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Istambul - Mem??rias de uma Cidade

 Romance
Istambul - Mem??rias de uma Cidade

Pela sua origem social, filho de uma família da burguesia laica, Pamuk sempre julgou de maneira cr??tica a cultura e a religi??o do Islão, apresentadas algumas vezes como uma amea??a para a desejada ocidentaliza????o. Educado nos valores ocidentais, Pamuk reivindica para o seu pa??s a democracia com todas as suas consequências.

 

Em 2005 recebeu o Pr??mio de Paz que os livreiros alem??es concedem. Pouco depois esteve a ponto de ser julgado, acusado causar dano ?? identidade do seu pa??s por causa de umas declara????es em que dizia que nos inícios do s??culo XX na Turquia tinham sido assassinados um milh??o de arm??nios e 30.000 curdos. Por fim a causa foi retirada.

 

Embora aborde nas suas novelas os conflitos próprios da sociedade do seu tempo, confessava numa entrevista que se não sentia muito ?? vontade no papel de escritor comprometido: ???parece-me asfixiante???.

 

Os seus modelos literários procedem da literatura ocidental. Declara admirar Tolstoi, Dostoievski, Thomas Mann, Proust e Nabokov. ?? excep????o de uma breve est??ncia em universidades norte-americanas, sempre viveu em Istambul. As suas novelas pretendem ser uma radiografia social e política da Turquia e uma an??lise do mal dissimulado confronto que se vive entre os valores orientais e ocidentais, que estão a provocar fric????es no seu pa??s.

 

Algumas delas são A casa do silêncio (1983, ver Aceprensa 117/01), O livro negro (1990), a novela hist??rica O astr??logo e o sult??o (1991), A vida nova (1994), a publicar em breve pela Editora Presen??a, O meu Nome ?? Vermelho (2000, ver Aceprensa 3/04), um dos seus grandes ??xitos internacionais, e Neve (2005, ver Aceprensa 126/05).

 

Arraigado na Turquia, mas com uma obra traduzida em 40 l??nguas, quando lhe perguntam para que tipo de leitor escreve, diz: ???Os escritores da actualidade escrevem menos para as suas próprias maiorias nacionais (que não os l??em) do que para as pequenas minorias de leitores no mundo, que, esses sim, o fazem???.

 

Sem dúvida, como qualquer escritor, declara ter um desejo profundo de ser aut??ntico. ???Mas, embora a autenticidade de um escritor dependa realmente da sua habilidade para abrir o cora????o ao mundo em que vive, também depende igualmente da sua habilidade para entender a sua própria mudança posicional nesse mundo???.

 

A sua relação com Istambul ?? o fio condutor deste novo livro que combina as mem??rias com a descri????o da alma de uma cidade com a qual esteve em permanente contacto. Em Istambul, como confessava recentemente numa entrevista, ???o meu objectivo consistiu em situar-me a mim próprio na cidade, e descobrir em que medida a sua história, gentes , cronistas, edifícios, ruas e pontes me foram modelando???.

 

No livro, Pamuk fala da sua enorme família, das tormentosas relações entre os seus pais, do seu sentimento de inferioridade em relação ao seu ??nico irm??o mais velho, da sua ignor??ncia e rep??dio por tudo o que se relacionva com religi??o, da sua inicia????o ao sexo e o seu primeiro amor, da sua progressiva afei????o pela pintura e a literatura... Al??m destas refer??ncias pessoais, o livro tem como protagonista a cidade de Istambul: ???O que para mim foi determinante (escreve Pamuk) foi permanecer ligado ?? mesma casa, ?? mesma rua, ?? mesma paisagem, ?? mesma cidade. Essa depend??ncia de Istambul significa que o destino da cidade era o meu, porque foi ela que formou o meu carácter???.

 

A Pamuk pouco lhe interessam os lugares ex??ticos, que tanta admira????o causaram a pintores e autores que escreveram sobre os restos de uma esplendorosa civilização (Nerval, Gautier, Flaubert). Pela m??o de escritores e poetas turcos que sentiram o seu mesmo fasc??nio pela cidade, e de um bom número de fotografias a preto e branco contempor??neas que captam estes mesmos sentimentos, Pamuk aprofunda nesta nostalgia absoluta, numa amargura que penetrou até ao tutano nos habitantes desta cidade superpovoada.

 

A sensa????o de derrota e de perda ?? quotidiana, pois não h?? separa????o entre o que foi um antigo imp??rio e as ru??nas que convertem Istambul numa cidade deteriorada e desordenada, apesar dos avan??os. Percorrendo o B??sforo, os bairros populares, os sub??rbios, as zonas de com??rcio, o jovem Pamuk descobre uma cidade em processo de transi????o que suporta sem estrid??ncias o seu perseverante desmoronamento. Como escreve o prémio Nobel, ???o facto de que em Istambul tudo tenha ficado a meio caminho por causa de qualquer derrota converteu a cidade num lugar incompleto???.


Adolfo Torrecilla