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A mulher certa

 Romance
A mulher certa

A mulher certa, o novo romance traduzido do escritor h??ngaro S??ndor Mar??i (1900-1989) tem o toque inconfund??vel dos outros dois j?? publicados pela mesma editora (As velas ardem até ao fim, A heran??a de Eszter).

 

De novo Mar??i concebe o romance como um longo mon??logo em que os interlocutores se limitam a escutar. Nesta ocasi??o, tr??s personagens (P??ter, Marika e Judit) contam a história de amor em que se v??em envolvidos.

 

Marika conta a sua vis??o dos factos anos depois do seu div??rcio de P??ter, quando este vive com Judit. De modo pat??tico e surpreendente, esmi????a os interst??cios de uma relação aparentemente correcta, com todos os ingredientes próprios da classe social a que ambos pertencem (a burguesia), tema habitual nos romances de Mar??i. Contudo, Marika intui que algo se interp??e entre os dois e quase sem querer descobre que o marido não consegue esquecer a atrac????o que sente por Judit, uma das criadas da casa. Depois ?? Peter a pegar no testemunho e descrever como foi a sua relação com a ex-mulher; não lhe censura nada, pois sabe que o seu distanciamento e o posterior div??rcio obedece a uma paix??o cega.

 

P??ter abandona Marika e casa com Judit, relação desigual que parece conter o g??rmen da infelicidade. Estas duas narra????es não s?? descrevem com subtileza os pensamentos amorosos dos protagonistas; Mar??i salpica o relato com pormenores psicológicos e de costumes, queamplificam o mundo ??ntimo e social dos personagens.

 

A terceira parte foi escrita em It??lia em 1949, terminada j?? a Segunda Guerra Mundial, altura em que Mar??i se viu obrigado a abandonar o seu pa??s ap??s a instaura????o de um regime comunista. Transparece algo disso no mon??logo de Judit, ambientado num hotel romano, pois também ela decidiu abandonar Budapeste no fim da contenda.

 

Ao contar a sua relação com P??ter, Judit remonta ?? sua infância pobre e ??s dr??sticas diferenças entre a sua experiência do mundo e o que aprendeu ao come??ar a trabalhar na mans??o de P??ter. Embora P??ter o tenha descoberto talvez demasiado tarde, nesta relação h?? ressentimento e vingan??a, pois Judit sabe que nunca poder?? pertencer a um mundo (o da burguesia) que para ela continua a ser um mistério.

 

A história tem momentos de grande efeito junto do leitor, pois Mar??i exagera os sentimentos e os racioc??nios morais com a finalidade de ambientar a trag??dia; algumas digress??es estão fora de s??tio e diminuem a tens??o; h?? uma vis??o superficial do matrim??nio (como uma institui c??o mais social que outra coisa) e deslizam afirma????es ocasionais que denotam uma vis??o t??pica da religi??o.

 

Mostra também uma vis??o doentia das relações humanas, pois como afirma P??ter, ???todas as nossas explicações dos acontecimentos estão viciadas por um irremedi??vel halo literário???. No entanto, apesar de o enredo ser previs??vel, Mar??i agarra o leitor com uma prosa fluida, de grande qualidade, que mostra a psicologia de personagens atormentados, insatisfeitos, infelizes; ao mesmo tempo, a sua prosa utiliza pequenos pormenores de grande efic??cia est??tica para descrever a grandeza e mis??ria de um mundo em vias de extin????o...

 

Adolfo Torrecilla