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Criar um mundo sem pobreza

 Ensaio
Vers un monde sans pauvret??
Criar um mundo sem pobreza

Em 1976, um jovem professor de Economia empresta 27 dólares a 42 famílias da aldeia de Jobra. Impressionado com a terr??vel fome por que passa o Bangladesh, e decepcionado com teorias económicas que não fornecem solu????es, Muhammad Yunus aproxima-se da simples microeconomia de pessoas que trabalham para sobreviver e quase não conseguem evoluir. E descobre que "apenas" são necessários 22 c??ntimos, o preço do bamb?? necessário para construir um banquinho, uma quantidade m??nima que nenhum banco teria a ideia de emprestar a um pobre; um montante que s?? os usur??rios adiantam com juros exorbitantes perto dos 10% por semana, aprisionando os devedores numa situação de semi-escravatura. Assim come??a uma das mais apaixonantes histórias, ainda não conclu??da, de luta contra a pobreza: o Grameen Bank, que desde a sua funda????o canalizou 2.300 milhões de dólares em créditos a 2,3 milhões de famílias. E mais: porque juntamente com o chamado "banco dos pobres???, o microcrédito, nas suas diversas formas configura-se hoje como uma das ferramentas de coopera????o para o desenvolvimento mais acreditadas.

 

Criar um mundo sem pobreza ?? a história do Grameen Bank, mas sobretudo a de pessoas com nomes e apelidos. ?? a história do próprio Yunus e a de muitas mulheres que constituem não s?? 94% dos benefici??rios do banco, como também grande parte dos "funcion??rios" da institui????o, a quem se exige um trabalho no terreno, muito longe das burocracias e teorias.

 

Paralelamente a estes pequenos relatos, decorrem outras narra????es sobre as diversas mudanças que, tanto no Bangladesh como internacionalmente, o trabalho de Yunus, dos seus colaboradores e de muitos outros est?? a promover. A primeira, a mais importante, a que ?? mais evidente e ao mesmo tempo mais oculta, ?? a confian??a no homem e na mulher, nas suas capacidades, na sua criatividade e engenho. Algo em que muitos estão de acordo, mas que fica nublado tanto pelas diversas posi????es ideológicas como pela pr??tica. No caso do trabalho do Grameen Bank, esta questão tem seguido o seguinte princ??pio: os pobres não precisam de esmolas, mas sim de viver do seu trabalho; para isso, h?? que facilitar-lhes um crédito estabelecido com base na confian??a nas suas capacidades (poder??o devolv??-lo com o seu trabalho); o que configura o crédito como um direito. Neste sentido, Yunus apresenta-se como partidário do auto-emprego, do apoio ?? economia informal e bastante céptico relativamente aos programas de formação prévios ao crédito.

 

No mesmo ??mbito das grandes altera????es permitidas pelo trabalho do Grameen Bank est?? o protagonismo da mulher enquanto agente do desenvolvimento. Não se trata de uma questão ideológica ou de quotas: o trabalho do banco centrou-se nelas, porque ningu??m lhes emprestava dinheiro e sofriam mais acentuadamente a pobreza. A experiência foi demonstrando que os créditos eram melhor geridos nas suas m??os, revertiam em favor das crianças e eram escrupulosamente devolvidos. Trabalhar para as mulheres num pa??s em que a purdah as mant??m enclausuradas, continua a ser um verdadeiro desafio e uma revolução não isenta de cr??ticas. O livro ?? pr??digo em epis??dios interessantes a este respeito.

 

Criar um mundo sem pobreza ??, em última inst??ncia, um livro vital e apaixonado, mas não na??f. O microcrédito, como o próprio autor conclui, não ?? uma panaceia; a pobreza ?? t??o extensa e por vezes t??o complexa que clama por milhares de outras iniciativas. O próprio Grameen Bank tem incentivado outras experiências n??o-banc??rias. Logo desde a cita????o inicial do livro - "O que falta para que o mal triunfe ?? que os homens bons não fa??am nada??? - até ao fim, a história de Muhammad Yunus sugere que ?? possível reduzir a pobreza sem recorrer ao paternalismo, ao extremismo nem a dispendiosas e ineficazes burocracias.