O amor, chave da exist??ncia cristã
"Ao início do ser cristão, não h?? uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que d?? ?? vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo". A f?? cristã, ao colocar o amor no centro, assumiu o n??cleo da f?? de Israel, dando-lhe ao mesmo tempo uma nova profundidade e amplitude. Jesus uniu o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo. Como Deus nos amou primeiro, agora o amor j?? não ?? apenas um ??mandamento??, mas a resposta a esse dom com que Deus vem ao nosso encontro.
"Num mundo em que ao nome de Deus se associa ??s vezes a vingan??a ou mesmo o dever do ??dio e da violência, esta ?? uma mensagem de grande actualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Enc??clica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por n??s. Ficam assim delineadas as duas grandes partes que comp??em esta Carta, profundamente relacionadas entre si. A primeira ter?? uma ??ndole mais especulativa, pois desejo -ao início do meu Pontificado- precisar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com a relação intr??nseca daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte ter?? um carácter mais concreto, porque tratar?? de como cumprir de maneira eclesial o mandamento do amor ao próximo".
Resgatar o amor
O Papa inicia a primeira parte sublinhando que o termo "amor" se tornou hoje uma das palavras de que mais se usa e abusa, a que damos acep????es completamente diferentes. Em toda essa multiplicidade de significados sobressai, como arqu??tipo por excel??ncia, o amor entre o homem e a mulher, em que interv??m inseparavelmente corpo e alma.
Esse amor entre homem e mulher definia-se na antiga Gr??cia com o nome de eros. Na B??blia, e sobretudo no Novo Testamento, aprofunda-se no conceito de "amor", e p??e-se de lado a palavra eros em favor do termo ??gape, para exprimir um amor de doa????o, oblativo.
Esta nova vis??o do amor, que ?? uma novidade essencial do cristianismo, foi julgada com frequ??ncia de forma negativa, como se se tratasse de uma rejei????o do eros e da corporeidade. Embora tenha havido tendências desse tipo, o sentido deste aprofundamento ?? outro. O eros, posto na natureza do ser humano pelo seu próprio Criador, tem necessidade de disciplina, de purifica????o e de amadurecimento para não perder a sua dignidade original e não se degradar em puro "sexo", transformando-se em mercadoria.
Desejo e entrega
A f?? cristã considerou sempre o homem como um ser em que o esp??rito e a mat??ria se compenetram, alcan??ando assim uma nova nobreza. "A evolução do amor para níveis mais altos, para as suas ??ntimas purifica????es, faz que ele procure agora o carácter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade -??apenas esta única pessoa??- e no sentido de ser ??para sempre??. O amor compreende a totalidade da exist??ncia em toda a sua dimens??o, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor ?? ????xtase??; ??xtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como ??xodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua liberta????o no dom de si, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus".
Eros e agape exigem não estar nunca separados completamente um do outro. Pelo contr??rio, quanto mais encontram o seu justo equil??brio -embora em dimensões diversas-, mais se cumpre a verdadeira natureza do amor. Embora o eros inicialmente seja sobretudo desejo, ?? medida que se aproximar da outra pessoa centrar-se-?? cada vez menos sobre si próprio, procurar?? cada vez mais a felicidade do outro, entregar-se-?? e desejar?? "ser" para o outro: assim se adentra nele e se afirma o momento do agape.
Com frequ??ncia, no debate filos??fico e teológico, estas distin????es radicalizaram-se até ao ponto de se contraporem: seria, assim, tipicamente cristão o agape; a cultura n??o-cristã, sobretudo a grega, caracterizar-se-ia pelo eros. Se este antagonismo fosse levado ao extremo, a ess??ncia do cristianismo ficaria desvinculada das relações vitais fundamentais da exist??ncia humana. Constituiria um mundo totalmente singular, que talvez se pudesse considerar, mas nitidamente apartado do conjunto da vida humana. Quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, produz-se uma caricatura ou, quando muito, uma forma redutiva do amor.
