A igualdade sexual na era p??s-feminista
A ci??ncia das diferenças de g??nero ?? uma bolsa cheia de surpresas. Existe a cren??a geral de que os homens são o sexo forte e de que continuam a beneficiar de vantagens hist??ricas e culturais. Todavia, uma an??lise mais precisa revela que são vulner??veis a toda uma s??rie de percalços biológicos e psicológicos. Como vimos, os homens v??em-se cercados por todo o tipo de problemas de aprendizagem e de comportamento. Simultaneamente, ao sentirem-se mais atra??dos pelo risco e pelas proezas ??picas, alguns rapazes e homens alcan??am um sucesso espectacular, enquanto que, infelizmente, outros contribuem para que as taxas de acidentes e de suic??dios masculinos sejam mais elevadas.
As empresas seguradoras conhecem muito bem estes números, pelo que cobram prémios mais elevados aos jovens do sexo masculino pelos seguros de autom??vel, ao mesmo tempo que os psicólogos, como eu, também estamos ?? espera de ver mais nomes masculinos nas agendas. Dadas estas observa????es da vida real, o surpreendente ?? que a ideia das diferenças de g??nero continue a provocar tanta controvérsia.
Assimetrias de g??nero no trabalho
Em vez de serem evid??ncias de preconceitos ocultos, algumas assimetrias de g??nero no ??mbito laboral são indícios de uma sociedade livre na qual as pessoas podem tomar as suas próprias decisões
Um dos motivos que explicam isto ?? que, depois de termos quase ignorado a biologia durante quarenta anos, acab??mos numa posi????o estranha e inc??moda, em que as mulheres receiam confessar o que desejam e os homens, apesar das suas fraquezas, continuam a considerar-se o modelo que deve ser seguido. ??Venderam-nos a moto??, disse uma advogada empresarial que deixou o seu trabalho ap??s vinte anos a trabalhar durante longas e duras jornadas de trabalho. O catalizador foi um filho fr??gil que necessitava de ajuda e de apoio, mas também poderia ter-se tratado de uma crise existencial ou da sua própria sa??de.
O seu desejo de adaptar a vida laboral para que encaixasse com as restantes prioridades reflecte-se na investiga????o que vimos neste livro e que demonstra que cerca de 60% de mulheres talentosas recusam promo????es ou aceitam trabalhos com sal??rios mais baixos em troca da introdução de flexibilidade ou de objectivos sociais no seu trabalho.
A enorme ??nfase que se faz para atrair as mulheres ??s ci??ncias, serve somente para aumentar o cachet dos sectores que mais atraem os homens
As tendências baseadas na estat??stica nunca falam de pessoas individuais. No entanto, explicam-nos, em parte, porque os hombres e as mulheres são atra??dos, muitas vezes, por trabalhos diferentes, e porque, depois de quatro décadas a tentar eliminar as diferenças de g??nero, ainda existem discrep??ncias laborais.
Esta situação pode tornar-se desencorajadora para as pessoas que esperavam que, nesta altura, todos os tipos de trabalho estivessem repartidos pelos dois g??neros a 50%. Outras, não estão de modo algum perturbadas, porque pensam que, de qualquer forma, nada h?? a fazer a esse respeito. Estou convencida de que ambas as posi????es são erradas. Em vez de serem evid??ncias de preconceitos ocultos, algumas assimetrias de g??nero no ??mbito laboral são indícios de uma sociedade livre e educada na qual as pessoas podem tomar as suas próprias decisões.
Dados que contradizem preconceitos
(...) Na minha opinião, a ideia de que as mulheres devem imitar os homens era mais relevante quando se tratava de um modo de conseguir ter acesso a recursos e a oportunidades que até ent??o estavam fora do seu alcance. No entanto, agora que as raparigas e as mulheres obt??m t??o bons resultados acad??micos e que os direitos das mulheres estão protegidos, pelo menos na Europa e na Am??rica do Norte, dever??amos poder analisar as diferenças de g??nero de forma mais desapaixonada e, inclusivamente, de modo optimista.
