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Deus e o diabo num mundo de fantasia

Regressam ???As Cr??nicas de N??rnia???

 Fantasia
Regressam ???As Cr??nicas de N??rnia???

As Cr??nicas estão escritas com talento, os seus argumentos chamam ?? aten????o e fazem pensar, contam com personagens atractivas, as descri????es são magníficas, apresentam-se de modo muito cred??vel as mudanças para uma maior maturidade dos protagonistas...Por isso pode ser interessante saber as raz??es pelas quais Tolkien declarou que não lhe agradavam, parti-lhando como partilhava a vis??o cristã da vida que respiram, sendo como era um grande amigo de Lewis, e considerando, al??m disso, que Lewis elogia-va sem reservas a obra de Tolkien.

 

Objectivos literários

 

Como ?? sabido, ainda que algumas das novelas que comp??em a s??rie não se refiram a essa quest??o, o n??cleo argumental do conjunto das Cr??nicas de N??rnia ?? uma tentativa de narrar a Cria????o e a Reden????o de uma forma inesperada, e a sua principal personagem, o le??o Aslan, decalca a figura de Jesus Cristo. Sem dúvida isto ?? leg??timo, pois de qualquer história do passado se podem fazer vers??es novas, totais ou parciais. Isso sim: quanto mais poderoso seja o original e mais se tente respeitar a semelhança com ele, mais dificuldades deve vencer o autor.

 

Al??m disso, um expl??cito desejo apolog??tico também tem os seus riscos. A literatura ?? o terreno da liberdade e, portanto, sempre deve deixar as portas abertas ao leitor: enquanto que um relato literário ?? sempre educativo mas a sua aplica????o ??s nossas vidas ?? indirecta, um relato educativo ?? de aplica????o obrigat??ria e, devido a isso, consideramo-lo ?? margem da literatura, não importa que esteja bem escrito ou os efeitos que tenha.

 

Lewis estava consciente de que, com a sua obra, empreendia uma tarefa complicada e dava facilidades ?? cr??tica. Tamb??m sabia que colocava possíveis leitores num caminho que quem não tivesse conhecimentos prévios não poderia seguir comodamente; e quem os possu??sse, ver-se-iam obrigados a percorr??-lo fazendo compara????es e, dado que os paralelismos são ??bvios, deviam compreender as coisas de um ??nico modo. Portanto, pode afirmar-se que, ao menos em parte, Lewis usa armas literárias com um objectivo não literário e busca uma adapta????o completa da sua história.

 

Segundo o meu ju??zo, esses são os primeiros motivos que justificam a cr??tica literária de Tolkien, muito cuidadoso sempre de utilizar as suas armas literárias com um objectivo puramente literário e não com uma finalidade apolog??tica. O autor de O Senhor dos An??is esteve sempre muito preocupado em dar ?? sua obra uma solidez e autonomia internas que lhe permitissem sustentar-se por si mesma e ser compreendida por qualquer leitor, fossem quais fossem os seus conhecimentos prévios.

 

Mundos fechados e Mundos abertos

 

Outro ponto fraco para a cr??tica deriva da diferença b??sica entre os relatos que pertencem ?? denominada "high fantasy" e que se desenrolam em "mundos fechados", cujo ponto alto est?? em O Senhor dos An??is, e os enquadrados na "low fantasy" e que tem lugar em "mundos abertos", quer dizer, quando seres de outros mundos vivem neste ou quando seres do nosso mundo v??o para o outro, como as próprias Cr??nicas de N??rnia. O início dos primeiros est?? em obras inferiores anteriores ?? de Tolkien: de George MacDonald sobretudo, mas também de William Morris e Lord Dunsany entre outros. E a primeira grande amante dos segundos, a inglesa Edith Nesbit, que por sua vez se inspirou em O drag??o pregui??oso de Kenneth Graham, ?? quem est?? na origem da imensa maioria dos relatos de fantasia infantil do s??culo XX, quase todos reunidos nesta segunda classe: Pipi das Meias Altas, Mary Poppins, Harry Potter, etc.

