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O Fantasma sai de cena

 Romance
O Fantasma sai de cena

Neste romance, Roth mostra uma vez mais o seu estilo vigoroso e pleno, com personagens densamente constru??das e relações s??lidas e fortes. Kliman julga conhecer o nervo da vida de Lonoff, um segredo sexual que, segundo ele, deve ser desvendado, para explicar a sua obra e ressuscitar uma fama literária durante anos injustamente apagada. Zuckerman não acredita em tal segredo, e ainda menos, caso seja verdade, no direito de relacionar desse modo a vida e a obra de um escritor. Considera a inten????o de Kilman uma manobra execr??vel, temer??ria e juvenil. Talvez porque no fundo tem medo de se lhe seguir. Tudo isto d?? a Roth ocasi??o de continuar a insistir nas suas preocupações de sempre: sexo, política (o romance situa-se em 2004, aquando da reeleição de Bush), a Escritura e o juda??smo. A estes temas fulcrais tem-se vindo ultimamente juntar a velhice e a decrepitude, presente em "Patrim??nio", "O Animal Moribundo" e "Elegia".

 

Tecnicamente, a maior novidade do romance ?? a inclus??o das p??ginas escritas pelo próprio Zuckerman para ficcionar a sua relação com Jamie. Isto provoca um jogo entre o que não aconteceu e o real (que também ?? fic????o) que Roth usa para reflectir sobre a cria????o literária como "uma outra" forma aut??noma da realidade. Zuckerman assiste ao seu próprio decl??nio intelectual. A sua agudeza como escritor est?? sustentada pela mem??ria e pela precis??o verbal, que vai perdendo; mas a palavra ainda lhe ?? ??til para sonhar e explicar. Por outro lado, sab??amos j?? que toda a l??cida intelig??ncia do s??tiro temer??rio que ?? Zuckerman passavam para segundo plano quando as paix??es se come??avam a fazer sentir, não surpreendendo pois as lucubra????es e os planos que Jamie faz nascer na sua abalada virilidade, e que d??o lugar a alguns diálogos grosseiros.

 

Esta parece ser a despedida de Zuckerman, o alter ego de Roth em idade, profiss??o e origem, de quem conhec??amos numerosos livros (nove com este). "O Fantasma Sai de Cena" ?? menos bem cuidado que outras obras do autor, mas torna a abordar temas de fundo: a suposta quimera da conc??rdia humana, se a defesa da arte pode p??r em perigo a dignidade da vida, o alcance que se deve conceder aos poderes públicos, o papel dos instintos, o final da vida. Tudo contado com o magnetismo que caracteriza o estilo de Roth.

 

Javier Cercas Rueda