A esperança, um futuro que muda o presente
A f?? ?? esperança
O tema escolhido parece demonstrar a inten????o do Papa de se centrar nos aspectos essenciais. Depois da sua primeira enc??clica sobre a caridade, talvez se possa esperar no futuro uma terceira sobre a f??, de modo que se possa encerrar assim uma trilogia sobre as virtudes teologais.
Em todo o caso, não ?? necessário esperar. J?? na primeira enc??clica falava da f?? num Deus que ?? caridade; agora, uma das chaves da nova enc??clica ?? precisamente a analogia que estabelece entre f?? e esperança. ???A f?? ?? esperança???, diz o Papa, fazendo-se eco da tradi????o b??blica, na qual com frequ??ncia ambos os termos se permutam. Na realidade, afirma mais adiante, a actual crise de f?? ?? crise de esperança.
A enc??clica vai buscar o seu título ?? frase de S. Paulo aos Romanos (8, 24): ???Spe salvi facti sumus???, fomos salvos pela esperança. ???A reden????o ??-nos oferecida no sentido de que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, gra??as ?? qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for t??o grande que jus-tifique a canseira do caminho???.
Essa meta ?? a salva????o eterna. A f?? cristã não ?? s?? comunicação de coisas mas sim uma comunicação que muda a vida. Usando termos da filosofia da linguagem, o Papa afirma que a mensagem cristã não ?? s?? ???informativa???, mas ???performativa???.
Um encontro que transforma
Para os primeiros cristãos, essa esperança produzia nas suas vidas uma mudança radical. Contudo, ???a n??s, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habitu??mos, a posse de uma tal esperança, que prov??m do encontro real com este-Deus quase nos passa despercebida???.
Para ajudar a compreender o que significa esse impacto, o Papa cita o caso de Santa Josefina Bakhita, nascida no Darfur (Sud??o) por volta de 1869 e vendida como escrava quando tinha nove anos. Depois de muitas e dif??ceis vicissitudes, chega a uma família italiana e a?? descobre que existe outro ???patr??o??? superior a todos os senhores. ???Agora ela tinha ??esperança??; não s?? a pequena esperança de achar patr??es menos cru??is, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada, suceda o que suceder; eu sou espera-da por este Amor . Assim a minha vida ?? boa. Mediante o conhecimento desta esperança ela estava ??redimida??, j?? não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus???.
O Papa acrescenta que o cristianismo não trazia uma mensagem s??cio-revolucion??ria como a de Esp??rtaco, que fracassou na sua luta contra o imp??rio romano. ???Jesus não era Esp??rtaco, não era um guerreiro em luta por uma liberta????o política como Barrab??s ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus - Ele mesmo morto na cruz - tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte que os sofrimentos da escravatura, e, por isso mesmo, transformava, a partir de dentro, a vida e o mundo???.
Prova do que não se v??
O Papa aprofunda a analogia entre f?? e esperança por meio da exegese de algumas passagens do Novo Testamento. ???A f?? não ?? s?? uma inclina????o da pessoa para realidades que h??o-de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela d??-nos algo. D??-nos j?? agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para n??s uma ??prova?? das coisas que ainda não se v??em. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele j?? não ?? o puro ??ainda n??o??. O facto deste futuro existir, muda o presente; o pre-sente ?? tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se nas presentes e as presentes nas futuras???.
Como ?? habitual nos textos do Papa, essas considera????es não pretendem ser s?? uma reflex??o mais ou menos acad??mica, mas sim um convite ao exame de consciência. ???Chegou o momento, por??m, de nos colocarmos explicitamente a quest??o: para n??s, hoje a f?? cristã ?? também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida? Para n??s aquela ?? ??performativa?? - uma mensagem que plasma de modo novo a mesma vida - ou ?? simplesmente ??informação?? que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informações mais recentes?
???Significado de ???vida eterna???
Entre as perguntas que o sacerdote faz aos pais durante o rito do baptismo figuram: ???Que pedis ?? Igreja????; a resposta ??: ???A f?????. E mais adiante: ???Que te d?? a f?????? . ???A vida eterna???. O baptismo não ?? simplesmente um acto de socializa????o. ???Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a f?? (???) lhe d?? a vida, a vida eterna. F?? ?? subst??ncia da esperança???.
O problema ?? que ??? hoje, muitas pessoas rejeitam a f??, talvez simplesmente porque a vida eterna não lhes parece uma coisa desejável???. A própria express??o ???vida eterna???, observa o Papa, ?? necessariamente algo insuficiente, que cria confus??o. ???Eterno suscita em n??s a ideia do interminível, e isto nos amedronta; vida faz-nos pensar na exist??ncia por n??s conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfa????es, de tal maneira que, se por um lado a desejamos, por outro não a queremos???.
