Navarro-Valls: Tr??s eixos do pontificado de João Paulo II
Mais que fazer uma s??ntese do pontificado de João Paulo II, o antigo porta-voz da Santa S?? centrou-se em tr??s aspectos do que o Papa se prop??s: refazer um sistema comum de refer??ncias, tornar a f?? presente na sociedade e actualizar a institui????o hist??rica do Papado.
Para nos voltarmos a entender
Uma das maiores dificuldades para a transmissão de valores religiosos no mundo actual ??? disse Navarro-Valls ??? ?? o desaparecimento de um sistema comum de refer??ncias. Conceitos como natureza humana, alma, consciência moral, ora????o, Deus, vida eterna, família, amor humano, sexualidade, etc. antes formavam parte do sistema de refer??ncias compartilhado pela comunidade. Hoje convivem juntos diversos sistemas de refer??ncia e essas palavras não significam o mesmo para todos.
Face a este problema, João Paulo II enfrentou a enorme tarefa de refazer aquele vocabu-l??rio comum. Da?? que a aparente dificuldade formal de alguns dos seus escritos tenha esta explica????o: ???A necessidade de raciocinar a partir da raiz, definindo cada termo. Uma coisa parecida com quem afina cuidadosamente um instrumento musical antes de se lan??ar a executar um concerto???.
Por exemplo, nas suas enc??clicas Veritatis splendor e Fides et ratio, ???o Papa não come??a por explicar o pensamento cristão sobre a verdade objectiva ou sobre a complementa-ridade do saber de f?? e do saber de raz??o, mas penetra até ao fundo das ambival??ncias da modernidade para reconstruir a partir da raiz a perspectiva cristã em ambos os campos???.
Igualmente, para facilitar a compreens??o da vis??o cristã do amor humano e de tudo o que com ele se relaciona (família, matrim??nio, sexualidade...), dedicou uma longa s??rie de audi??ncias das quartas-feiras aos fundamentos antropológicos, filos??ficos e escritur??sticos deste tema. O resultado foi um livro: ???Criou-os homem e mulher???.
Do mesmo modo, a sua mensagem moral, ???n??o sobrecarrega o homem de responsabili-dades morais que não entende, mas ajuda a entender que a aceitação de responsabilidades morais ?? o ??nico modo para chegar a ser o que se ??; quer dizer, pessoa humana???.
Tornar a f?? presente na sociedade
Um dos traços que se querem impor nesta nossa ??poca ?? o de que o religioso pertence exclusivamente ?? ??rbita do privado e da subjectividade. Face a esta situação, Navarro-Valls explicou que a actividade de João Paulo II se dirigiu a situar a humanidade face ?? dimens??o religiosa. ????? deste ponto de vista que se pode entender o viajar cont??nuo do Papa. Com uma consequência imediata: p??r socialmente em evid??ncia a f?? que as pessoas vivem???.
???Essas manifestações enormes que aconteciam s?? por ocasi??o das viagens do Papa, fizeram ver que a f?? cristã não pode ser confinada ao privado porque seria renunciar ?? sua pretens??o de verdade???, assegurou Navarro-Valls.
João Paulo II soube utilizar o fasc??nio da imagem t??o próprio da cultura moderna para tornar vis??vel o modelo vital cristão. ???Ele, que acreditava no valor dos sinais, criou uma iconografia sugestiva e cheia de conteúdo sem??ntico onde as palavras pareciam insuficientes???.
Actualiza????o do Papado
O terceiro aspecto destacado por Navarro-Valls foi a renova????o que realizou João Paulo II no Papado como institui????o hist??rica.
???Se no início do Pontificado a imagem que a imprensa transmitia era de uma grande novidade pessoal dentro do padr??o de uma antiga institui????o, com os anos foi pondo mais a t??nica nas mudanças que João Paulo II tinha introduzido na própria institui????o???. João Paulo II saiu dos c??nones que se tinham atribuído aos Papas.
João Paulo II administrou os sete sacramentos nos seus anos de pontificado, visitou cada uma das par??quias de Roma, expandiu ao m??ximo a actividade evangelizadora com as suas viagens. Esta ???grande obra de renova????o da institui????o pontifícia??? não foi feita atrav??s de decretos e leis, mas sim com um exercício pessoal decidido. ???O Pontificado não aparece como gestor de uma Igreja dedicada ?? sua sobreviv??ncia num momento hist??rico de crise, mas sim como centro a partir do qual se expande a todo o mundo a missão apost??lica cristã???.
Em última an??lise, João Paulo II soube voltar a propor as perguntas essenciais: quem ?? o ser humano?; que significa a dignidade humana? ???Este pontificado de João Paulo II ??? concluiu Navarro-Valls ??? vai para l?? dos limites do momento cultural precisamente proporcionando certezas sobre Deus e sobre o ser humano onde a modernidade se tinha desenvolvido sobre as ru??nas de um humanismo triste e desencantado???.
Respondendo a uma pergunta do público que reflectia o medo do avan??o do Islão, Navarro-Valls recordou a viagem ao Senegal onde existia uma conviv??ncia exemplar entre cristãos e muçulmanos. O Presidente acolheu o Santo Padre com grande respeito. Quando pronunciava o seu discurso de boas-vindas, o Papa sussurrou ao porta-voz: ???O discurso deste senhor ?? melhor que o nosso???. Al??m disso, a sua mulher era católica. E na Indon??sia, pa??s oficialmente islâmico, durante a sua visita havia vários ministros católicos no governo. Tamb??m se interrogava se o que consideramos como excessos do Islão não ser??o consequências da pobreza em que alguns pa??ses estão mergulhados.
A Funda????o SOKA, organizadora do simp??sio, tem a seu cargo as actividades do Cen-tro de Confer??ncias Zonnewende (em Moergestel). Assinalando os 25 anos, as suas actividades ??? dirigidas ?? família; sobre responsabilidade social corporativa, desenvol-vimento social, iniciativas culturais ou art??sticas ??? adaptaram os seus conteúdos ?? ideia ???O homem livre que observa, reflecte e coopera numa renova????o da cultura???. A SOKA pretende aproveitar o seu anivers??rio para fazer reflectir os assistentes sobre a sua atitude como cidad??os responsáveis.

