A procura do rosto de Cristo
O livro abarca o per??odo desde o Baptismo de Jesus até ?? confiss??o de Pedro e ?? Transfigura????o, e anuncia-se uma segunda parte em que também tratar?? das narra????es da infância.
As fontes usadas são fundamental e principalmente os Evangelhos tal como a Igreja os recebeu. Para a sua interpreta????o, Bento XVI serve-se sobretudo dos outros livros da Escritura. No pr??logo, o Papa assinala que a sua obra pressup??e a exegese hist??rico-cr??tica. Afirma que se serve dos seus resultados, mas deseja ir mais al??m deste m??todo, desembocando numa interpreta????o propriamente teológica.
O livro não tem notas de rodap??. Al??m de Padres e escritores espirituais, os autores especializados que cita s??o, na sua maioria, católicos mas também alguns protestantes e judeus são mencionados no texto do livro de maneira abreviada. Os dados completos são recolhidos numa s??mula final, dividida pelos capítulos do livro. Antes desta listagem aparece uma enumera????o de obras recentes e importantes sobre Jesus. Em concreto o autor cita seis autores, cinco alem??es (Gnilka, Berger, Sch??rmann, S??ding, Schnackenburg) e um americano (Meier), todos eles católicos.
As questões que trata foram escolhidas necessariamente entre uma imensa multid??o de possibilidades. Por isso, selecciona alguns aspectos, que ilumina e interpreta a partir doutros pontos da Sagrada Escritura, recorrendo também a diversas interpretações antigas e modernas e intercalando ocasionalmente actualiza????es pontuais para chegar aos traços que melhor definem a vida e o ser de Jesus.
Vidas de Jesus ao gosto do autor
O g??nero que se conhece como vidas de Jesus aparece nos s??culos XIX e XX, com obras de autores racionalistas. Para estes autores, os Evangelhos não são vidas de Jesus, mas sim vidas mitificadas de Jesus, que requerem uma depura????o cr??tica. Apesar do ??xito inicial, ficou claro, como p??s em evid??ncia Albert Schweitzer na sua c??lebre investiga????o sobre as vidas de Jesus, que o Jesus que apresentavam era o reflexo dos postulados filos??ficos dos seus autores.
O novo modo de encarar a figura de Jesus levou consigo uma reac????o por parte dos autores católicos, que com maior ou menor inten????o apolog??tica escreveram vidas de Jesus a partir dos Evangelhos, mas contextualizadas hist??rica, geogr??fica e sociologicamente.
Como o Papa aponta, o panorama mudou na década de cinquenta por causa da separa????o entre o Jesus hist??rico e o Cristo da f?? (de Jesus não sabemos nada, mas isso não importa porque o que interessa ?? a f?? em Cristo proclamado pela comunidade). O panorama dos últimos anos não mudou substancialmente. Não s?? se renunciou a escrever uma vida de Jesus ??? o Papa propriamente também não tenta fazer uma, se entendemos como tal um relato cronológico da vida de uma personalidade ???, mas os estudos que se realizaram sobre a figura do Mestre de Nazar?? mediante sofisticados m??todos hist??rico-cr??ticos não conseguiram sen??o apresentar umas imagens de Jesus dilu??das e com frequ??ncia quase contradit??rias que não conseguem convencer ningu??m. O resultado ?? dram??tico e o Papa assim o afirma: ???A figura própria de Jesus afastou-se ainda mais de n??s???(p??g.12).
Bento XVI conhece a situação e, demarcando-se nitidamente desta linha, sustenta que os Evangelhos nos dizem quem ?? Jesus, o que fez, o que disse e o que significa para a história.
Ainda que Jesus de Nazar?? não seja propriamente uma vida de Jesus nem t??o pouco um retrato, pode dizer-se que ?? uma biografia na medida que sabe ir ao fundo do mais ??ntimo e próprio da pessoa, seguindo a sua actividade e ensinamentos. Penso que o livro do Papa consegue mostrar quem ?? verdadeiramente Jesus, deixando-o falar a Ele. ?? capaz por tanto de nos mostrar os traços essenciais da sua vida.
Se os estudos exeg??ticos actuais sobre Jesus t??m feito dele uma figura do passado do qual não sabemos nada, Bento XVI quer trazer-nos Jesus para o presente.
O m??todo hist??rico e seus limites
Se os estudos exeg??ticos actuais sobre Jesus t??m feito dele uma figura do passado de que quase nada sabemos, Bento XVI quer trazer-nos Jesus para o presente. D??-se conta do grave perigo que correm os crentes se se imp??e essa postura erudita e céptica que esbate a figura de Jesus e a deixa na n??voa de um tempo pret??rito. ???Uma tal situação ?? dram??tica para a f??, porque torna incerto o seu verdadeiro ponto de refer??ncia: a amizade ??ntima com Jesus, da qual tudo depende, corre o perigo de cair no vazio??? (p??gs. 12 e 13).