Ser menos extremistas também tem vantagens. As mulheres t??m mais sa??de que os homens e t??m maior longevidade. E a tendência das mulheres para criar empatia e estabelecer la??os com os outros, oferece benef??cios cognitivos, al??m dos da sa??de. (...) A maioria das mulheres de quem falei, tinham capacidades equilibradas (eram boas ??sistematizadoras?? e boas ??criadoras de empatia??), mas eram encorajadas e pressionadas a concentrarem-se em habilidades matem??ticas, cient??ficas ou empresariais, em detrimento dos seus outros interesses e capacidades; estes conselhos, ao fim e ao cabo, foram um tiro pela culata para muitas delas. Tudo o que estava associado ao modelo masculino de sucesso parecia ter mais m??rito. No entanto, ?? medida que se acumulam provas cient??ficas que demonstram que a empatia, o altruismo ou as habilidades verbais precoces t??m benef??cios associados, estes atributos passaram a ser considerados igualmente valiosos.
Os economistas que avaliam a satisfa????o laboral, conclu??ram que as mulheres estão mais satisfeitas com as suas vidas laborais que os homens. Os investigadores parecem ter ficado perplexos com a descoberta, especialmente porque existem estudos recentes que demonstram que a satisfa????o laboral das mulheres baixa ?? medida que as exigências e as jornadas laborais se v??o parecendo cada vez mais com o modelo masculino. Se as ambi????es de homens e mulheres fossem id??nticas, a satisfa????o laboral destas últimas deveria aumentar ao mesmo tempo que o seu prest??gio. Os economistas chamam-lhe o paradoxo do g??nero, porque parece ser algo de contra-intuitivo: os dados não confirmam as expectativas.
A paridade ?? sovi??tica
Talvez possamos entender parte de tudo isso se mudarmos de perspectiva. (...) Se a maioria das mulheres prefere carreiras altru??stas ou de transformação para competir pelo maior sal??rio possível, o modelo de homem extremo não se rev?? nisso. Torn??-las-?? tristes ou alheadas, como aconteceu a muitas das mulheres que apareceram nestas p??ginas. O facto de terem a possibilidade de melhorar a situação mudando de trabalho, para poderem integrar todos os seus interesses e o desejo de comunicarem com as pessoas ou de marcarem uma diferença, ?? um dos benef??cios de viver numa democracia ocidental p??s-feminista. (...)
As mulheres que agora t??m alternativas, devem agradec??-lo ao liberalismo e ao feminismo modernos. O facto de escolherem trabalhar menos horas, ou em trabalhos que lhes d??o maior satisfa????o, mesmo pagas com sal??rios menores, não significa que sejam vítimas da discrimina????o de g??nero, apesar de essas escolhas terem contribu??do para fazer aumentar as diferenças salariais. Pensemos na alternativa. (...) Catherine Hakim explica que em muito raras ocasi??es, nega-se ??s mulheres o acesso a trabalhos produtivos em pa??ses em vias de desenvolvimento (normalmente costumam fazer a maior parte do mesmo). (...)
No sistema sovi??tico, a engenharia era uma categoria ampla que aludia a quase qualquer tipo de trabalho cient??fico, tecnológico e administrativo, e uma pessoa convertia-se em engenheiro se o comit?? central decidisse que eram necessários mais engenheiros. Os objectivos industriais e militares determinavam o número de lugares universit??rios e havia t??o poucos em cursos de letras e de humanidades, que para poder fazer os exames de acesso a esses estudos, eram necessários muitos contactos e bastante dinheiro para pagar anos de educa????o privada.
Uma jovem russa disse-me que os seus pais e os seus av??s tinham sido engenheiros (tal como todos os adultos que tinha conhecido) porque, fossem homens ou mulheres, as op????es laborais limitavam-se ?? engenharia. A sua m??e formou-se e trabalhou como engenheira, embora aquilo que a apaixonava fosse o estudo e o ensino da qu??mica. A sua tia estudou engenharia, mas o que queria realmente era estudar literatura russa. O Estado alcan??ou praticamente a paridade de g??nero nas ci??ncias f??sicas e em engenharia, mas anulou a liberdade de escolha. Portanto, pode ser que pare??a que uma sociedade que consegue alcançar uma divis??o de g??nero laboral de 50% num determinado ??mbito concreto tenha erradicado a discrimina????o. Todavia, se se olhar mais de perto, talvez se verifique que aquilo que foi abolido, ter?? sido a exist??ncia das liberdades individuais. (...)
O que ?? progressista, ?? deix??-las decidir
Contudo, temos medo de reconhecer a exist??ncia das diferenças de g??nero, com receio de nos convertermos em parte de um retrocesso conservador que devolver?? as mulheres ?? cozinha. Pelo contr??rio, defendo que, se entendermos melhor os matizes das diferenças gerais entre os homens e as mulheres, podemos progredir.
