Homem lento
Neste d??cimo romance do Nobel sul-africano, um fot??grafo de sessenta anos ?? atropelado e perde uma perna. A invalidez transforma por completo a vida de Paul - ?? o momento de fazer contas aos ??xitos e fracassos e salvar o que pode num futuro que se prev?? sombrio.
Paul ?? um solit??rio, com um casamento fracassado e uns moderados e est??reis namoricos. A sua grande dor ?? não ter tido um filho. Entretanto irrompe na sua vida Marijana, a enfermeira que o atende, e com ela, indirectamente, o resto da família. Pode ser uma oportunidade, talvez a última, onde verter a sua ??nsia de amor e paternidade (em sentido amplo), do "memento mori" de um homem incompleto ?? possível ressurrei????o. Paul ?? um personagem t??pico coetziano: frio, descrente, com fracassos sentimentais e grande resist??ncia a ser transformado pelos outros, imerso numa trag??dia que o leva a interrogar-se. Levantam-se temas interessantes como o assumir a dor, a solidão, a velhice e a servid??o do tempo, o exame vital.
O problema ?? que também aparece na vida de Paul Elizabeth Costello, escritora, protagonista (entre par??ntesis) do romance anterior (entre par??ntesis) de Coetzee. Parece que Costello ?? a narradora da história de Paul, e Coetzee lan??a-se a um salva-vidas metaliterário arriscado onde dialogam autor e personagem. J?? o tinham feito Pirandello ("Seis personagens em busca do autor") e Unamuno ("Niebla") e o resultado agora ?? t??o artificial como ent??o. Seguramente muitos ver??o uma genialidade própria de um Nobel, mas o certo ?? que a história, que até ent??o prometia, se ressente desde o aparecimento de Costello. A mistura de planos ?? confusa e quase impossível aventurar o que se pretende.
Coetzee ?? um escritor duro, sem preconceitos, que entra logo na mat??ria e leva o leitor arrastado ?? base de impactos emocionais. Os seus romances tratam do que se sabe que est?? a??, mas ?? mais elegante sugerir. Ele não o faz, e por isso ?? inc??modo, inquietante. Tem um estilo seco e distante, onde a voz do narrador não costuma explicar nem julgar.
Algo de todo isto existe no "Homem lento", mas a disparatada relação Paul-Costello p??e este romance num lugar secundário da produção de Coetzee, apesar de ser menos torturante e violento que nos seus livros mais valorizados.

