitas pessoas. Ahlquist informa que o seu romance "O Napole??o de Nothing Hill" inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independ??ncia da Irlanda, e que um artigo que escreveu no "Illustrated London News" motivaria Mahtma Gandhi a liderar o movimento que p??s fim ao domínio colonial ingl??s na ??ndia.
A for??a do pensamento de Chesterton parece não diminuir com o passar do tempo. Tem respostas para os problemas de hoje, escreve como se vivesse entre n??s. A?? reside o valor de "Ortodoxia". Um valor que ?? muito enriquecido pela nova tradu????o para portugu??s feita nesta edi????o - muito melhorada face ?? anterior tradu????o de 1956.
Sinal do interesse crescente por Chesterton ?? que desde 2002, e s?? Espanha, se editaram 50 títulos. Em Portugal nos últimos cinquenta anos apenas foram traduzidos quinze livros (oito deles da s??rie de contos do P. Brown). Talvez esta nova edi????o de uma das principais obras de Chesterton (ao lado de "Heretics" e de "The Everlasting Man") desperte o mundo editorial portugu??s.

