Porque Ler Os Cl??ssicos
Na introdução a um dos seus romances mais representativos, Se uma noite de inverno um viajante, Calvino fala dos diversos tipos de livros que chamam a aten????o a um ass??duo leitor quando entra numa livraria. Entre outros, ??Os livros lidos h?? tanto tempo que seria hora de rel??-los?? e os ??Livros que fingiste sempre ter lido quando j?? seria tempo de te decidires a l??-los de verdade??. Nestas categorias encontram-se, em regra, os clássicos.
Para os leitores de todos os tempos
Historicamente, a palavra latina classicus designava o cidad??o que, pelos seus bens de fortuna, ocupava o escal??o superior das cinco classes em que estava dividida a popula????o romana, para efeitos de contribui????o militar. Pouco a pouco, este conceito far?? refer??ncia também ?? ideia de excel??ncia e prest??gio. Por extens??o, classicus scriptor designava, na escola, o autor que sobressa??a pela beleza e correc????o. E j?? na Idade M??dia, escritor clássico era mestre e modelo para os que se dedicavam a escrever.
??s vezes, d??-se ?? palavra um sentido literal, para designar somente os autores e obras da literatura grega e latina que se destacaram pela sua agudeza em relatar os sentimentos e paix??es dos homens.
Hoje em dia, o conceito de clássico tem um significado mais amplo, pois pode ser clássica uma cria????o que suscept??vel de ser actualizada por leitores de muito diferentes mentalidades. Para Pedro Salinas, grande humanista, "os clássicos são escolhidos por sufr??gio impl??cito das gerações e dos s??culos, tribunais que ningu??m nomeia nem a ningu??m obrigam, mas cuja autoridade, em verdade, por vir de t??o longe e t??o de cima, acata-se gostosamente".
Analisando a traject??ria de Italo Calvino, compreende-se que se p??de construir um livro p??stumo com as suas ideias sobre a literatura. O primeiro capítulo est?? dedicado a responder ?? questão que d?? título ?? obra, chave para poder entender os capítulos seguintes, que falam das suas preferências literárias, os seus clássicos. Catorze defini????es de clássico faz Calvino; cada uma ?? a s??ntese de uma linha de reflex??o (ver p??g.4).
Calvino prop??e a releitura dos clássicos como exercício constante, não circunscrito a idades ou estados de ??nimo. Podem ser lidos na juventude, mas também na maturidade, talvez quando se est?? " nas melhores condições para sabore??-los". Na juventude? Sim e n??o. Em teoria, a melhor atitude ser?? ir preparando o caminho para que esta leitura seja mais proveitosa. Mas também não acontece nada se se entra logo em contacto com os clássicos, pois, mais adiante na vida, sabore??-los-?? melhor, j?? que cada leitura ?? inovadora.
Os efeitos de resson??ncia
Para Calvino, s?? durante o per??odo escolar pode "impor-se", com m??todos imaginativos, a leitura dos clássicos. Estas primeiras leituras servir??o como trampolim para que cada leitor, mais adiante, descubra desinteressadamente os "seus" autores e leituras favoritas, sabendo que "as escolhas que contam são as que ocorrem fora ou depois de qualquer escola". Porque os clássicos atraem quando, entre eles e o leitor, se estabelece uma relação pessoal baseada no amor, e não no dever ou respeito. Por esse motivo afasta as cr??ticas excessivas que normalmente rodeiam as obras clássicas, convertendo a sua leitura numa interminível selva de pr??logos, introdu????es, notas de p?? de p??gina, ep??logos, descobertas biogr??ficas... Calvino conclui que o clássico sacode de si todo este aparato cr??tica, o mais das vezes desnecessário, e que dificulta o encontro erudito com o original, que ?? o que conv??m ler.
