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Em Espanha Enrique Vila-Matas publica Dublinesca

Estranha forma de literatura

 Romance
Autor minorit??rio, mas com prest??gio internacional, Vila-Matas ?? considerado um guia de muitos escritores europeus e hispano-americanos, que procuram outros caminhos na literatura
Estranha forma de literatura

O próprio Vila-Matas confessou que os seus livros são uma reac????o contra o realismo vern??culo, t??o presente na literatura espanhola dos s??culos XIX e XX, reciclado nas suas formas mais comerciais do s??culo XXI. Defende uma literatura diferente para um leitor diferente. No entanto, tal como t??m corrido as coisas no mundo editorial nas últimas décadas, ele v?? que as suas eruditas pretens??es fracassaram. "Sempre imaginei - disse - que o leitor do s??culo XXI fosse mais adulto, se centrasse menos na narrativa e se aproximasse mais do ensaio, da biografia, da filosofia, da poesia; mas passaram alguns anos e j?? mudei de opinião".

 

Mestre da auto-fic????o

 

Os seus enredos estão intimamente ligados a tudo o que se relaciona com o mundo literário, procurando sempre os aspectos mais ins??litos e extravagantes. A suspens??o das obsess??es livrescas acabou por reduzir as preocupações existenciais.

 

Vila-Matas dirige-se a um novo leitor (que não ?? suficiente: da?? o carácter minorit??rio da sua obra) com um tipo de literatura que quer romper, experimentalmente, com o passado e com a rigidez dos g??neros literários. "Atrai-me neste momento - escreve - um g??nero, que mistura a narra????o com a experiência e a realidade trazida ao texto como tal, qualquer coisa como o tecido de uma tape??aria que se desdobra em muitas direc????es: mat??ria ficcional, documental, autobiogr??fica, ensa??stica, hist??rica, epistolar, livresca..."

 

Alguns classificaram a sua literatura como auto-fic????o, g??nero onde se misturam - como em algumas obras de Cl??udio Magris e de W.G. Sebald - o ensaio e o romance, e onde o metaliterário - a obsessiva presen??a da literatura, dos seus ingredientes, das suas personagens, dos seus mecanismos, dos seus autores... - tem um papel preponderante e definitivo. Os seus protagonistas são seres estreitamente vinculados ?? literatura - o de Dublinesca, por exemplo, ?? um editor reformado - e os seus enredos estão também intimamente ligados a tudo o que se relaciona com o mundo literário, procurando sempre os aspectos mais ins??litos ligados ao acto de cria????o, como j?? fizera nas suas primeiras obras, Hist??ria abreviada da literatura port??til.

 

Sentido l??dico e kafkiano

 

Vila-Matas tem a capacidade de apresentar as suas investigações e preocupações da maneira mais agrad??vel, fugindo ?? seriedade do ensaio, com muito sentido de humor e com uma ironia que transforma, em atraente e contagiosa leveza, muitas das suas propostas metaliterárias. Esta tendência para a ironia ?? um dos traços mais caracter??sticos das suas personagens, que costumam manifestar aspectos delirantes e extravagantes, território em que Vila-Matas se movimenta com muita facilidade.

 

Com estes materiais, e apoiando-se em motiva????es aparentemente l??dicas, a sua proposta literária procura sempre o sentido grotesco, ca??tico e complexo da vida. Vila-Matas não encontra uma ordem, nem um sentido, nem um Deus; apenas uma sucess??o de momentos e significados absurdos. ?? aqui que se toca, de modo mais evidente, a sua paix??o por Kafka, escritor fundamental para ele, pelo mundo angustiante que descobriu de maneira fragmentada.

 

Apesar do humor muito original e, por vezes, hilariante pelas ocorr??ncias dos personagens e os enredos despropositados, lateja em Vila-Matas (?? muito evidente na parte final do seu último romance, Dublinesca) uma vis??o da vida profundamente pessimista e conclusiva de que o mundo não tem sentido.

 

Esta conclusão conduz as preocupações existenciais dos seus protagonistas sempre na mesma direcção (a literatura como suced??neo da filosofia) e converte a religi??o, quando aparece, num mero e cr??tico adorno de costumes. Ideologicamente, Vila-Matas situa-se na esquerda política, embora não fa??a disso bandeira literária; de facto, mal aparece nos seus escritos. Nota-se essa filia????o nos temas de fundo e em certas afinidades sociológicas e de costumes, mas ele nunca usou a literatura como ferramenta política.

