O fenómeno Stieg Larsson
O famoso ??xito da trilogia de Stieg Larsson, desenvolvida em tr??s grossos volumes (Os homens que não amavam as mulheres, A rapariga que sonhava com um f??sforo e um bid??o de gasolina e A rainha no pal??cio das correntes de ar) com mais de duas mil p??ginas, deve induzir-nos a procurar as raz??es do seu ??xito.
Um cavalheiro idealista
Muitos epis??dios da trilogia são dificilmente suport??veis, sobretudo pela densidade diab??lica da violência
O protagonista destes romances, ou melhor, o que se apresenta como protagonista da primeira, Os homens que não amavam as mulheres, ?? uma espécie de Robin Hood dos nossos dias, um cavalheiro idealista: trata-se do jornalista Mikael Blomkvist que, com a sua revista Millennium, desde sempre se bateu para desmascarar os políticos, os industriais corruptos, numa palavra, a "podrid??o" do sistema capitalista-industrial.
O primeiro romance come??a quando Blomkvist, depois de ser condenado por difama????o por causa de notícias comprometedoras que publicou contra um magnata, sem dispor de provas seguras, se afasta temporariamente do jornal por ele fundado e se dedica a um caso que lhe foi confiado por um velho industrial: fazer luz sobre o desaparecimento da sua neta, ocorrido em circunst??ncias misteriosas h?? muitos anos. Uma dor que se tinge de mistério, porque todos os anos o anci??o milion??rio recebe uma prenda muito particular, que não pode deixar de lembrar-lhe a jovem desaparecida.
O jornalista, alojado na ilha privada do industrial, come??a ent??o as suas investigações com a ajuda de uma personagem, Lisbeth Salander, que se ir?? revelando lentamente como a verdadeira protagonista da trilogia, e que se agiganta nos volumes seguintes (?? ela a rapariga que sonhava com um f??sforo e um bid??o de gasolina do segundo título, assim como a rainha no pal??cio das correntes de ar do terceiro). Enquanto Mikael descobre, na melhor tradi????o thriller, espantosos abismos de perversão e de maldade cuidadosamente escondidos sob o v??u hip??crita da respeitabilidade da alta burguesia, vemos que Larsson encontra forma de ir delineando passo a passo a lament??vel vida de Lisbeth.
De facto, no romance inicial, esta personagem apresenta-se-nos ?? primeira vista como uma garota estranha, para l?? dos limites da anormalidade, empregada sem tarefas relevantes numa firma que oferece serviços de segurança, a Milton Security, a cargo de um curioso e simp??tico imigrado alban??s que se revelar?? como um grande aliado da jovem. No entanto, vamo-nos inteirando lentamente de que Lisbeth teve uma história familiar que poderia considerar-se no m??nimo problem??tica: foi separada da m??e, teve uma adolesc??ncia infeliz, peregrinando por várias instituições, hospitais psiqui??tricos e famílias de acolhimento; foi confiada aos serviços sociais e, no primeiro volume, acaba por sofrer o peso enorme da violência do seu novo tutor. Resumindo, Larsson não poupa absolutamente nada ?? sua personagem e, infelizmente, também nada poupa ao leitor, pois descreve tudo isto de uma maneira muito detalhada, sem omitir os pormenores mais sangrentos ou moralmente comprometedores (pelo menos). Esta circunst??ncia faz com que o público da sua obra seja, não apenas adulto, mas com um estom??go de a??o.
Inveros??mil mas coerente
Os romances de Larsson não são muito elaborados do ponto de vista estil??stico, mas t??m um singular domínio do sentido do ritmo e da coes??o narrativa
Em abono da verdade, temos de dizer que a inverosimilhan??a da ac????o discursiva se redime pela forma de escrever; com efeito, os romances de Larsson não ser??o elaborad??ssimos do ponto de vista estil??stico, mas dominam de forma realmente singular o sentido do ritmo e da coes??o narrativa, e são capazes de manter o leitor agarrado ao texto ao longo de dezenas e centenas de p??ginas.
O tema da trilogia torna-se assim coerente e org??nico. O autor consegue tornar cred??veis as perip??cias de Lisbeth, cujos passos seguem, não s?? os funcion??rios dos serviços secretos que desejam silenciar uma excelente testemunha dos seus abusos de poder, mas também o seu terr??vel pai e um sinistro meio-irm??o, homenzarr??o t??o alto e robusto quanto a rapariga ?? pequena e magra, e que sofre, entre outras coisas, de desequil??brios mentais (também ele!) e de uma analgesia cong??nita, uma estranha doença gen??tica que não lhe permite sentir a dor, e o converte, portanto, num advers??rio tem??vel.