Para tentar vislumbrar o significado de ???vida eterna???, os homens somente podemos ???procurar sair com o nosso pensamento da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucess??o cont??nua de dias do calend??rio, mas algo parecido com o instante repleto de satisfa????o, onde a totalidade nos abra??a e n??s abra??amos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo ??? o antes e o depois ??? j?? não existe???.
???Podemos somente procurar pensar que este momento ?? a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastid??o do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: ??Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso cora????o alegrar-se-?? e ningu??m vos poder?? tirar a vossa alegria?? (16, 22). Devemos olhar nesse sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da f??, do nosso estar com Cristo???.
Suced??neos da esperança
No n??cleo da enc??clica est?? a an??lise que o Papa faz de como a esperança cristã foi substitu??da na ??poca moderna pela esperança do reino do homem. At?? esse momento, ???a recupera????o daquilo que o homem e a mulher, expulsos do para??so terrestre, tinham perdido esperava-se da f?? em Jesus Cristo, e nisto se via a ??reden????o??. Agora, esta ??reden????o??, o restabelecimento do ??para??so?? perdido, j?? não se espera da f??, mas da liga????o rec??m descoberta entre ci??ncia e pr??tica???.
Não ?? que se negue a f??, mas desvia-se das realidades exclusivamente privadas, ao mesmo tempo que resulta de certo modo irrelevante para o mundo. ???Esta vis??o progra-m??tica determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia também a actual crise da f?? que, concretamente, ?? sobretudo uma crise da esperança cristã???. A esperança recebe uma nova forma. ???Agora chama-se: f?? no progresso???. A esperança de um mundo perfeito que parecia poder alcançar-se gra??as ?? ci??ncia e a uma política fundamentada cientificamente.
Dentro da ideia de progresso, h?? duas categorias que ocupam cada vez mais o centro: raz??o e liberdade, conceitos nos quais h?? também um aspecto político, que se manifesta essencialmente em duas etapas. A primeira ?? a Revolução francesa e o Iluminismo, que pretendia suplantar a f?? da Igreja com uma f?? s?? racional; e a segunda ?? o marxismo e a revolução prolet??ria, que pretendia um mundo novo gra??as ?? mudança de estruturas.
Marx fascinou e fascina ainda hoje, ???gra??as ?? agudeza das an??lises e ?? clara indica????o dos instrumentos para a mudança radical???. Mas cometeu um erro profundo. ???Esqueceu que o ser humano permanece sempre humano. Esqueceu o ser humano e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensa-va que, uma vez solucionada a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro ?? o materialismo: de facto, a pessoa humana não ?? s?? o produto das condições económicas e não se pode cur??-la apenas do exterior, criando condições económicas favoráveis???.
Autocr??tica da modernidade
O fracasso das utopias modernas imp??e voltar a pensar as coisas. é preciso ???uma auto-cr??tica da Idade Moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção da esperança???. Neste diálogo, os cristãos devem ???aprender de novo em que consiste realmente a sua esperança, o que ?? que temos para oferecer ao mundo e, ao contr??rio, o que ?? que não podemos oferecer???.
?? necessário que junto com essa autocr??tica da Idade Moderna ???conflua também uma autocr??tica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre a compreender-se a si mesmo a partir das suas próprias ra??zes???. O cristianismo moderno, com efeito, tem-se reduzido com frequ??ncia ou tem-se resignado a aceitar o papel de religi??o privada, portadora de um an??ncio de salva????o individual.
O Papa não tem uma vis??o negativa nem da ci??ncia nem do progresso. O problema ?? que o progresso, ???em m??os erradas, pode vir, e veio a ser, realmente um progresso terr??vel no mal???. Da?? que ???se ao progresso técnico não corresponde um progresso na for-ma????o ética do ser humano, no crescimento do homem interior, ent??o aquele não ?? um progresso, mas uma amea??a para a humanidade e para o mundo???. Do mesmo modo, a raz??o deve abrir-se ?????s for??as salv??ficas da f??, ao discernimento entre o bem e o mal???.
Face ao desenvolvimento da Idade Moderna, a conclusão ?? que ???o ser humano tem necessidade de Deus; de contr??rio fica privado de esperança???. O homem não pode ser redimido por uma estrutura externa. ???Não ?? a ci??ncia que redime a pessoa humana. O ser humano ?? redimido pelo amor???, pelo amor incondicional de Deus.