A história de Jesus ?? essencial para a f??. P??e isso o Papa assume o m??todo hist??rico utilizado pelos exegetas, mas purificando-o dos preconceitos que o pervertem. Sem história, a f?? cristã desaparece e transforma-se numa religi??o mais ou num gnosticismo. Por isso a f?? exige o m??todo hist??rico. Mas o m??todo tem limites enquanto que ?? explica????o do passado. Deve deixar a palavra no passado, como palavra humana que ??. O m??todo pode descobrir pontos de contacto com o presente mas por sua própria natureza não pode fazer actual a palavra.
Bento XVI conhece muito bem a metodologia hist??rico-cr??tica empregada pelos exegetas. Mas para Joseph Ratzinger a exegese b??blica não ?? uma ci??ncia hist??rica, mas sim sobretudo hermen??utica. Qualquer interpreta????o sup??e uma pr??-compreens??o. Os exegetas t??m as suas. A de Bento XVI quer ser a da Igreja (sem que isso signifique, é preciso diz??-lo, que a sua exegese pretenda p??r ponto final ?? interpreta????o b??blica).
A unidade da Escritura
O estudo da figura de Jesus do ponto de vista da B??blia ?? o que torna Jesus de Nazar?? t??o atraente. ?? esse um tipo de aproxima????o ao texto sagrado que nas últimas décadas tem sido desenvolvido pela ???exegese can??nica???. Este tipo de exegese ???interpreta cada texto b??blico ?? luz do c??none das Escrituras, quer dizer, da B??blia enquanto recebida como norma da f?? por uma comunidade de crentes. Procura situar cada texto no interior do ??nico des??gnio divino, com a finalidade de chegar a uma actualiza????o da Escritura para o nosso tempo??? (Pontifícia Comissão B??blica). Bento XVI faz alus??o a ela como dimens??o essencial da exegese e p??e-na em pr??tica.
O leitor continuamente encontrar?? no livro brilhantes e sugestivas interpretações dos Evangelhos que se iluminam e entendem ?? luz de outras passagens dos mesmos Evangelhos ou dos outros livros do Antigo e do Novo Testamento, apresentados com o habitual rigor, agudeza e profundidade a que o actual pont??fice nos tem habituado. ?? este, no meu entender, um dos aspectos mais destac??veis de Jesus de Nazar??. Trata-se de uma aut??ntica exegese b??blica, que não s?? explica e clarifica uma passagem ?? luz de outras mas que também fixa a interpreta????o de um determinado texto e deixa a descoberto interpretações arbitr??rias.
Bento XVI apresenta o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, hist??rico e faz da sua comunh??o com o Pai o centro da sua personalidade.
Um Jesus para hoje
Boa parte da exegese actual, que se pode qualificar como mais s??lida, apesar das incertezas em que com frequ??ncia se move, manifesta que o mais espec??fico de Jesus ?? a sua refer??ncia total a Deus e a sua união com Ele. O Papa afirma: ???Sobre o mesmo ponto de apoio assenta este meu livro: considera Jesus a partir da sua comunh??o com o Pai. Este ?? o verdadeiro centro da sua personalidade. Sem esta comunh??o nada se pode compreender e, partindo dela, Jesus torna-se presente também hoje para n??s???(p??g.14). Dessa união vem a autoridade do seu ensinamento: do seu contacto com o Pai face a face, da vis??o d???Aquele que est?? no seio do Pai. ?? assim que os Evangelhos ganham sentido.
Bento XVI tenta, e na minha opinião consegue, apresentar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, hist??rico. Como afirma o pont??fice, esta figura ????? muito mais lógica e, do ponto de vista hist??rico, até mais compreens??vel que as reconstru????es com que depar??mos nas últimas décadas. Penso que precisamente este Jesus ??? o dos evangelhos ??? seja uma figura historicamente sensata e convincente??? (p??g. 23). Não o ??, pelo contr??rio, pensar que a comunidade tenha sido a criadora da imagem que temos dele.
O Jesus hist??rico ?? o dos Evangelhos e continua a falar-nos hoje. Não ?? possível encontrar-se com Jesus e não ser interpelado por Ele. O Papa não escreve um livro mais ou menos erudito sobre Jesus. O m??todo de interpreta????o que emprega leva uma busca pessoal do rosto de Cristo e um desejo permanente de actualizar a sua figura para os homens e mulheres de hoje.
Juan Chapa ?? professor de Sagrada Escritura na Universidade de Navarra.
Uma vers??o mais ampla desta resenha foi publicada em Nueva Revista, n?? 112 (Setembro de 2007).
Joseph Ratzinger/Bento XVI. Jesus de Nazar??. A Esfera dos Livros, Lisboa 2007, 452 p??ginas, 20 euros.