 

Tolkien considerava a fantasia o principal dos g??neros literários e desejava enriquec??-lo com relatos poderosos, e não tanto com histórias que, ainda que estivessem feitas com rigor, pedem ao leitor que se meta dentro de um mundo secundário que, por sua vez, se desenvolve dentro de outro mundo secundário. Pode-se aplicar aqui o mesmo motivo que servia para mostrar a sua insatisfa????o perante as obras de fantasia representadas no teatro: se um autor pode fazer-nos entrar num mundo onde h?? seres de fantasia como os elfos ou os orcos gra??as ?? sua arte literária, a sua tarefa ?? herc??lea, e por fim praticamente impossível, se quer convencer-nos de que uma figura disfar??ada no cen??rio ?? um drag??o ou que o nosso vizinho de baixo ?? um troll.

 

Modelos imaginativos

 

Prolongando esta mesma linha de racioc??nio, que certos relatos de fantasia pedem demasiada benevol??ncia e credulidade por parte do leitor, podemos encontrar outro argumento mais para uma cr??tica literária e, de passagem, as explicações da recusa que os fundamentalistas expressam acerca de livros como os de Harry Potter.

 

Com uma vis??o cristã das coisas h?? uma única forma indiscut??vel de introduzir Deus dentro da fic????o, ?? coloc??-lo como um ser fora do contexto narrativo, por exemplo no modo como o faz Oscar Wilde no fim de O Pr??ncipe Feliz. Assim Deus não ?? comparado com outras criaturas e não se torna ri-d??culo nem fica diminu??do.

 

Com esta perspectiva haver?? quem pense que representar a Jesus Cristo com a imagem de um animal tem os seus problemas: a recep????o de tal compara????o fica condicionada pelas simpatias pessoais ou os conhecimentos que se tenham em relação com o animal concreto - se ?? sujo ou limpo, se ?? sanguin??rio ou pac??fico...

 

Obviamente a questão principal não ?? essa, mas sim que Deus ultrapassa a capacidade humana e, portanto, se não cabe dentro da mente humana, mui-to menos entra dentro de uma fantasia inventada por ela. Da?? que a B??blia ponha muito cuidado ao multiplicar as imagens e met??foras que representam Deus e as realidades sobrenaturais. Deste modo nunca podemos entend??-las de maneira un??voca e assim fica clara a nossa incapacidade para compreend??-las no todo. Para mencionar um exemplo, se numa passagem lemos que o diabo toma a forma de serpente para tentar Ad??o e Eva, noutro texto do livro dos N??meros o mesmo Deus diz a Mois??s que ponha ao alto uma serpente que todos devem olhar se querem ser curados, e al??m disso nesse caso a serpente ver-se-?? no futuro como uma imagem de Jesus Cristo.

 

Entre par??ntesis, também não se deve esquecer que os s??mbolos e imagens que usa a B??blia, ou que usou a arte cristã ao longo da história, t??m a sua origem e a sua raz??o de ser nas culturas e nos tempos em que apareceram: o drag??o ?? um s??mbolo do mal próprio do mundo mesopot??mico, por exemplo.

 

Uma consequência do anterior ?? que uma verdadeira educa????o cristã nunca fixar?? imagens ou s??mbolos de Deus ou do diabo na mente de ningu??m, ainda que os possa usar como degraus para uma maior compreens??o das coisas. Qualquer progresso para um maior conhecimento exige o desprendimento dos modelos imaginativos que um dia fizeram a sua fun????o: se algu??m acredita na imagem do ??tomo como umas bolitas que d??o voltas em redor de uma bolita maior fica incapacitado para entender a estrutura da mat??ria; se na mente de um estudante se invetera a sequência de desenhos nos quais se v?? como um macaco que se vai transformando progressivamente até chegar a ser um homem, nunca poder?? estudar seriamente a evolução; se uma criança fica com a imagem do diabo de uma história não compreender?? nada da presen??a do mal no mundo quando for maior...

