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The Narcissism Epidemic. Living in the Age of Entitlement

 Ensaio
The Narcissism Epidemic. Living in the Age of Entitlement

The Narcissism Epidemic. Living in the Age of Entitlement(1) ?? o mais recente livro de Jean M. Twenge (conhecida pelo ??xito de vendas Generation Me), que aborda o ego??smo actual em conjunto com W. Keith Campbell, também de nacionalidade norte-americana e especialista no tema. Ambos os autores sabem que nadam contra-corrente e que, num mundo t??o competitivo como o actual, a exalta????o narcisista se apresenta como uma virtude, disfar??ada de auto-estima. No entanto, dizem, não devem confundir-se os termos: as pessoas com uma s?? auto-estima t??m uma boa opinião de si próprias, mas conservam o sentido da ética e do amor pelos outros. O menosprezo destes valores face ?? excessiva admira????o pelas qualidades pessoais não s?? cria um verdadeiro narcisista, como também o condena a relações sociais - no trabalho, com os amigos, com o seu parceiro - inevitavelmente problem??ticas.


Famosos sem precisar de m??rito

 

Segundo os estudiosos norte-americanos, a "gest??o" da própria imagem ?? a preocupa????o fundamental da cultura narcisista, que conta hoje em dia com recursos que nos pareceriam rid??culos se a ??nsia de protagonismo não parecesse justificar tudo. Assim, por exemplo, cidad??os sedentos de fama podem contratar os serviços da companhia Celeb 4 A Day, tendo assim ao seu dispor um s??quito de "paparazzi pessoais" que os perseguem e fotografam avidamente pela rua durante quase todo o dia. Pelo m??dico preço de 3.000 dólares, a empresa oferece um "pack" de seis paparazzi, um publicista uma limusina, um guarda-costas e uma falsa capa de revista com a cara do cliente.

 

"At?? parece que ser famoso se converteu num direito", explica Joshua Gamson, professor de sociologia na Universidade de S??o Francisco. "Não ??s ningu??m se as pessoas não quiserem saber quem ??s".

 

O livro também examina a relação entre estas fatuidades narcisistas e um report??rio cada vez mais multi-medi??tico de condutas anti-sociais em crianças e adolescentes. Actos de vandalismo divulgados no YouTube, grosserias e insultos de todo o tipo difundidos atrav??s de redes sociais, v??o estabelecendo um v??nculo preocupante entre anti-valores e exibicionismo dirigido a captar a aten????o das massas. Twenge e Campbell também não hesitam em atribuir aos meios de comunicação social (desde a Internet aos canais televisivos) a responsabilidade por esta cultura capaz de converter o delito numa coisa sensacional. A exemplaridade do castigo perde-se quando certos factos puníveis se transformam em espect??culo; com efeito, a mensagem inverte-se e o que devia ser reprovado acaba por ser promovido.

 

Em Espanha, a imprensa divulgou recentemente que o assassino confesso da jovem Marta del Castillo recebeu algumas cartas de "seguidores", deslumbrados pelo tratamento que alguns meios de comunicação social lhe conferiram, bem como a outros implicados no caso, transformando-o em protagonista de uma s??rie para adolescentes.

 

Twenge e Campbell defendem mesmo o refor??o de "uma cultura que estimule e até mesmo premeie a honra e a integridade". Para isso, os c??digos ??ticos que alguns centros educativos assumem como tradi????o arraigada e irrenunci??vel podem ser da m??xima utilidade. Tamb??m prop??em uma educa????o nos valores, que assente sobre virtudes como a honestidade, a disciplina, a responsabilidade e o sentido da justi??a, sem necessidade de insistir tanto na ret??rica do I am special.

 

Obst??culo para as relações pessoais

 

Por outro lado, os autores de The Narcissism Epidemic afirmam que a adora????o de si mesmo costuma ter um efeito avassalador nas relações pessoais. Centrados no seu próprio bem-estar, os narcisistas convertem essas relações naquilo a que eles chamam um "bem descart??vel": algo meramente definido pela sua utilidade pr??tica e que, portanto, se pode trocar ou substituir.

 

O discurso dos pais quanto ??s prioridades dos filhos deveria, segundo os sociólogos norte-americanos, tratar com cuidado este assunto. "Sem se darem conta, alguns pais incutiram nos filhos uma atitude narcisista, ensinando-lhes que os ??xitos pessoais devem sempre vir primeiro e que ???o amor pode esperar'". Este princ??pio "n??o significa, pelo menos na cultura actual, que esperem para iniciar a sua vida sexual. Ir??o inici??-la, mas fora de qualquer relação e despojada de qualquer componente emocional". A frivolidade dos "amigos com direito ao sexo" e das "liga????es" sem qualquer compromisso est?? de facto muito de acordo com a personalidade narcisista.

 

Segundo os autores do livro, o excesso narcisista sempre encontrou um freio nos princ??pios cristãos. Mas a tendência, crescente nos Estados Unidos para as pessoas aderirem ??s "marcas brancas" dos credos tradicionais (cfr. Aceprensa 25-03-09) reflecte o desejo de fabricar religi??es ?? medida de cada um, sem demasiado compromisso com os princ??pios defendidos por esses credos nem com as virtudes deles derivadas. Por exemplo, Twenge e Campbell defendem que a capacidade de perdoar não ?? precisamente o ponto forte dos narcisistas, que também se não mostram dispostos a assumir os problemas e dificuldades da vida como acatamento da vontade de Deus.

 

Narcisismo e crise económica

 

O cart??o de crédito usado para tudo e o costume dos empr??stimos f??ceis estimularam nos Estados Unidos um desejo geral de vida folgada, assumindo o luxo como condi????o quase inerente ?? vida. O costume de dar aos filhos uma extens??o do cart??o de crédito quando ainda andavam na escola configurou a mentalidade da gera????o nascida depois de 1980, afirmam Twenge e Campbell, e convenceu essa gera????o de que era rica sem o ser. A tal ponto que por vezes não basta uma realidade económica adversa para lhes roubar essa ilus??o.

 

Por outro lado, o livro revela que os residentes de bairros pobres mostram ainda mais disposição para o disp??ndio e o consumismo do que algumas pessoas que se podem permitir esses luxos. "Se a prosperidade no geral diminui no pa??s, os americanos podem ter ainda mais interesse em demonstrar o seu status atrav??s do consumo", explica o texto. "Se as pessoas fossem inteiramente razo??veis, deixariam de gastar dinheiro em bagatelas e economizariam para o futuro", continuam os autores.

 

Xavier Reys Matheus

 

NOTAS

 

(1) Jean M. Twenge and W. Keith Campbell, The Narcissism Epidemic. Living in the Age of Entitlement, New York, Free Press, 2009, 339 p??gs.