Afastado da tradi????o hisp??nica

 

Com humor, escreveu "estou a converter-me num escritor franc??s de pais mexicanos", o que demonstra o seu experimentalismo e o seu deliberado afastamento da tradi????o hisp??nica (em especial, do realismo); também o seu internacionalismo, inclusivamente na receptividade: Vila-Matas ?? habitualmente um escritor traduzido para franc??s, italiano e portugu??s, e muito lido em c??rculos da Am??rica Latina (onde recebeu, por exemplo, o prémio R??mulo Gallegos).

 

Ele próprio destaca a sua afinidade com alguns escritores latino-americanos - Jorge Lu??s Borges, Juan Rulfo, Augusto Monterroso, Bioy Casares, Alejandro Rossi, S??rgio Pitol... -, al??m de ser amigo - e para alguns mestre - de outros escritores hispano-americanos actuais como Roberto Bola??o (j?? desaparecido), Juan Villoro, C??sar Aira, Rodrigo Fres??n...

 

A cr??tica destaca que o seu vanguardismo tem pontos em comum com Ram??n G??mez de la Serna, outro escritor a quem o af?? de originalidade e experimentalismo levou a dinamitar os g??neros literários. Entre os escritores que aparecem persistentemente nos seus livros, h?? que destacar, al??m de Kafka, Robert Walser - seu her??i moral e literário -, Fernando Pessoa, ??talo Calvino, James Joyce, Samuel Beckett, Vladimir Nabokov, Val??ry Larbaud, Witold Gombrowicz, J. D. Salinger... Escritores unidos por uma grande paix??o quase doentia pela literatura e pelo desejo de transformar os modelos literários atrav??s de novas fórmulas. Vila-Matas fala também de "trabalhar com a tradi????o, mas torn??-la irreconhec??vel.

O c??clico Vila-Matas

 

Esta literatura fragment??ria, culta, l??dica, que vai até contra o romance tradicional, próxima do ensaio, experimental... tem também os seus riscos, reconhecidos pelo próprio autor. No princ??pio, a novidade das suas propostas chamou positivamente a aten????o, e a?? reside o sucesso dos seus romances Bartleby e companhia, O mal de Montano e Doutor Pasavento, onde mais claramente est?? a est??tica da auto-fic????o. Contudo, j?? nestes romances se intui a possibilidade de que Vila-Matas acabe encerrado num ciclo do qual não saiba como sair, acorrentado nas suas próprias teorias literárias e vitais e na sua singular maneira de interpretar o mundo e a literatura.

 

Dublinesca confirma este ditame. Nele voltamos a encontrar, disfar??ados e reiterados, os mesmos temas e as mesmas obsess??es, embora sem a facilidade e surpresa dos seus anteriores romances. Por isso, o seu estilo acaba por soar a artif??cio, técnica que tem de se repetir, embora esse maneirismo ret??rico, essa imita????o de si mesmo, não seja o mais grave.

 

O que mais limita o mundo literário de Vila-Matas ?? que a suspens??o das obsess??es livrescas acabou por diminuir as preocupações existenciais, ou a presen??a da própria vida. Assim, os seus livros ficam numa espécie de labirinto ou antec??mara literária onde as questões fundamentais - a vida, a morte, a solidão, o amor... - t??m uma presen??a tangencial e sem for??a. Este ??, talvez, o perigo mais grave de levar o metaliterário até ??s suas últimas consequências.

 

Entre os escritores Shandy e Bartleby

 

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona em 1948. Estudou jornalismo e Direito. O início da sua carreira est?? ligado ao cinema; foi redactor da revista Fotogramas e dirigiu, em 1970, curtas-metragens. Escreveu o seu primeiro livro durante o serviço militar em Sevilha, Mujer en el espejo contemplando el paisaje (1973). Em 1974 foi viver para Paris, acontecimento que recria anos depois numa das suas mais divertidas novelas, Paris nunca se acaba (2003), centrada na sua decisão de tornar-se escritor. Em Paris, escreveu o seu segundo romance, A assassina ilustre (1977). De regresso a Barcelona publicou Al sur de los p??rpados (1980), história sobre a aprendizagem de um escritor, e Nunca voy al cine (1982), livro onde, segundo palavras suas, faz investiga????o sobre temas que o preocupam como autor literário.

 

1985 ?? um ano chave. Publica Historia abreviada da literatura port??til, sua primeira tentativa de misturar ensaio e fic????o radical, o que ser?? uma das marcas de identidade de Vila-Matas. O livro fala de uma s??rie de escritores, a quem o autor denomina "shandys", que formam uma espécie de sociedade secreta "com o simples objectivo de divulga????o insolente". Para Mercedes Monmany, "com este livro curioso e desconcertante, Vila-Matas atingiu o m??ximo da sua capacidade de duplicidade e ironia, de equ??voco e jogo, de relativiza????o deformada da realidade por meio do duplo sentido e de um grande emaranhado, ?? maneira de loja ocultista e secreta de palavras, contra-senhas e feitos surpreendentes a todo o momento" (Vila-Matas port??til, Candaya, 2007).