Eros e matrim??nio
Nas culturas que circundam o mundo da B??blia, a imagem de deus e dos deuses permanece pouco clara e ??, em si mesma, contradit??ria. O Deus ??nico, em quem Israel cr??, ama pessoalmente. O seu amor ??, ali??s, um amor de predilec????o: entre todos os povos, Ele escolhe Israel e ama-o, embora com o objectivo de salvar justamente deste modo a toda a humanidade. Ele ama, e este seu amor pode ser qualificado sem dúvida como eros que, no entanto ?? totalmente ??gape também: não s?? porque se d?? de todo gratuitamente, sem nenhum m??rito anterior, mas também porque ?? amor que perdoa.
"?? imagem do Deus monote??sta corresponde o matrim??nio monog??mico. O matrim??nio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ??cone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano. Esta estreita liga????o entre eros e matrim??nio na B??blia praticamente não encontra paralelo na restante literatura".
Deus ama-nos primeiro
Em Jesus Cristo, que ?? o amor de Deus incarnado, o eros-agape atinge a sua forma mais radical. Ao morrer na cruz, entregando-se para elevar e salvar o ser humano, exprime o amor na sua forma mais sublime. Jesus assegurou a este acto de oferenda a sua presen??a duradoura atrav??s da institui????o da Eucaristia, em que se nos entrega como um novo man?? que nos une a Ele.
Participando na Eucaristia, também n??s nos implicamos na din??mica da sua entrega. Unimo-nos a Ele e ao mesmo tempo unimo-nos a todos os outros a quem Ele se entrega; todos nos tornamos assim "um s?? corpo". Desse modo, o amor a Deus e o amor ao nosso próximo fundem-se realmente. O duplo mandamento, gra??as a este encontro com o agape de Deus, j?? não ?? somente uma exigência: o amor pode ser "mandado" porque antes se entregou.
"Na liturgia da Igreja, na sua ora????o, na comunidade viva dos crentes, n??s experimentamos o amor de Deus, sentimos a sua presen??a e aprendemos deste modo também a reconhec??-la na nossa vida quotidiana. Ele amou-nos primeiro, e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, também n??s podemos responder com o amor. Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em n??s próprios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e desta ??antecipa????o?? de Deus pode, como resposta, despontar também em n??s o amor".
Amor para al??m do sentimento
"No desenrolar deste encontro mostra-se também claramente que o amor não ?? apenas um sentimento. Os sentimentos v??o e v??m. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não ?? a totalidade do amor".
Este encontro entre Deus e n??s implica também a nossa vontade e o nosso entendimento. O sim da nossa vontade ?? vontade de Deus abarca entendimento, vontade e sentimento no acto ??nico do amor. ?? um processo que est?? sempre a caminho. O amor nunca se d?? por "conclu??do" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio.
"Amor a Deus e amor ao próximo são insepar??veis, constituem um ??nico mandamento. Mas ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, j?? não se trata de um ??mandamento?? que do exterior nos imp??e o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce atrav??s do amor".
Um cora????o que v??
Na segunda parte da enc??clica ("Caritas - a pr??tica do amor pela Igreja enquanto ??comunidade de amor??), o Papa salienta que o amor pelo próximo, enraizado no amor de Deus, al??m de ser uma obriga????o para cada fiel, o ?? também para toda a comunidade eclesial. Nos Actos dos Ap??stolos diz-se que "os crentes possu??am tudo em comum, pelo que, no meio deles, j?? não subsiste a diferença entre ricos e pobres. Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunh??o material - verdade seja dita - não p??de ser mantida. Mas o n??cleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a algu??m os bens necessários para uma vida condigna".
Tripla tarefa da Igreja
A consciência dessa obriga????o teve um relevo constitutivo na Igreja j?? desde o seu início e cedo se evidenciou também a necessidade de uma determinada organiza????o para a cumprir com mais efic??cia.