 

Superar imagens infantis

 

Em consequência, uma boa educa????o trata de ir pondo os seus destinat??rios cada vez mais na realidade: dar-lhes certezas s??lidas que sejam verdadeiras, transmitir-lhe a complexidade das coisas e não a vis??o simplista própria dos modelos imaginativos. Uma educa????o assim, com mais motivo se chama cristã, vai desmistificando o mundo e, portanto, vai deixando para tr??s qualquer classe de supersti????o e de animismo. E, apoiada nessas bases, proporciona também capacidade de afrontar com realismo os contos de fadas e a literatura fant??stica.

 

Isto indica, e aqui concordamos com os que pro??bem os livros de Harry Potter ou outros relatos semelhantes, que não são as boas histórias as culpadas de causar problemas ??s crianças na sua compreens??o do bem e do mal, mas sim os educadores que não deixaram claras as limita????es dos modelos imaginativos ou, pior, os educadores que os fazem imaginar nas suas mentes. ?? interessante observar como alguns escritores jogaram com isto para ironizar sobre as cren??as cristãs: Mark Twain e Arthur C. Clarke apresentaram em O estrangeiro misterioso e em O fim da infância um ser cheio de bondade e magn??nimo que se esconde todo o tempo daqueles a quem favorece até que, no fim, com assombro de todos, resulta que tem o aspecto exterior com que se representou o diabo muitas vezes.

 

O drama dos que ficaram presos nesta imagem t??o infantil, autores que se julgam inteligentes e leitores que se sentem ofendidos, vemo-lo no jornalista que perguntou na televis??o ao cardeal Lustiger se acreditava no diabo e, quando o cardeal respondeu que sim e o jornalista ironizou com a contra-pergunta: "e onde o viu?", levou uma resposta contundente: "em Auschwitz".

 

Portanto, qualquer história que represente a Deus ou o diabo de uma forma f??sica determinada deve ser qualificada, sem qualquer discuss??o, de história infantil. Uma história que pode ser por muitas raz??es excelente, como ?? o caso das Cr??nicas de N??rnia, ou simplesmente rid??culo quando se dirige a um público j?? mais velhinho como sucede com as obras de Twain e Clarke citadas.

 

Quer dizer, as Cr??nicas de N??rnia ?? uma obra que pode ser apreciada e desfrutada mas que, passado um pouco de tempo, em alguns aspectos b??sicos deve ser superada. Isto sucede também com grande quantidade de literatura infantil, por isso lhe chamamos infantil, uma evid??ncia que ??s vezes se esquece e que se complementa com outra: que se h?? bons livros que são s?? para os mais velhos, pela raz??o de que s?? podem compreender-se a partir de algumas experiências próprias de adultos, não h?? bons livros que sejam s?? para crianças.

 

"Cr??nicas de N??rnia" ?? uma tentativa de contar a Cria????o e a Reden????o de uma forma inesperada.

 

Os sete livros

 

As Cr??nicas de N??rnia (The Seven Narnia Chronicles, 1950-1956) são sete livros, independentes mas relacionados, que podem ler-se pela ordem em que foram escritos - h?? quem assim o prefira por ser mais natural adaptar-se ao ritmo do escritor e porque assim O sobrinho do m??gico actua como um iluminador ??flashback?? - ou também por ordem cronológica segundo a qual se desenrolam as aventuras, como ??s vezes recomendou o mesmo autor, e que ser?? o que mencionarei.

 

Em Portugal, foram publicados pela Guimar??es Editores e pela Gradiva. Actualmente, encontram-se na Presen??a. Cabe aqui assinalar o carácter politicamente incorrecto de A última batalha, um livro que recebeu na altura o prémio ingl??s de literatura infantil com mais prest??gio, mas que foi criticado depois por falar da morte e do c??u e de que nem todos v??o para ele.