A busca de voz pessoal

 

Uma casa para sempre (1988) ?? outra reviravolta no processo de formação do mundo vila-matiano. Trata-se de uma colec????o de narrativas, que têm como tema comum a busca de voz pessoal. Vila-Matas utilizou frequentemente o relato, o ensaio literário e o artigo de jornal, g??neros em que escreve como nos seus romances, com os mesmos temas e as mesmas pretens??es. Al??m disso, sempre procura nos seus livros de relatos um fio condutor. Por exemplo, no livro que publica seguidamente, Suic??dios exemplares (1991), o tema unificador ?? o suic??dio.

 

O viajante mais lento (1992, reeditado em 2001) ?? uma colec????o de ensaios literários, que serve para conhecer melhor os seus escritores favoritos e algumas das suas obsess??es literárias, que depois desenvolver?? em forma de romances. Como no resto dos seus livros, surpreende a capacidade de fugir aos lugares-comuns, o seu sentido de humor e o seu modo de abordar o mundo da literatura.

 

Em 1993 publica uma das suas melhores colec????es de relatos, Filhos sem filhos, livro muito kafkiano na escolha de alguns temas, onde aparecem pessoas com vidas azarentas e complicadas que esgrimem uma indiferença ol??mpica e distante da realidade que lhes coube viver.

 

Longe de Veracruz (1995) ?? um romance sobre o fracasso pessoal e o ref??gio na literatura como ir??nica solução vital. Em Estranha forma de vida (1997), o narrador ?? um escritor que est?? preparando uma conferência sobre a relação entre os espi??es e a literatura, com conota????es delirantes e doentias que Vila-Matas utiliza para reflectir sobre as vidas peregrinas dos escritores. A Viagem Vertical (1999) um dos seus romances mais apreciados, conta a viagem final de Federico Mayol que, no declinar da sua exist??ncia, ?? posto fora de casa pela mulher no dia a seguir a festejarem as suas bodas de ouro. Mayol v??-se for??ado a iniciar uma nova vida e, para esquecer-se de tudo, empreende uma viagem vertical para descobrir um novo sentido da sua exist??ncia cinzenta.

 

As doenças literárias

 

No ano 2000 d??-se um importante salto na sua est??tica. Vila-Matas volta ao mundo que havia descrito na Hist??ria abreviada da literatura port??til e publica Bartleby e Companhia onde mistura as caracter??sticas do ensaio e do romance. A investiga????o literária tem a ver com o que o protagonista chama a Literatura do N??o, escritores que, num determinado momento das suas vidas, decidem deixar de escrever por uma radical op????o literária. As histórias e cita????es que Vila-Matas resgata (ou inventa, como faz quase sempre), são divertidas e jocosas O mal de Montano (prémio Herralde 2002) tem muitos pontos comuns com Bartleby e Companhia, embora o que acontece ao seu protagonista seja contr??rio ao deste romance: sofre "a mania de ver tudo a partir da literatura". O livro, cheio de erudi????o livresca e personagens exc??ntricas, ?? uma ir??nica reflex??o sobre as doenças literárias.

 

Em 2003 publica um livro aparentemente memorialista: Paris nunca se acaba. Vila-Matas mistura de novo o biogr??fico com o ensa??stico, pois o livro ?? a conferência que o autor prepara sobre os seus anos de aprendizagem literária em Paris. Doutor Pasavento (2005) culmina a trilogia iniciada em Bartleby e Companhia. Neste caso, o doutor Pasavento, especialista em psiquiatria e escritor oculto, est?? angustiado com a ideia do desaparecimento do autor, quer dizer, que a literatura deve ser apenas literatura sem ter que estar ancorada a uma biografia nem a um escritor. Contudo, como j?? temos comentado, o desejo de ser t??o original passa factura a estes romances, que contam com uns enredos muito d??beis e uns recursos um tanto repetitivos.

 

Exploradores do abismo (2007) ?? uma nova colec????o de relatos com um fio condutor: um conjunto de personagens que "investigam no nada e não param até encontrar um dos seus possíveis conteúdos (...). Todos os personagens acabam por ser exploradores do abismo ou, melhor dizendo, do conteúdo desse abismo". Todos, como o próprio autor, sofreram uma recente opera????o e todos se v??em como fun??mbulos ?? beira de um precip??cio fatal.

 

As suas colabora????es jornal??sticas para a edi????o catal?? do di??rio El Pais foram reunidas em dois volumes: Da cidade nervosa (2000) e Di??rio vol??vel (2008).

 

Adolfo Torrecilla