S??bado
Henry Perowne desperta a meio da noite. Incapaz de conciliar o sono, dirige-se, sem nenhum motivo concreto, para a janela. Nesse momento, v?? passar um avi??o em chamas. Quase t??o perturbadora como esta vis??o ?? a perplexidade de Perowne pela casualidade de que ele esteja ali a contempl??-la, nessa hora desacostumada e nesse preciso lugar. ?? este o ponto de partida de S??bado, um dia na vida de um neurocirurgi??o com um casamento feliz, boas relações com os seus dois filhos, escassas preocupações e grandes expectativas em relação a um dia meticulosamente planeado.
Na manh?? seguinte Perowne recobrou o optimismo, com o ??nimo j?? mal ensombrado pela imagem do avi??o pela imagem do avi??o em chamas planando como uma amea??a sobre a sua tranquilidade burguesa de fim-de-semana. Perowne relaciona o acidente do avi??o, de modo equivocado mas significativo, com a manifesta????o contra a guerra no Iraque que se estende pelas ruas de Londres.
Esse vago mal-estar passa a segundo plano quando Perowne, enquanto se dirige para a sua partida semanal de squash, sofre um acidente de carro. O percalço ?? leve, mas desencadeia uma reac????o desproporcionada no outro condutor, Baxter. Perowne serve-se dos seus conhecimentos m??dicos para detectar no comportamento de Baxter a marca de uma doença mental, e gra??as a isso consegue escapar. Mas McEwan j?? semeou a semente do acontecimento que desbaratar?? a vida ordenada dos Perowne.
?? impossível deixar de perceber a ironia de McEwan: no início parece que a novela trata do terror global, o pesadelo do Ocidente depois do 11 de Setembro e de como cidad??os como Perowne se sentem impotentes para o combater. Mas, a certa altura da narrativa, o protagonista dever?? prescindir das suas grandes teorias e do seu pensamento de humanista do novo mil??nio (racional, comedido, cient??fico) para enfrentar o perigo concreto que representa Baxter, um vulgar delinquente, a quem s?? ele pode fazer frente. Neste sentido acaba por ser premonit??ria uma frase que Theo, o filho adolescente de Perowne, pronuncia quase no início da obra: ???Vou adoptar este lema: não tenhas grandes ambi????es não penses em grande???.
Final ir??nico
No contexto inicial, as palavras de Theo aludem ?? sua incapacidade para melhorar algo quando pensa nas ???grandes causas??? (a pobreza, a situação política); por isso se sente melhor preocupando-se com o imediato, aquilo que pode solucionar Por??m, quando se aproxima o desenlace do relato, a frase ressoa num contexto mais pessimista: o homem não ?? s?? impotente para mudar o rumo do mundo, também o ?? para controlar o mais pequeno pormenor da sua vida, como fazer planos para um simples S??bado.
No romance de McEwan, o homem tem escassa capacidade de reac????o e nenhuma capacidade de ac????o, coisa que também a Deus se não concede. Henry Perowne abandonou a f?? e escolheu prescindir de Deus, enquanto a gera????o do seu filho, reunida sob a bandeira do ???n??o penses em grande???, nunca se colocou o problema de crer, visto que não foi educada para isso: ???Ningu??m na sua escola de cristal cilindrado, radiante e progressista, lhe pediu nunca que rezasse ou cantasse um impenetr??vel hino de alegria. Não h?? uma entidade da qual se possa duvidar???.
Dado que a ac????o individual ?? ineficaz e que a f?? est?? excluída do universo racionalista de Perowne, parece que nada pode solucionar o conflito. E, no entanto, o inesperado sucede num final também ir??nico: algo que Perowne não compreende, que est??, como a religi??o, excluído do seu pensamento, ser?? o centro do acontecimento que volta a restaurar a ordem.
Como no princ??pio, Perowne volta ?? janela e reflecte. A inquieta????o, que nunca chega a ang??stia, j?? não est?? incarnada na amea??a do mundo exterior, mas no próprio mecanismo da passagem do tempo. Perowne pensa que chegar?? o dia em que a sua m??e ter?? de morrer, em que os seus filhos ir??o embora e em que ele próprio se tornar?? velho. E tudo isto simplesmente acontecer??, ou de um modo ordenado ou bem a??outado pelo acaso. Em qualquer caso, suceder?? de um modo t??o alheio ao seu controlo como a guerra do Iraque, ou como o acidente que presenciou horas antes, daquele mesmo lugar.
Esther de Prado Francia
1. Ian McEwan, S??bado. Gradiva. 2005. Lisboa.
Outras obras de McEwan registadas em Aceprensa: C??es Pretos (49/93), O Fardo do Amor (148/98), Amsterd??o (141/99), Expia????o (149/02).