De facto, não reconhecer que as diferenças de g??nero existem, provoca vários problemas. Os postos de trabalho e as jornadas laborais desenhadas de acordo com os conceitos de competitividade e de sucesso masculinos, que são o modelo padr??o, desencorajam muitas mulheres, apesar de serem muito inteligentes, terem níveis educativos elevados e capacidades extraordin??rias. Se mais de dois ter??os das mulheres são ??adaptativas?? e pretendem conciliar a vida laboral com a familiar, os programas de avalia????o e de promo????o iguais para todos, far??o com que grande parte dessas mulheres talentosas decidam abandonar, trabalhar meia jornada laboral ou não terem promo????es. Sacrificar-se-??o para satisfazer o desejo de passarem mais tempo com as suas famílias, ou de marcarem uma diferença. (...)
Carreiras por medida
As empresas que desenharem diferentes vias profissionais que não estigmatizarem nem penalizarem as mulheres por fazerem baixa para estar com os filhos e que reconhe??am as diferenças de g??nero, apostando na possibilidade de baixas de maternidade espec??ficas, programas de promo????o mais flex??veis e sistemas para haver uma reintegração no trabalho depois de uma baixa ou de ter trabalhado meia jornada laboral, ter??o mais mulheres nos seus quadros. As universidades que det??m o rel??gio da corrida para a titularidade quando as mulheres d??o ?? luz, ou que concedem baixas de maternidade espec??ficas ??s mulheres (em vez de baixas gen??ricas a ambos os progenitores) prev??em em maior grau o fenómeno de as mulheres regressarem com um atraso e os homens com um livro.
Pelo contr??rio, esquecer as diferenças de g??nero pode dar lugar ao efeito inesperado de que ter família constitua um preju??zo para as mulheres e um benef??cio para os homens, o que talvez explique, em parte, a raz??o de os homens acad??micos com filhos publicarem mais do que aqueles que não t??m filhos, enquanto que as mulheres acad??micas com filhos publicam menos do que aquelas que não os t??m. (...)
Durante os últimos anos, os postos de trabalho tornaram-se mais extremos, mais competitivos e mais inflex??veis. Por muito que sejam incensadas as virtudes do equil??brio dos g??neros, as empresas que permitem que as jornadas laborais, as publica????es, as reuni??es durante os pequenos-almo??os, as refei????es ou os fins-de-semana necessários para poder ser promovido ou conseguir a titularidade aumentem sem cessar, ou as que insistem com rigidez em que para poder ser promovido h?? que aceitar ser transferido para outro local, verificar??o que o número de mulheres no quadro se vai reduzir. (...)
De qualquer forma, ?? possível entender a situação de outro ponto de vista. As jornadas laborais esgotantes nem sempre se traduzem em produtividade. Parte das horas não são mais do que ??horas de presen??a??, como as reuni??es obrigat??rias de final do dia ou os retiros de fim-de-semana, onde a única coisa a esperar ?? a compar??ncia. Tal como as gravatas e as meias, estas obriga????es t??m mais a ver com a cultura empresarial que com a produtividade. No entanto, nenhuma empresa quer ser a primeira a abandon??-las, embora pudesse valer a pena reconsiderar estes s??mbolos de compromisso passados de moda, se isso levasse ?? reten????o de mulheres cientistas brilhantes ou de profissionais com talento que, em vez de acumularem ??horas de presen??a??, querem estar em casa, ajudar os seus filhos nos deveres escolares e met??-los na cama.
Revalorizar o feminino
(...) Não prestar aten????o ??s diferenças de g??nero também tem o efeito imprevisto de desvalorizar as preferências e competências cognitivas das mulheres. Como grande parte das mulheres t??m um leque de interesses diferente ou mais amplo que o da maioria dos homens, muitas são atra??das por empregos diferentes. E a questão ?? que os trabalhos orientados para as pessoas ou para a comunicação que atraem a maioria das mulheres não estão t??o bem remunerados como as op????es laborais tradicionalmente masculinas.