Para o escritor italiano, o que mais sobressai de um clássico ?? o seu "efeito de resson??ncia". Da?? que Italo Calvino não considere como clássicos s?? os livros da antiguidade, mas sim qualquer obra com uma clara tendência ?? universalidade, ainda que esteja escrita para uns leitores concretos de um determinado pa??s. D. Quixote ?? um dos muitos livros que re??ne estas caracter??sticas: para al??m das intenções particulares, a mensagem de D. Quixote não se limita aos leitores espanh??is do s??culo XVII, porque continua a ser universal, vigente, actual (e s??-lo-?? também para futuros leitores). Pusemos um exemplo t??pico, indiscut??vel, mas o mesmo poder??amos dizer de romances contempor??neos que souberam acertar no "seu efeito de resson??ncia" (O Senhor dos An??is ?? um bom exemplo). Portanto, não ?? essencial a antiguidade, nem sequer o emprego de um estilo classicista, nem a suposta autoridade moral.
Passado e presente
A decisão de ler os clássicos não significa uma atitude de ref??gio id??lico no passado. Os clássicos devem ser abordados e contextualizados de forma actual, em face do presente. Calvino recomenda alternar a leitura de clássicos, com a "s??bia dosagem" de livros actuais que, muitas vezes, - logicamente - ?? imprescind??vel ler. Um erro estendido ?? hora de julgar os clássicos ?? pensar que não resolvem as dúvidas da cultura do nosso tempo. ?? falso! Os clássicos não são nem de ontem nem de hoje: são perenes, j?? que, entre todos, foram formando uma cultura profunda que tem como nota distintiva contender com os valores humanos.
Em qualquer caso, Calvino quer deixar bem claro que o que define um clássico não ?? a sua utilidade. E conclui com uma acertada cita????o de Cioran: ??Enquanto lhe preparavam a cicuta, S??crates aprendia uma ??ria para a flauta. "De que te vai servir?", perguntaram-lhe:"Para a saber antes de morrer."??.
A biblioteca de Calvino
O conteúdo deste primeiro artigo, que d?? título ao livro, explica a selec????o dos autores e obras que constituem os clássicos pessoais de Calvino. Esta selec????o ??, também, uma declaração de princ??pios, influências e fontes. Não estranha, por isso, a inclus??o de capítulos dedicados a autores t??o d??spares como Ariosto, Borges, Joseph Conrad ou Raymond Queneau. As opini??es sobre a influência de Borges na literatura ocidental e italiana são particularmente interessantes, pois Calvino destaca com especial agudeza o "escrever breve" como um dos valores fundamentais da narrativa borgiana: ??Lendo Borges tive várias vezes a tenta????o de formular uma poética sobre o escrever menos, elogiando a sua vantagem sobre o escrever muito, contrapondo as duas ordens mentais que a inclina????o para um e para o outro pressup??e, por motivo de temperamento, da ideia da forma e da subst??ncia dos conteúdos??.
O capítulo dedicado a Conrad demonstra a habilidade de Calvino para captar a ess??ncia dos seus autores preferidos: ??Creio que temos sido muitos os que nos aproximamos a Conrad, impulsionados por um reincidente amor aos escritores de aventuras, mas não s?? de aventuras: ??queles a quem a aventura ?? utilizada para dizer coisas novas aos homens, e a quem as vicissitudes e os pa??ses extraordin??rios lhes servem para dar mais evid??ncia ?? sua relação com o mundo??.
Da antiguidade clássica
Da antiguidade clássica, destacam-se os artigos dedicados ?? Odisseia, a mitologia em Ov??dio, a tradi????o literária persa, a An??basis de Xenofonte e a Hist??ria Natural de Pl??nio, o Velho. Assim come??a o capítulo dedicado a Xenofonte: ??A impress??o mais forte que produz Xenofonte ao l??-lo, hoje em dia, ?? a de estar a ver um velho document??rio de guerra, como se projectam, de vez em quando, no cinema ou na televis??o??. Da leitura de Pl??nio, "o coleccionista neur??tico", chama a aten????o sobre as refer??ncias a factos extraordin??rios, como os misteriosos seres que habitam nas regi??es lim??trofes do mundo, os "arismapis", "t??bios" ou os "astomios": seres "sem boca, que vivem cheirando perfumes".
