Tornar vis??vel um catolicismo positivo e convincente
O clima cultural
Como noutras ocasi??es, o Papa apresentou no início uma rápida an??lise da situação cultural da nossa ??poca. O panorama italiano caracteriza-se, como no resto do Ocidente, por uma forte incid??ncia de uma onda cultural laicista e iluminista, que considera racionalmente v??lido s?? o que se pode experimentar e calcular. No plano do comportamento, define-se por ter erigido a liberdade individual como valor supremo. A ética fica encerrada nos confins do relativismo e do utilitarismo, pois se exclui todo o princ??pio moral que seja v??lido e vincul??vel. Nesse esquema, Deus não tem lugar nem na cultura nem na vida pública.
Na aplica????o pr??tica desta proposta, contudo, acaba-se por reduzir o homem a um simples produto da natureza. Por fim, elimina-se de facto o que era o fundamento desta vis??o do mundo: a reivindica????o da centralidade do homem e da sua liberdade. "Não ?? dif??cil ver que este tipo de cultura representa um corte radical e profundo não s?? no cristianismo mas também, mais em geral, com as tradi????es religiosas e morais da humanidade". Uma consequência ?? a sua incapacidade para estabelecer um verdadeiro diálogo com outras culturas, nas quais a dimens??o religiosa est?? fortemente presente. Tamb??m não se sabe responder ??s perguntas essenciais sobre o sentido da vida.
Desejo de esperança
Esta corrente cultural mostra, portanto, uma profunda car??ncia e também um grande desejo de esperança, que inutilmente tenta dissimular. O Papa observou que esta crise - o perigo que sup??e romper com as ra??zes cristãs da nossa civilização - foi advertida por "muitos e importantes homens de cultura, inclusivamente entre aqueles que não partilham ou praticam a nossa f??". E aqui vem a propósito recordar os debates públicos que o ent??o cardeal Ratzinger manteve com alguns desses intelectuais.
A conclusão a que chega o Papa depois desta breve an??lise não ?? pessimista, pois sustenta que se trata de uma situação prop??cia para que Igreja renove o seu dinamismo. "Toca-nos a n??s - não com as nossas pobres for??as, mas com a for??a que vem do Esp??rito Santo - dar respostas positivas e convincentes ??s expectativas e interroga????es da nossa gente". ?? um serviço que a Igreja pode prestar não s?? ?? It??lia, mas também ao mundo inteiro.
Bento XVI não ofereceu receitas nem t??cticas sobre como articular o testemunho cristão nos diversos ??mbitos da vida humana. Mas manifestou que é preciso que se torne vis??vel o grande "sim" que sup??e a f??. "o grande sim" que Deus, em Jesus Cristo, comunicou ao homem e ?? sua vida, ao amor humano, ?? nossa liberdade e ?? nossa intelig??ncia". Deve manifestar-se que "a f?? em Deus de rosto humano traz a alegria ao mundo. O cristianismo, com efeito, est?? aberto a todo o que de justo, verdadeiro e puro h?? nas culturas e nas civiliza????es, a tudo o que atrai, consola e fortalece a nossa exist??ncia".
O exemplo dos primeiros cristãos
Essa atitude não equivale a um simples adaptar-se ??s culturas, j?? que sempre far?? falta um trabalho de purifica????o, de sana????o e amadurecimento. No plano intelectual ?? necessário, concretamente, "ampliar os espa??os da nossa racionalidade, tornar a abri-la ??s grandes questões da verdade e do bem". E como o homem não ?? s?? raz??o e intelig??ncia, é preciso também tornar patente o sentido do amor e da dor. Recordando João Paulo II, Bento XVI disse que face ao poder do mal e do pecado, Deus não op??e um poder maior mas sim que "prefere p??r o limite da sua paci??ncia e da sua miseric??rdia, um limite que ??, em concreto, o sofrimento do Filho de Deus".
P??r em pr??tica a f?? nem sempre ?? f??cil, e inclusivamente pode resultar discut??vel. Mas esses obst??culos não são raz??o para o des??nimo: "ao contr??rio, devemos sempre estar preparados para dar resposta (apologia) a quem pergunte pela raz??o (logos) da nossa esperança (...). E devemos faz??-lo em todas as frentes, no campo do pensamento e da ac????o, dos comportamentos pessoais e do testemunho público". Para ilustr??-lo, o Papa referiu-se ?? vida dos primeiros cristãos. A primeira grande expans??o mission??ria do cristianismo no mundo greco-romano foi possível gra??as "?? forte unidade que se realizou, na Igreja dos primeiros s??culos, entre uma f?? amiga da intelig??ncia e uma praxis de vida caracterizada pelo amor recíproco e pela aten????o sol??cita pelos pobres e os que sofrem".
Educar a intelig??ncia e a liberdade
A unidade entre a verdade e a caridade continua a ser, também na nossa ??poca, o caminho para a evangeliza????o. Neste contexto, ressalta a import??ncia da educa????o da pessoa, tanto da intelig??ncia como da liberdade e da capacidade de amar, sem esquecer o recurso ?? gra??a de Deus. S?? assim se poder?? fazer face ao risco de desequil??brio entre o rápido crescimento do nosso poder técnico e o crescimento, muito mais ??rduo, dos nossos recursos morais.
