Bento XVI, o Papa da palavra, mais do que da imagem
"Col??nia teve grandes multid??es e muita coreografia mas, sobretudo, temas comprometedores", observa Gaspare Barbiellini Amidei no "Corriere della Sera" (20 de Agosto de 2005). "O Papa da palavra, mais do que da imagem, apresenta uma aposta dif??cil, cujo resultado não est?? garantido nos ritmos ef??meros dos telem??veis e dos "spots", numa sociedade asceticamente devota da televis??o e do "star system". ?? mais f??cil comunicar pelo ecr??, do que alcançar os cérebros".
"Fazendo finca-p?? nos conteúdos e elegendo como primeira prova o terreno, sentimentalmente mais seco, da Europa da Reforma e do ate??smo pr??tico, Bento XVI mostrou qual o objectivo do seu Pontificado: dar respostas pensadas sobre o significado das perguntas. A metodologia fintou as interpretações que vulgarizavam a sua estratégia comunicativa. Ratzinger vai directamente ?? solução ???filos??fica'. Com uma intui????o moderna, retoma o seu discurso precisamente nesse temido per??odo que ?? a ??poca do iluminismo, momento considerado pelo conservadorismo religioso como o ponto de m??ximo afastamento entre o homem europeu e o Deus da tradi????o".
Bento XVI, acrescenta o comentarista, "torna seu, e também de Deus, o princ??pio liberal do direito que precede o tema da autoridade. Inesperadamente, o Papa proclamou em Col??nia um direito: o de Deus falar ?? sua jovem multid??o, ???esperança do mundo'. Gritou: "Deixai a Deus o direito de vos falar". Perante um mundo que corre o risco de ver negados os direitos do homem em nome de uma violenta interpreta????o de Deus, "a resposta de Ratzinger est?? na ora????o, recitada com os seus jovens nos umbrais de uma sinagoga e de uma mesquita. Aqui, palavra e imagem, ser e dizer, sentir e ver, podem converter-se numa mesma coisa, se cada um for sincero. Como escrevia a antiga sabedoria grega, o ser e o dizer são uma mesma coisa".
O "carisma" de Bento
O escritor Vittorio Messori comenta no "Corriere della Sera" (22 de Agosto) que os factos desmentiram "os que temiam - entre eles eu - que o novo Papa teria dado a impress??o de um substituto um pouco coibido, um ???vice' chamado a gerir um acontecimento que ele não tinha iniciado e que talvez nem sequer o quisesse".
No conceito de Matthias Drobinski ("S??ddeutsche Zeitung", de 22 de Agosto), "ao Papa Bento sucedeu o mesmo que aos Reis Magos, de quem a Jornada Mundial da Juventude tomou o lema: actuou, precisamente, pelo facto de se ter posto a caminho para um encontro que não tinha sido planeado por ele - o t??mido intelectual - e ter tido ele a valentia de se apresentar perante uma multid??o ruidosa".
Que efeito causou? "Por detr??s do entusiasmo oficial das delega????es" - opina Drobinski - "ocultava-se uma certa decep????o; um ou outro católico jovem dado ao entusiasmo j?? não estava t??o euf??rico quando o Papa se retirou. Apesar de tudo, aclamaram-no, primeiro os 400.000 participantes de toda a JMJ, depois os 800.000 da noite de s??bado e, no final, o milh??o de assistentes ?? Missa de encerramento. Em primeiro lugar, porque muitos participantes da JMJ viram com simpatia que Bento não tentara copiar o seu carism??tico e espont??neo predecessor João Paulo II, mas que se mantivera aut??ntico na sua timidez e nos seus gestos pouco ensaiados. Depois, porque ?? um costume muito alem??o medir um Papa pelo que diz em público... e os alem??es apenas eram um em cada quatro participantes. E, por último, porque um acontecimento com tanta gente jovem tem momentos em que também se celebra a si mesmo, descontra??do e embriagado de esp??rito comunit??rio. Se bem que os grupos que cantavam, agitavam bandeiras e tocavam apitos tenham marcado as imagens de televis??o, o encontro de Col??nia não foi apenas um ???evento': muitos jovens mantiveram-se s??rios, procuraram o silêncio e dedicaram-se a rezar, apreender e debater".
Assim, diz Messori, o encontro de Col??nia "demonstrou que, qualquer que seja o carisma do Papa, os jovens apercebem-se de que o que conta de verdade ?? Cristo e a Igreja, dos quais um homem de cada vez ?? Vig??rio e Chefe. Portanto, diversidade mas não descontinuidade, entre João Paulo II e Bento". O novo Papa "apresenta-se a cada um como um pai acolhedor e respeitoso mas, ao mesmo tempo, consciente de ser mestre e garante da ortodoxia da f??. Este ?? o homem que, ?? viva for??a, quis que o Catecismo se convertesse num best-seller: não simplesmente para se vender, mas para se estudar, e mesmo aprender-se de mem??ria. Precis??o, rigor, recusa de qualquer ced??ncia ao sentimentalismo, ao desejo de cair bem ?? custa da verdade. ?? o sinal de um governo pac??fico mas, no entanto, tenaz. Que pretende deixar espa??o a todos e a tudo, menos ao erro".
