Um exemplo de franqueza, humildade e transpar??ncia
Franqueza, humildade, transpar??ncia poderiam ser tr??s palavras para definir o tom e conteúdo deste documento de cinco folhas, que talvez não seja exagerado qualificar como um dos mais significativos do pontificado pelo que mostra como ?? Bento XVI. O Papa diz-se surpreendido pela veem??ncia de algumas polémicas, que transmitem inclusivamente sentimentos de ??dio, indica alguns erros da C??ria Romana que tentar??o ser melhorados no futuro e, sobretudo, explica o alcance, os limites e o sentido profundo da decisão. Tem também palavras de agradecimento para quantos lhe manifestaram expressamente a sua sintonia neste per??odo.
Erros e mal-entendidos
Pelo que se refere aos erros, o Papa menciona o desconhecimento das declara????es negacionistas do holocausto judeu por parte de um dos quatro bispos, Williamson. Essas opini??es foram precisamente um dos rastilhos que incendiaram o caso, provocando um curto-circuito que deu origem a que a medida do Papa chegasse distorcida ?? opinião pública e fosse interpretada em tom anti-semita. "Disseram-me que seguir com aten????o as notícias acessíveis pela Internet teria dado a possibilidade de conhecer atempadamen-te o problema. Disso eu tiro a li????o de que, no futuro, na Santa S?? deveremos prestar mais aten????o a esta fonte de notícias".
Outro engano, acrescenta o Papa, foi não ter explicado de modo "suficientemente claro" o que significava o levantar da excomunh??o. Neste sentido, o Papa explica que a revoga????o da excomunh??o (uma san????o disciplinar) tem um efeito pessoal, limitado aos quatro bispos: significa um novo convite a voltar ?? unidade da Igreja. Em relação ?? Fraternidade de S. Pio X, a institui????o que agrupa os seguidores de Lefebvre, o Papa sublinha que "at?? as questões relativas ?? doutrina se esclarecerem, a Fraternidade não tem nenhum estatuto can??nico na Igreja, e os seus ministros, não obstante terem sido livres da san????o eclesi??stica, não exercem legitimamente minist??rio algum na Igreja".
Neste sentido anunciou que a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei que ?? o organismo da Santa S?? que acompanha as relações com os lefevbrianos, vai estar ligada ?? Congrega????o para a Doutrina da F??. Esta medida esclarece que os problemas para tratar de agora em diante "s??o de natureza essencialmente doutrinal, e se referem sobretudo ?? aceitação do Conc??lio Vaticano II e do magist??rio p??s-conciliar dos Papas".
No seguimento desta novidade "técnica", Bento XVI faz uma observa????o muito concreta dirigida ?? Fraternidade S. Pio X: "n??o se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962". Mas também lan??ou uma mensagem aos que "se mostram como grandes defensores do Conc??lio": é preciso recordar que "o Vaticano II leva consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quer ser obediente ao Conc??lio, deve aceitar a f?? professada ao longo de s??culos e não pode cortar as ra??zes das quais vive a ??rvore".
Raz??es de uma decisão
Uma vez livre o campo de assuntos colaterais, o Papa responde na última parte da carta ?? pergunta central: era necessária esta medida? Não h?? questões mais urgentes na Igreja? Neste ponto, a vis??o do Papa ?? clara. E d?? a impress??o de que quer evitar qualquer tipo de interpretações que possam sugerir que a medida corresponde a uma preferência pessoal do Pont??fice. Assim, sublinha que a prioridade que est?? por cima de todas ?? "conduzir os homens ao Deus de que fala a B??blia". Da?? deriva a import??ncia da unidade dos crentes, que se manifesta de modos diversos no diálogo inter-religioso e no ecumenismo. Sob essa perspectiva, adquirem o seu pleno sentido outras "reconcilia????es pequenas e m??dias".
"Que o humilde gesto de uma m??o estendida tenha dado lugar a uma agita????o t??o grande, convertendo-se precisamente assim no contr??rio de uma reconcilia????o, ?? um facto do qual devemos tomar nota". Citando o Evangelho, o Papa pergunta-se se era um equ??voco ir ao encontro do irm??o, ainda que ele tenha uma vis??o muito cr??tica a nosso respeito. Não se escondem, com efeito, as inconveni??ncias dessa comunidade, a sua "soberba e presun????o". Mas, "por amor ?? verdade" - diz mais ?? frente - devo acrescentar que recebi também uma s??rie impressionante de testemunhos de gratid??o, nos quais se percebe uma abertura dos cora????es".
O Papa faz outra pergunta sobre se nos pode deixar indiferentes uma comunidade com 491 sacerdotes, 215 seminaristas e milhares de fi??is. Face ??s reac????es, Bento XVI faz uma an??lise que reflecte certamente o ponto de vista de não poucas notícias e coment??rios publicados pela imprensa nas últimas semanas. "??s vezes tem-se a impress??o de que a nossa sociedade tem necessidade de um grupo, pelo menos, com o qual não tem qualquer toler??ncia; contra o qual possa tranquilamente atacar com ??dio. E se algu??m tenta aproximar-se - neste caso o Papa -, também ele perde o direito ?? toler??ncia e pode também ser tratado com ??dio, sem medo nem reservas".
A carta conclui com uma refer??ncia a S??o Paulo, que na sua carta aos G??latas adverte para um perigo: "se vos mordeis e devorais uns aos outros, acabareis por vos destruirdes mutuamente". O Papa afirma que sempre lhe pareceu um exagero ret??rico, e em parte o ??. Mas que "infelizmente este ???morder e devorar' existe também hoje na Igreja como express??o de uma liberdade mal interpretada".