O terceiro volume apresenta Lisbeth, ao longo de muitas p??ginas, imobilizada num leito de hospital durante uma longu??ssima convalescen??a, depois de um inteligente e simp??tico m??dico ter conseguido salvar-lhe a vida. Discursivamente, portanto, o terceiro volume da trilogia poderia parecer o menos atractivo: como se pode contar uma trama atraente se a protagonista, cora????o e motor da história, não est?? sequer em condições de se levantar da cama? No entanto, e aqui radica um dos rasgos do engenho de Larsson, o repto lançado ao leitor ?? vencido uma vez mais, e podemos assim seguir, em virtude das habilidades tecnológicas e inform??ticas de Lisbeth, a sua estratégia para se libertar das graves acusa????es que lhe fazem, al??m das persegui????es dos seus inimigos.
Contudo, existe objectivamente nesta assumida inverosimilhan??a uma espécie de coes??o interna gra??as ?? qual tout se tient nos romances de Larsson, de tal maneira que, ao longo da leitura, cada coisa volta a encaixar com precis??o, como pe??as min??sculas de um gigantesco quebra-cabe??as, no lugar exacto.
Justi??a e violência exasperada
Se quisermos, por outro lado, olhar estes milhares de p??ginas sob um não menos importante ponto de vista moral, veremos que certos aspectos revelam uma s??lida exigência de justi??a, seguramente comovedora: assim, por exemplo, na figura do director de Millennium, um jornalista de t??mpera dedicado com a sua pequena revista mensal independente a investigações que procuram desmascarar financeiros irresponsáveis, recusou sempre a oportunidade de uma carreira mais rent??vel e prestigiosa.
Mikael chega a ser preso, e consegue mais tarde, arriscando a sua própria vida, fazer abortar os planos criminais de um perigoso man??aco assassino, t??o s??dico como dotado de meios para financiar os seus execr??veis v??cios (os milion??rios destes romances nunca se dedicam a coisas como a colec????o de livros antigos ou a entomologia: albergam sempre paix??es horr??veis, tendo de gastar somas ingentes para as financiar e as manter secretas).
Assim, nos romances seguintes, Mikael transforma-se num precioso aliado para Lisbeth, que ?? um moderno paradigma de vítima, de perseguida, de marginalizada da sociedade; mas uma vítima que não ?? ab??lica nem impotente, mas combativa e com um inato sentido da justi??a, o que ?? definitivamente um traço positivo. Lament??vel ?? que a sua ??nsia de justi??a, muito desenvolvida em virtude das vicissitudes familiares e pessoais anteriormente descritas, se combine com uma inquietante inclina????o para a vingan??a violenta.
E se ?? positivo que os romances de Larsson tratem o tema da violência contra as mulheres (um tema que perpassa por toda a trilogia), ficamos, no entanto, perplexos perante a caracteriza????o dos personagens: ?? manifesto que o autor não queria fazer de Mikael, Lisbeth, Erika e seus companheiros uns santinhos, mas entre a idealiza????o e um corte t??o s??rdido da realidade podia haver um meio termo, um certo equil??brio, talvez uns tons um pouco mais dilu??dos, em certos casos mais respeitosos para com a sensibilidade do leitor. Porque muitos epis??dios da trilogia tornam-se, com efeito, dificilmente suport??veis, sobretudo pela densidade diab??lica de violência que se apresenta até nos m??nimos detalhes.
Masculino e feminino
E ser?? possível que, tirando a irm?? do protagonista, Anika Giannini, nenhuma - repito: nenhuma - das personagens tenha algo parecido com uma vida familiar e pessoal normal? Concordo, estamos na liberal e muito laica Su??cia, mas certas caracter??sticas das personagens são francamente exageradas ou, em todo o caso, desequilibradas. Mikael ?? um Don Juan insens??vel e pregui??oso, uma espécie de vers??o masculina da mulher bela que ?? continuamente objecto de aten????es amorosas por onde quer que passe.
Larsson caracterizou assim o seu protagonista masculino atribuindo, por outro lado, com simetria especular, caracter??sticas mais tipicamente masculinas a Lisbeth, que possui uma conduta sexual demasiado desenvolta com homens e mulheres. Todos os homens com quem a jovem se relaciona s??o, invariavelmente, e a come??ar pelo pai e pelo irm??o, s??dicos, desequilibrados, violentos; as ??nicas excepções são o primeiro professor e o m??dico que lhe salva a vida em A rainha no pal??cio das correntes de ar. As intenções de Larsson parecem bastante transparentes: trata-se de mostrar, quase de ilustrar, quanta corrupção esconde a sociedade, e especialmente a que costuma definir-se como a alta sociedade.
Notas
(*) Este artigo ?? uma tradu????o parcial de uma mais longa recens??o publicada na revista Studi Cattolici (n.?? 580, Junho 2009).
Um perfil interessante de Stieg Larsson aparece numa entrevista com o seu amigo Kurdo Baksi, publicada no jornal La Vanguardia (18.6.2009).