Claro em relação aos muçulmanos
Magdi Allam, especialista em temas islâmicos do "Corriere della Sera", comenta no di??rio milan??s (21 de Agosto) o encontro de Bento XVI com representantes muçulmanos e louva " um Papa que recusa o diálogo que se resuma no rito formal e algo hip??crita de um forte aperto de m??os perante as c??maras de televis??o". Pelo contr??rio, o Papa colocou os muçulmanos na situação de "se confrontarem explicitamente com o sistema de valores que fundamenta a civilização humana. Sem concess??es aos temas sociais e económicos (a marginaliza????o, a mis??ria) que acompanham o fanatismo violento. Em Col??nia, Bento XVI inaugurou uma nova ??poca nas relações com os seguidores da terceira religi??o abra??mica, promovidos para o centro da principal emerg??ncia internacional pelo terrorismo e pelas preocupações suscitadas nas comunidades islâmicas radicadas no Ocidente".
Allam afirma que Bento XVI evitou o erro de usar, para a compreens??o dos muçulmanos, parâmetros que são próprios do cristianismo e do Ocidente. "Compreende que não t??m um Papa, nem h?? clero nem sacerdotes islâmicos. Reconhece que apenas uma ??nfima minoria de muçulmanos se identifica com as mesquitas, mesmo sendo crentes, porque o fundamento do Islão ?? a relação directa entre o fiel e Deus. Apercebe-se de que, por um misto de ingenuidade, cobardia e ideologia, o Ocidente ofereceu grande parte das suas próprias mesquitas aos extremistas que legitimam, expl??cita ou camufladamente, o terrorismo e relativizam o valor da vida segundo a identidade das vítimas".
?? evidente, conclui, que "a guerra mundial contra o terrorismo e a ideologia niilista que nega a sacralidade da vida de todos, s?? poder?? ser ganha com a participa????o convicta do conjunto dos muçulmanos, os quais - h?? que record??-lo - s??o, paradoxalmente, tanto os principais verdugos, como as principais vítimas deste horror globalizado".
Bento XVI face ?? crise da Alemanha
A partir do acolhimento dispensado ao Papa na Alemanha, Hermann Tertsch, colunista de "El Pa??s" (Madrid, 23 de Agosto), chama a aten????o, numa perspectiva não religiosa, para a ajuda que Bento XVI pode representar para o seu pa??s.
"O papado de Karol Wojtyla foi o pior que aconteceu aos que apostavam no cinismo e na resigna????o para perpetuar a ditadura comunista e defender os dogmas sem relevo do determinismo hist??rico. Tudo indica que o de Bento XVI - logicamente mais breve - pode mobilizar as consciências individuais com consequências imprevis??veis. Se, com a primeira viagem ao seu pa??s natal, a Pol??nia, João Paulo II despoletou o movimento que haveria de devolver a liberdade e a dignidade ??s na????es e aos indiv??duos oprimidos por uma ideologia corrupta, criminosa e mentirosa, o novo Papa, muito mais intelectual que o seu antecessor, realizou a primeira visita ao seu pa??s natal e levantou uma inaudita onda de entusiasmo com a o seu apelo ?? activa????o da valentia e da for??a do individuo. Se o primeiro chamou ?? insubmissão face ?? opress??o, este chama ?? activa????o do sentido transcendente do individuo - também do não religioso - na liberdade e na confian??a face ?? docilidade que o reducionismo não laico imp??e , mesmo anti-religioso. Por isso p??e ??nfase, não apenas no diálogo inter-eclesial, mas no que seria de chamar comunh??o trans-religiosa".
Tertsch pensa que a Alemanha era um campo de experiências especialmente dif??cil para este objectivo, pois "em nenhum pa??s europeu esteve a Igreja Católica t??o tentada a ganhar aceitação pela ren??ncia aos seus princ??pios e c??digos. Nenhuma igreja, como a católica alem??, teve um movimento secular e intelectual t??o activo e movimentado para impor reformas ao gosto do "consumidor" e uma moderniza????o que acabasse na demoli????o das suas estruturas hier??rquicas e da sua antiquada organiza????o, que permitiram ?? Igreja Católica manter a sua unidade e não confundir modernidade com modas".
"Se todo o mundo sofre hoje da incerteza, na Alemanha, onde depois do desastre do nazismo e da guerra, a identidade e a confian??a se fundamentaram exclusivamente na prosperidade material, a crise económica causou estragos an??micos. O Papa não vai libertar a Alemanha da sua crise. Mas muitos acreditam j?? que este Papa pode ajudar tanto a sua p??tria como João Paulo II ajudou a sua".
Aceprensa
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