O preferido de Calvino ?? o poema de Ariosto, Orlando Furioso, ao qual dedica dois capítulos. Num, analisa a sua estrutura, no outro, realiza uma pequena antologia de oitavas que pretende ser uma homenagem ao seu poeta mais elogiado. E de Ov??dio, o autor das Metamorfoses, destaca o seu interesse para fazer-nos vis??vel o mundo dos deuses, ??aproximando-o tanto que o torna id??ntico ?? Roma de todos os dias, no que concerne ao urbanismo, ??s divis??es em classes sociais e aos costumes??.
Cl??ssicos mais recentes
Noutros artigos, Calvino selecciona o livro favorito de um autor que, muitas vezes, não ?? o mais nomeado. Por exemplo, de Cyrano destaca O outro mundo, I. Os estados e imp??rios da Lua; de Dickens, Nosso comum amigo (??os come??os dos romances de Dickens costumam ser memor??veis, mas nenhum supera o primeiro capítulo deste, pen??ltimo romance que escreveu, último que terminou??); de Mark Twain, O homem que corrompeu Hadley; de Henry James, Daisy Miller, e de Robert L. Stevenson, O pavilh??o das dunas.
Outros capítulos estão dedicados ao conceito de amor nas novelas de Stendhal, a estrutura invis??vel dos contos de Tolstoi, a transcend??ncia de Defoe (??por este empenho e prazer em referir as técnicas de Robinson, Defoe chegou até n??s como poeta da paciente luta do homem com a mat??ria, da humildade, da dificuldade, da grandeza do fazer e da alegria de ver nascer as coisas das nossas m??os??), a cidade-novela em Balzac, Pasternak e a revolução, as diversas leituras da obra de Hemingway, a filosofia de Raymond Queneau, e Pavese ??e os sacrif??cios humanos??.
Estas reflex??es são baseadas na experiência de leitura de Calvino e não como se fosse um perito em teoria da literatura. Da?? que o tom dos ensaios seja de admira????o, respeito e amor por seus autores favoritos, sem se deixar levar por uma linguagem erudita ou técnica, próprio de um livro para especialistas.
Por que ler os clássicos ??, assim, um sugestivo convite a que acudamos ??s fontes, a que cada um v?? formando com leituras constantes os seus próprios clássicos pessoais.
Adolfo Torrecilla
Os clássicos em catorze defini????es
Estas são as catorze defini????es de clássicos, segundo Italo Calvino:
1. Os clássicos são esses livros dos quais se costuma dizer ??estou a reler??, e nunca ??estou a ler??.
2. Chamam-se clássicos aos livros que constituem uma riqueza para quem os leu e amou, mas que também constituem uma riqueza não menos desprez??vel, para quem tem a sorte de l??-los pela primeira vez nas melhores condições de os saborear.
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular seja quando se imp??em por inesquec??veis, seja quando se escondem nas pregas da mem??ria diluindo-se no inconsciente colectivo ou individual.
4. Toda a releitura de um clássico ?? uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda a leitura de um clássico ?? na realidade uma releitura.
6. Um clássico ?? um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer.
7. Os clássicos são esses livros que nos chegam trazendo impressa a marca das leituras que precederam a nossa, a marca que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente, na linguagem ou nos costumes).
8. Um clássico ?? uma obra que suscita a incessante produção de discursos cr??ticos, das quais a obra se liberta continuamente.
9. Os clássicos são livros que quanto mais se acredita conhec??-los, de ouvi-los, tanto mais novos, inesperados e in??ditos resulta l??-los, efectivamente.
10. Chama-se clássico a um livro que ?? compar??vel ao universo, ?? semelhança dos antigos talism??s.
11. O teu clássico ?? aquele que não te pode ser indiferente, ?? aquele que serve para te definir em relação a ti mesmo, talvez em oposi????o com ele.
12. Um clássico ?? um livro que fica antes de outros clássicos; mas quem tiver lido, primeiro os outros e depois esse, reconhece imediatamente o seu lugar na genealogia.
13. ?? clássico o que tende a relegar a actualidade ?? categoria de ru??do de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ru??do de fundo.
14. ?? clássico o que persiste como ru??do de fundo memo onde a actualidade mais incompat??vel se imp??e.
* A obra de Italo Calvino, Porque ler Os Cl??ssicos, foi editada em l??ngua portuguesa pela Teorema e pela Companhia das Letras.