Desse modo, na estrutura fundamental da Igreja surgiu a "diaconia" como serviço de amor pelo próximo, levado a cabo comunitariamente e de forma ordenada. Com a difusão progressiva da Igreja, este exercício de caridade confirmou-se como um dos seus ??mbitos essenciais.
A natureza ??ntima da Igreja exprime-se, assim, numa tripla tarefa: an??ncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebra????o dos sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). S??o tarefas em que uma pressup??e as outras e não podem separar-se entre si.
Desde o s??culo XIX, "vemos levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objec????o, esplanada depois com insist??ncia sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres- diz-se - não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justi??a. As obras de caridade - a esmola - seriam na realidade, para os ricos, uma forma de subtra??rem-se ?? instaura????o da justi??a e tranquilizarem a consciência, mantendo as suas posi????es e defraudando os pobres nos seus direitos".
"O marxismo tinha indicado, na revolução mundial e na sua prepara????o, a panaceia para a problem??tica social: atrav??s da revolução e consequente colectiviza????o dos meios de produção -asseverava-se em tal doutrina - devia de um momento para o outro caminhar tudo de modo diverso e melhor. Este sonho desvaneceu-se".
O magist??rio pontifício, a come??ar pela enc??clica Rerum novarum de Le??o XIII (1891) até chegar ?? trilogia das enc??clicas sociais de João Paulo II: Laborem exercens (1981), Sollicitudo rei socialis (1987), Centesimus annus (1991), desenvolveu uma doutrina social muito elaborada, que prop??e orienta????es v??lidas que v??o muito para l?? das fronteiras da Igreja.
O papel da Igreja e o do Estado
Para definir com maior cuidado a relação entre o necessário empenho em prol da justi??a e o serviço da caridade, é preciso anotar duas situações de facto":
- A cria????o de uma ordem justa da sociedade e do Estado ?? dever central da política, e portanto, não pode ser tarefa imediata da Igreja. A doutrina social católica não quer conferir ?? Igreja um poder sobre o Estado, mas simplesmente purificar e iluminar a raz??o. Quer contribuir para a formação das consciências, para que as verdadeiras exigências da justi??a sejam captadas, reconhecidas e realizadas.
- Ao mesmo tempo, não existe nenhuma normativa estatal que, por justa que seja, possa tornar sup??rfluo o serviço do amor. O Estado que a tudo quer prover acaba por se tornar uma inst??ncia burocr??tica que não pode assegurar o mais essencial de que o ser humano sofredor -qualquer ser humano - necessita : uma amorosa dedica????o pessoal.
Na nossa ??poca, um efeito positivo da globaliza????o manifesta-se no facto de que a solicitude pelo próximo supera as fronteiras das comunidades nacionais, tende a prolongar os seus horizontes ao mundo inteiro. As estruturas do Estado e as associa????es humanit??rias desempenham de diferentes modos a solidariedade expressa pela sociedade civil: deste modo se formaram m??ltiplas organiza????es com objectivos caritativos e filantr??picos. Al??m disso, na Igreja Católica e noutras comunidades eclesiais surgiram novas formas de actividade caritativa. ?? desejável que se estabele??a entre todas estas inst??ncias uma colabora????o frut??fera.
O espec??fico da caridade cristã
?? importante que a actividade caritativa da Igreja não perca a sua identidade, tornando-se uma simples variante da organiza????o assistencial, mas que mantenha todo o esplendor da caridade cristã e eclesial. Portanto, a actividade caritativa cristã, al??m de se fundamentar na competência profissional, deve faz??-lo sobre a experiência de um encontro pessoal com Cristo, cujo amor tocou o cora????o do crente, suscitando nele o amor pelo próximo.
A caridade cristã deve ser também independente de partidos e ideologias. O programa do cristão -o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus - ?? ??um cora????o que v????. Este cora????o v?? onde h?? necessidade de amor e actua em consequência.
