Exploradores do Abismo
Quando Vila-Matas (Barcelona, 1948) publicou, em 2005, Doutor Passavento (ver Aceprensa 114/05, na edi????o impressa) podia intuir-se o finalizar de um ciclo iniciado em 1985 com Historia a breviada da literatura port??til, e continuado de forma mais intensa nos seus romances Bartleby e Companhia (ver Aceprensa 42/00) e O mal de Montano (v. Aceprensa 7/03). A literatura era o princ??pio e o fim nesses romances, com personagens repletas de todo o tipo de apreens??es literárias e obcecadas pelas suas ??nsias de solidão e de desaparecer.
Vila-Matas saiu-se bem da sua experiência narrativa, bastante arriscada, que fez dele um dos escritores mais inovadores da literatura europeia contempor??nea; no entanto, a fórmula original estava j?? prestes a esgotar-se. Por isso tentou mudar de registo nos relatos que comp??em Exploradores do Abismo e aproximou-se mais de outro tipo de romances, também seus, como A viagem vertical, Estranha forma de vida e Longe de Veracruz. Nestes, a tenta????o meta-literaria está mais controlada e esbatida, embora a desmesurada tendência para o absurdo seja igualmente vis??vel, como em toda a sua literatura.
Exploradores do Abismo pretende ser uma colec????o de relatos, mas em Vila-Matas as coisas nunca são o que parecem. H?? em todos os relatos um deliberado fio condutor: um conjunto de personagens que ???investigam no nada e não descansam até descobrir um dos seus possíveis conteúdos (???). Todas as personagens acabam por ser exploradores do abismo ou, melhor dito, do conteúdo desse abismo???. Todos, como o próprio autor, sofreram uma opera????o recente e todos se v??em como equilibristas ?? beira do precip??cio fatal.
Com o seu humor caracter??stico, volta a passear as suas obsess??es literárias. Dir-se-ia que Vila-Matas não resistiu a ser Vila-Matas e por isso as suas narrativas acabam por ser fragmentos soltos da sua poética singular, onde se misturam o meta-literário e o seu fasc??nio pelo estranho. Os seus personagens, como se l?? num destes relatos, ???v??em sempre intenções estranhas por tr??s das coisas simples???, enla??ando assim situações peregrinas que se complicam uma e outra vez. O que acontece, isso sim, ?? que tudo est?? controlado por um autor que se sente muito ?? vontade nesse registo Vila-Matas tem os seus leitores apaixonados e os seus detractores. Que ningu??m procure nele narrativas fechadas, com argumentos terminados e ortodoxas. H??, como sempre, sentido de humor, personagens que raiam a loucura, e muitas ideias originais. Mas em Vila-Matas, conv??m não esquecer, a vida ?? sempre secund??ria em relação ?? literatura, e isso comporta os seus riscos.
Adolfo Torrecilla