Apesar de contar com níveis educativos similares, as professoras e as enfermeiras ganham menos que os analistas inform??ticos ou os engenheiros. As mulheres que ensinam técnicas de aprendizagem da fala e as trabalhadoras sociais em geral, ganham menos que os desenhadores de plantas arquitect??nicas ou os técnicos de som. E mesmo dentro das mesmas profiss??es, os sal??rios das especialidades mais atractivas para as mulheres, como a medicina de família ou a pediatria, são inferiores ??s mais escolhidas pelos homens, como a cirurgia, a patologia ou a radiologia.
(...) As for??as do mercado determinam as escalas salariais do sector privado, mas mesmo assim, se existisse a vontade de reter as mulheres e de lhes pagar sal??rios justos, poderiam definir-se políticas empresariais para que os sal??rios dos dirigentes dos departamentos de recursos humanos e de relações públicas (que costumam ser mulheres) se equiparassem aos dos directores dos departamentos de produção ou de finan??as, que atraem mais homens. Em vez de esperar que as mulheres adiram a trabalhos que não lhes interessam, reconhecer as diferenças de g??nero nas profiss??es que se escolhem, poderia levar a um debate mais produtivo sobre como corrigir estes desequil??brios.
Aten????o ??s crianças que fracassam
A enorme ??nfase que se faz para atrair as mulheres para as ci??ncias, a tecnologia, a engenharia e a matem??tica, e a grande quantidade de recursos que a isso são disponibilizados, não fazem mais do que elevar o cachet dos sectores que atraem mais os homens. Não h?? um movimento equivalente com o objectivo de atrair mais homens para a enfermagem, a literatura comparada ou o ensino da fala, nem muito menos h?? incentivos nem grupos especiais de trabalho para formar homens em capacidade de empatia ou em habilidades interpessoais (...)
Por último, não atender ??s diferenças de g??nero b??sicas significa que a fragilidade biológica das crianças continuar?? a ser minimizada. (...) A maioria das crianças fr??geis que abandona a escola não se converte em cozinheiros famosos, em g??nios do p??quer, em matem??ticos galardoados ou em empres??rios brilhantes. Muitos deles abandonam a escola, em parte porque não recebem a ajuda de psicólogos ou de pais que tenham o tempo necessário e o desejo e a perspic??cia de os apoiar. Estas crianças precisam de professores e de m??dicos com vontade de entender a neurologia e a gen??tica b??sicas subjacentes ??s suas deficiências. Esquecer a variabilidade biológica masculina ou fingir que os seus problemas de comportamento e de aprendizagem não são mais do que uma consequência dos modelos masculinos impostos ou do contexto cultural, priva as crianças da ajuda de que necessitam. Tamb??m deixa desamparados os professores e os pais que tentam ajudar as crianças e jovens em dificultades.
Quando se pensou que as raparigas não obtinham t??o bons resultados em matem??tica e em ci??ncias como os rapazes, desenharam-se programas especiais a pensar nelas. (...) Em finais da década de 90, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei especial para investigar a fun????o das mulheres nas ci??ncias e na engenharia, e as universidades continuam a dedicar muito dinheiro para atrair as mulheres para as ci??ncias, sobretudo Harvard, que instaurou um fundo de 50 milhões de dólares com esse ??nico propósito. (...) Hoje, apesar de haver talvez menos engenheiras que engenheiros, a maioria dos estudantes do quarto ano do ensino prim??rio de ambos os g??neros dizem estar igualmente interessados nas ci??ncias e a maior parte dos títulos obtidos em cursos profissionais e cursos de p??s-gradua????o em biologia estão nas m??os de mulheres.
?? demasiado dif??cil ver se estas iniciativas podem reivindicar parte do m??rito e ?? demasiado cedo para o comprovar, mas se apenas uma parte do financiamento e da vontade política que impulsionam estes programas se dedicasse ?? questão das crianças que fracassam, ?? muito prov??vel que houvesse mais homens nos campus universit??rios e menos nas pris??es. Agora que as raparigas obt??m t??o bons resultados na escola, chegou o momento de dirigir a aten????o para as crianças com dificuldades e esfor??ar-se seriamente para resolver as car??ncias masculinas em leitura e escrita, consciência social e auto-controlo.
Aceprensa
Susan Pinker ?? psicóloga, com experiência clínica e docente (foi professora da Universidade McGill), e colunista do di??rio The Globe and Mail (Toronto).
Notas
Susan Pinker, The Sexual Paradox: Men, Women and the Real Gender Gap.
Texto reproduzido com autoriza????o, a partir da vers??o espanhola.