 

1. O sobrinho do m??gico (The Magician's Nephew, 1955):Acontecimentos que são a origem de todos os que, mais adiante, viver??o outros rapazes. Polly e Digory, dois rapazes ingleses do s??culo XIX, des-cobrem casualmente(?) o acesso a um mundo fant??stico, onde conhecem a Aslan e assistem ao come??o de N??rnia.

 

2. O le??o, a feiticeira e o guarda-roupa (The Lion, the Witch and the Wardrobe: A Story for Children, 1950):S??culo XX. Peter, Susan, Edmund e Lucy Pevensie são quatro irm??os que, ao introduzir-se num guarda-fatos, chegam a N??rnia, um pa??s sob o dom??-nio da Feiticeira Branca, onde sempre ?? Inverno e nunca h?? Natal. Ali par-ticipam na luta de Aslan contra a Feiticeira Branca.

 

3. O cavalo e o seu rapaz (The Horse and His Boy, 1954):N??rnia e os seus tr??s vizinhos. Aventura em que não interv??m os irm??os Pevensie. Um rapaz de nome Xaasta descobre que o pescador com quem vive não ?? seu pai e come??a uma viagem até N??rnia. Encontra no caminho uma rapariga que foge da madrasta e continuam juntos. O rei Tisroc e o seu filho, o insolente Rabadash, atacam N??rnia, e Shasta interv??m na luta.

 

4. O pr??ncipe Caspian (Prince Caspian: The Return to Narnia, 1951):Peter, Susan, Edmund e Lucy viajam outra vez a N??rnia e v??m que as coi-sas mudaram desde a anterior estada. Depois de arranjar as coisas, seguindo as orienta????es de Aslan, os Pevensie regressam de novo ao seu mundo.

 

5. A viagem do Caminheiro da Alvorada (The Voyage of the Dawn Trea-der, 1952):Lucy e Edmund, junto com o seu primo Eustace Scrubb, um rapaz repelen-te e odioso, voltam a N??rnia e realizam uma viagem a bordo do barco Caminheiro da Alvorada. Eustace sofre uma mudança radical e Lucy assi-mila uma nova li????o de Aslan: que ningu??m sabe jamais o que teria sido.

 

6. O trono de prata (The Silver Chair, 1953):Eustace e uma rapariga da sua turma, Jill Pol??, entram em N??rnia fugindo de uns companheiros que puseram Jill ?? beira da histeria. Uma vez em Narnia, devem procurar o desaparecido pr??ncipe Rilio, filho do Rei Caspina..

 

7. A última batalha (The Last Battle: A Story for Children, 1956):Jill e Eustace devem ajudar o último dos Reis de N??rnia no momento mais cr??tico. As coisas complicam-se e t??m de regressar de novo a N??rnia quase todos os seus visitantes anteriores... Depois de intens??ssimas batalhas chegam a um lugar estranho e profundo onde descobrem uma nova forma de felicidade.Al??m disso, pode recomendar-se Carta aos leitores de Narnia (Letters to Children, 1985).

 

Ao longo da sua vida, C.S.Lewis recebeu e respondeu a numerosas cartas em relação com a sua obra literária e, em particular, com os contos de N??rnia: uma parte dessas cartas, nas quais se v??m as dúvidas que ??s vezes suscita a sua leitura, estão aqui recolhidas.

 

CINEMA: Primeiro foi a vez de O le??o, a feiticeira e o guarda-roupa, uma super-produção de Walt Disney Studios e Walden Media. Foi rodado na Nova Zel??ndia e República Checa, dirigida por Andrew Adamson (Shrek, Shrek 2) e contou com a equipa de efeitos especiais de O Senhor dos An??is (Weta Workshop) (www.narnia.com); agora, chega a Portugal a vers??o de O pr??ncipe Caspian. Prev??-se que O Caminheiro da Alvorada ser?? o próximo a apresentar em filme.