Uma educa????o verdadeira tem necessidade de "despertar a valentia pelas decisões definitivas, que hoje se consideram um v??nculo que mortifica a nossa liberdade, mas que - na realidade - são indispens??veis para crescer e alcançar algo grande na vida, especialmente para fazer amadurecer o amor em toda a sua beleza: quer dizer, para dar consist??ncia e significado ?? mesma liberdade.
Sob esse ponto de vista, acrescentou o Papa, ?? que se entendem os "n??os" da doutrina de Cristo face a "formas d??beis e desviadas do amor ou falsifica????es da liberdade", ou intentos de reduzir a raz??o s?? ao que ?? calcul??vel e manipul??vel. "Na realidade, estes ???n??os' são mais um ???sim' ao amor aut??ntico, ?? realidade do homem tal como foi criado por Deus".
Na vida pública
A última parte do discurso foi dedicada ?? caridade e ?? responsabilidade cívica e política dos católicos. Para os cristãos, a caridade não ?? simples benefic??ncia: "a caridade da Igreja torna vis??vel o amos de Deus no mundo e torna assim convincente a nossa f?? em Deus encarnado, crucificado e ressuscitado". Sobre as formas organizadas de caridade, o Papa sublinhou a import??ncia de que mantenham o seu perfil espec??fico, livre de sugest??es ideológicas e de simpatias partidárias.
A passagem mais destacada pela imprensa foi a que dedicou ?? ac????o civil e política dos católicos, tema recorrente na actualidade política desde que h?? mais de uma década se abandonou em It??lia o conceito de unidade política dos católicos num mesmo partido (a democracia cristã). O Papa sublinhou que a Igreja "n??o ?? e não quer ser um agente político. Ao mesmo tempo, tem um profundo interesse pelo bem da comunidade política, cuja alma ?? a justi??a". A raz??o ?? que "Cristo veio salvar o homem real e concreto, que vive na história e na comunidade, e portanto o cristianismo e a Igreja, desde o come??o, tem tido uma dimens??o e um valor também públicos".
Com a distin????o e autonomia recíproca entre Estado e Igreja, entre o que ?? de C??sar e o que ?? de Deus, Jesus Cristo trouxe uma novidade substancial ??s relações entre religi??o e política, que abriu o caminho para um mundo mais humano e mais livre. A liberdade religiosa, "que advertimos como um valor universal, particularmente necessário no mundo de hoje", tem a sua raiz hist??rica nessa distin????o.
Quest??es não negoci??veis
A contribui????o espec??fica da Igreja neste campo expressa-se num nível duplo: por um lado, a doutrina social, argumentada a partir do que ?? conforme ?? natureza de todo o ser humano, que contribui a que se possa identificar eficazmente o que ?? justo, de modo que possa ser depois realizado; e por outro, a aten????o pela formação das consciências, pois são necessárias "energias morais e espirituais que permitam antepor as exigências da justi??a aos interesses pessoais, ou de uma categoria social ou inclusivamente do Estado".
Assim pois, "a tarefa imediata de actuar no ??mbito político, para construir uma ordem social justa na sociedade, não ?? da Igreja como tal, mas sim dos fi??is leigos, que actuam como cidad??os com a sua própria responsabilidade". O Papa assinalou alguns campos que requerem uma especial aten????o e trabalho: a guerra, o terrorismo, a luta contra a fome, a sede e algumas epidemias. Acrescentou que é preciso fazer frente, com a mesma determina????o e clareza de intenções, ao "perigo de decisões políticas e legislativas que contradizem valores fundamentais e princ??pios antropológicos e ??ticos radicados na natureza do ser humano". Mencionou concretamente as que se referem ?? "tutela da vida em todas as suas fases, desde a concepção até ?? morte natural, e a promo????o da família fundada sobre o matrim??nio, evitando introduzir no ordenamento público outras formas de união que contribuiriam a desestabiliz??-la, ofuscando o seu carácter peculiar e o seu papel social insubstitu??vel".
Guia de navega????o
A ??nica refer??ncia por assim dizer "interna" ?? vida da Igreja foi feita no fim do discurso. Al??m de insistir em que para um cristão o essencial ?? a sua união com Cristo, disse que é preciso "resistir ?? ???seculariza????o interna' que amea??a a Igreja do nosso tempo, como consequência dos processos de seculariza????o que têm marcado profundamente a civilização europeia".
Se se consideram em separado cada um dos temas abordados no discurso, a interven????o do Papa não trouxe "novidades", pois são conteúdos de que j?? tem falado noutras ocasi??es, e que inclusivamente desenvolveu durante anos. Talvez a novidade esteja na abund??ncia e na conex??o das questões entre si: um elenco que converte este discurso numa espécie de guia de navega????o que guiar?? a actividade da Igreja na It??lia durante os próximos anos. E que oferece, sem dúvida, orienta????es significativas para outros pa??ses.
Diego Contreras
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