A actividade caritativa cristã também não deve ser um meio para conseguir convers??es. O amor ?? gratuito; não ?? realizado para alcançar outros fins. Isto não significa que esta ac????o deva deixar de lado a Deus e a Cristo. O cristão sabe quando deve falar de Deus e quando ?? justo não faz??-lo e deixar somente falar o amor.
Neste contexto, face ao perigo do secularismo que pode condicionar muitos cristãos na tarefa caritativa, ?? necessário reafirmar a import??ncia da ora????o. O contacto vivo com Cristo evita que a experiência das enormes necessidades e dos próprios limites arrastem para uma ideologia que pretenda fazer aqui e agora aquilo que, aparentemente, Deus não consegue fazer, ou cair na tenta????o de ceder ?? in??rcia e ?? resigna????o. Quem reza não desperdi??a o tempo, apesar de as circunst??ncias o impelirem unicamente ?? ac????o, nem pretende mudar ou corrigir os planos de Deus, mas procura - seguindo o exemplo de Maria e dos santos - obter de Deus a luz e a for??a do amor que vence toda a obscuridade e ego??smo presentes no mundo.
O Papa glosa a enc??clica
Bento XVI glosou em várias ocasi??es o significado da enc??clica Deus caritas est. As palavras que se seguem foram pronunciadas a 23 de Janeiro num discurso aos participantes num simp??sio organizado pelo Conselho Pontifício "Cor Unum".
"Uma primeira leitura da enc??clica poderia talvez dar a impress??o de que se divide em duas partes pouco relacionadas entre si: uma primeira parte te??rica, que fala da ess??ncia do amor, e uma segunda parte que trata da caridade eclesial, das organiza????es caritativas. No entanto, o que a mim me interessava era precisamente a unidade entre os dois temas, que s?? se compreendem bem se forem vistos como uma s?? coisa.
"Antes de mais nada, era necessário afrontar a ess??ncia do amor tal como se nos apresenta ?? luz do testemunho b??blico. Partindo da imagem cristã de Deus, era preciso mostrar que o homem est?? criado para amar e que este amor, que num primeiro momento se manifesta sobretudo como eros entre o homem e a mulher, tem que se transformar depois em agape, em dom de si ao outro, para responder precisamente ?? aut??ntica natureza do eros.
"Sobre esta base, teria que se esclarecer depois que a ess??ncia do amor de Deus e do próximo descrito na B??blia ?? o centro da exist??ncia cristã, ?? fruto da f??. A seguir, era necessário sublinhar numa segunda parte que o acto totalmente pessoal do agape não pode ficar em algo meramente individual, mas pelo contr??rio tem que se tornar também um acto essencial da Igreja como comunidade.
"A organiza????o eclesial da caridade não ?? uma forma de assist??ncia social que se sobrep??e por casualidade ?? realidade da Igreja, uma iniciativa que poderia ser deixada a outros. Na realidade, essa ac????o faz parte da natureza da Igreja. Assim como o Logos divino tem a sua correspond??ncia no an??ncio humano, a palavra da f??, assim também ao Agape que ?? Deus tem que corresponder o agape da Igreja, a sua actividade caritativa. Esta actividade, al??m do seu primeiro significado concreto de ajuda ao próximo, cont??m essencialmente o de comunicar também aos outros o amor de Deus, que n??s próprios recebemos. Em certo sentido, tem que tornar vis??vel o Deus vivo. Na organiza????o caritativa, Deus e Cristo não t??m que ser palavras estranhas; na realidade, indicam o manancial origin??rio da caridade eclesial. A for??a da Caritas depende da for??a da f?? de todos os seus membros e colaboradores. O espect??culo do homem que sofre toca o nosso cora????o. Mas o empenho caritativo tem um sentido que vai para al??m da mera filantropia."
Aceprensa
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